Debandada impacta atuação da Abbott na América Latina
Divisão da multinacional norte-americana demite líderes regionais e redesenha mapa de atuação no continente
A Abbott Nutrition, divisão de consumo da farmacêutica norte-americana, promoveu uma profunda reestruturação em suas operações na América Latina após registrar desempenho aquém do esperado, especialmente no último trimestre de 2025.
Segundo o portal argentino Pharmabiz, a multinacional norte-americana decidiu desligar os principais executivos responsáveis por Brasil, Chile e Equador, além de avançar com cortes adicionais que atingiram dezenas de cargos de liderança na região.
A companhia dispensou Max Dumas, gerente-geral do Brasil; Juan Carlos Sola Alcázar, que comandava a operação no Chile; e María Fernanda Barona, principal executiva no Equador. As saídas ocorreram em meio a resultados negativos que vêm se acumulando ao longo de vários períodos, com impacto direto no negócio de nutrição, área estratégica para a farmacêutica, que reúne marcas como Ensure e Glucerna.
Além das demissões, o movimento incluiu a saída, por iniciativa própria, do argentino Nicolás Tussie, que havia assumido há menos de um ano a liderança da divisão de Nutrição no Peru. No total, cerca de 30 executivos deixaram a companhia como parte do processo de reorganização.
Abbott redesenha o organograma na América Latina
Como resposta à crise, a multinacional decidiu redesenhar sua estrutura regional na América Latina. A nova configuração prevê a criação de duas grandes regiões – uma combinará Peru e Equador, sob a liderança de Jeanine Mellet, e outra reunirá Brasil, Argentina e Chile.
Para esta última macrorregião, ainda não foi anunciado o nome do novo gerente-geral, que terá base no Brasil. Segundo fontes do mercado, a centralização sugere que o País será o foco principal do projeto de recuperação, o que pode indicar possíveis mudanças futuras também nas políticas comerciais.
Na Argentina, a presidência local está a cargo de Alejandro Sánchez, responsável legal pelos negócios de primary care, nutrição, diabetes e tecnologia médica.
Os cortes ocorrem em um momento delicado para a empresa. De acordo com o balanço divulgado em 22 de janeiro, a divisão global de nutrição registrou vendas de US$ 8,451 bilhões (R$ 44,4 bilhões) em 2025, um crescimento modesto de 0,4% em relação a 2024, ou 1,2% em termos orgânicos.
No entanto, o último trimestre revelou um tombo expressivo de 8,9% na receita do segmento. No consolidado, a Abbott apresentou crescimento de 5,7%, impulsionado principalmente pelo desempenho da área de dispositivos médicos. Ainda assim, as ações da companhia caíram após a divulgação dos resultados do quarto trimestre.
Categoria em turbulência
Consultadas pelo Panorama Farmacêutico, fontes com trânsito no mercado farmacêutico da América Latina avaliam que o mercado de nutrição infantil vive um momento de grande competitividade, agravado pelo alto valor agregado desses produtos. A retração também seria impulsionada pela queda nas taxas de natalidade.
A decisão ocorre em um contexto no qual fórmulas infantis de empresas concorrentes, como Nestlé e Danone, passaram por um recall global. Em 2022, a companhia também colocou sua fábrica em Michigan, nos Estados Unidos, em operação suspensa, após suspeitas de possível contaminação em suas fórmulas infantis. A medida provocou uma ruptura no abastecimento, sentida em quase todo o mundo.
Operação no Brasil também teve retração
A operação brasileira da farmacêutica apresentou uma retração ainda mais acentuada no acumulado de 2025, em contraste com os principais concorrentes do setor. De acordo com indicadores da Close-Up International, houve um recuo de 10,83% no período nas vendas em reais, que caíram de R$ 1,3 bilhão em 2024 para R$ 1,2 bilhão (queda de R$ 146,2 milhões).
Vendas em queda
(Vendas da Abbott em bilhões de R$)

Especialistas admitem que, além da retração nas vendas, concorrentes com estratégias comerciais mais agressivas cresceram em ritmo acelerado. Apesar do momento difícil, o mercado ainda demonstra confiança no laboratório. “A operação é sólida, mas passa por um momento de correção de rota”, analisa um interlocutor do setor.
Nesta terça-feira, dia 3, a redação do Panorama Farmacêutico entrou em contato com a Abbott no Brasil, que confirmou a ocorrência de demissões (sem citar nomes ou cargos) como parte de uma reformulação estratégica dos negócios. A farmacêutica reiterou que as mudanças não estão relacionadas ao desempenho da companhia e nem a questões envolvendo o recall de produtos em 2022.