De canetas bilionárias a guerras corporativas na indústria
Disputa por fusões, a guerra de mercado das canetas emagrecedoras e a tensão tarifária nos EUA marcaram o mercado farmacêutico em 2025
por Ana Claudia Nagao em
O ano de 2025 começou com forte tensão na indústria farmacêutica já nos primeiros dias do ano. O embate entre Hypera Pharma e EMS se consolidou como o episódio corporativo mais ruidoso do setor. A crise ganhou força em janeiro, quando o conselho de administração da Hypera passou a reagir publicamente à movimentação da EMS, controlada por Carlos Sanchez, que buscava ampliar sua influência acionária e avançar em uma possível combinação de negócios.
Ao longo do ano, a Hypera deixou claro que via a iniciativa como uma tentativa de tomada hostil. Em documentos enviados ao Cade, a companhia afirmou que a atuação da EMS “não se caracteriza como um investimento passivo”, mas sim como uma estratégia para interferir na governança e nas decisões estratégicas da empresa.
O caso ganhou ainda mais sensibilidade após a companhia apontar que informações relevantes teriam sido omitidas ao órgão antitruste durante o processo de análise.
A disputa se intensificou dentro do próprio conselho da Hypera, com aumento de participação acionária pelo fundador e articulações para formação de novos acordos entre acionistas. Em meio ao conflito, a companhia reforçou sua posição institucional ao sustentar que qualquer movimento de fusão deveria preservar o valor para os acionistas e a independência estratégica do grupo.
Disputa pela Medley é um ativo estratégico para a indústria
Se o caso Hypera expôs os limites das fusões hostis, a venda da Medleymostrou o apetite do mercado por ativos estratégicos. A divisão de genéricos da Sanofi atraiu, ao longo de 2025, o interesse de pelo menos oito farmacêuticas, transformando o processo em uma das maiores disputas do setor no Brasil.
EMS, Aché, Cimed, Eurofarma, Hypera e outros grandes grupos nacionais entraram no páreo, reconhecendo a Medley como uma plataforma robusta de genéricos, com forte presença no varejo e escala industrial relevante. O CEO da Cimed, João Adibe Marques, afirmou que “vai brigar até o fim” pela compra da Medley, reforçando que a aquisição seria transformacional para o posicionamento da companhia no mercado de genéricos e em futuras apostas, como medicamentos de GLP-1 após o vencimento de patentes.
Do lado da EMS, o interesse pela farmacêutica foi tratado como parte de uma estratégia de crescimento inorgânico, complementando investimentos já feitos em inovação e medicamentos complexos. A própria Sanofi confirmou o recebimento de ofertas e estruturou o processo de venda em etapas, com expectativa de avaliações bilionárias, ainda que o valor final fosse alvo de negociações intensas.
A guerra das canetas emagrecedoras redefine o mercado
Em 2025, o mercado de medicamentos à base de GLP-1 se consolidou como o principal campo de batalha da indústria farmacêutica. A explosão da demanda por tratamentos inovadores para diabetes e obesidade acelerou investimentos, disputas regulatórias e movimentos estratégicos que colocaram o Brasil no centro dessa transformação.
A EMS assumiu protagonismo ao lançar suas canetas Lirux e Olire para diabetes e obesidade e ampliar sua ambição internacional, levando os produtos ao mercado norte-americano. Em parceria com a Fiocruz, a companhia também anunciou a produção nacional de liraglutida e semaglutida, movimento visto como estratégico para reduzir dependência externa e ampliar o acesso da população a esses tratamentos.
“Este é um marco histórico para a EMS e para a indústria farmacêutica brasileira. Desenvolver, registrar e produzir medicamentos de alta complexidade com tecnologia 100% nacional, e agora transferi-la à Fiocruz, reafirma nosso compromisso com a inovação”, afirma Sanchez.
Enquanto isso, outras farmacêuticas intensificaram articulações para não ficar para trás com a proximidade do fim da patente do Ozempic. A Anvisa sinalizou que dará prioridade para a análise de genéricos do medicamento, com foco nos lançamentos previstos para 2026.
Parcerias industriais e tecnológicas também ganharam espaço, como o acordo entre Eurofarma e Novo Nordisk, que visa o fortalecimento da distribuição e promoção da semaglutida, incluindo especialidades, farmácias e regiões não atendidas atualmente pela multinacional. Segundo foi definido, a Eurofarma será a distribuidora exclusiva para a comercialização e promoção de duas novas marcas com o princípio ativo que chegarão ao país.
Tarifaço de Trump gera tensão global
A indústria farmacêutica global voltou ao centro do debate geopolítico em 2025 com a retomada da agenda protecionista do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Ao longo do ano, o governo norte-americano anunciou, estudou e revisou uma série de medidas tarifárias que reacenderam temores sobre aumento de preços de medicamentos, pressão sobre cadeias globais de suprimento e impacto direto sobre detentores de patentes.
Segundo análises divulgadas, as propostas de taxação poderiam elevar os preços dos medicamentos nos Estados Unidos em até 129%, atingindo principalmente produtos importados e insumos farmacêuticos ativos. A possibilidade de tributação sobre empresas detentoras de patentes também entrou no radar da Casa Branca, em uma tentativa de forçar a internalização da produção e reduzir o déficit comercial do país.
O cenário, no entanto, foi marcado por idas e vindas. Em meio à reação negativa do mercado e à pressão da indústria, os Estados Unidos anunciaram isenções de tarifas específicas para o setor farmacêutico, reconhecendo o caráter estratégico dos medicamentos e os riscos de desabastecimento. Ainda assim, novas ameaças de um “tarifaço ampliado” mantiveram o setor em alerta, sobretudo diante da dependência global de insumos produzidos fora do território americano.
No Brasil, o tema foi acompanhado de perto, mas com avaliações mais cautelosas. Nelson Mussolini, presidente executivo do Sindusfarma, afirmou que não acredita em impacto relevante para o mercado brasileiro, destacando que o país não é um grande exportador de medicamentos acabados para os Estados Unidos e que a indústria nacional está mais voltada ao consumo interno e a mercados emergentes.
A entidade também ressaltou que eventuais efeitos indiretos, como aumento de custos de matérias-primas ou pressão cambial, tendem a ser diluídos ao longo da cadeia. Avaliação semelhante foi compartilhada por outras lideranças do setor, que enxergaram as medidas mais como um instrumento de barganha política do que como uma mudança estrutural permanente.
Biossimilares avançam e ganham papel estratégico
O ano de 2025 consolidou os biossimilares como um dos principais vetores de crescimento da indústria farmacêutica no Brasil. Impulsionado por avanços tecnológicos, maior maturidade regulatória e aumento da demanda por tratamentos de alto custo, o segmento deixou de ser apenas uma alternativa terapêutica para se tornar um pilar estratégico do setor.
A sofisticação tecnológica envolvida no desenvolvimento de biossimilares tem elevado o patamar da indústria nacional. Diferentemente dos medicamentos genéricos tradicionais, esses produtos exigem investimentos robustos em pesquisa clínica, plantas industriais de alta complexidade e domínio de processos biotecnológicos avançados, fatores que estimulam inovação, qualificação profissional e ganhos de escala.
O presidente-executivo da PróGenéricos, Tiago de Moraes Vicente, afirma que o segmento de biossimilares tem expectativa de crescimento acelerado até 2030. “Diversos medicamentos biológicos originadores em breve perderão a exclusividade e, consequentemente, passarão a operar em um ambiente de maior concorrência. Quando isso ocorrer, as economias globais geradas pelos biossimilares poderão atingir os US$ 290 bilhões (R$ 1,571 trilhão) até 2027’’, estima o executivo.