E-commerce amplia fosso entre redes e farmácias independentes
Enquanto grandes varejistas somam cifras recordes, pequenos escancaram falta de maturidade tecnológica
por Gabriel Noronha em
Dois estudos escancaram um autêntico fosso digital no varejo farmacêutico. Enquanto grandes redes colhem resultados recordes nas vendas online e consolidam o e-commerce como motor de crescimento, a baixa maturidade tecnológica mantém a maioria dos PDVs independentes à margem dessa transformação.
De acordo com levantamento da Abrafarma, entre dezembro de 2024 e novembro de 2025, o faturamento das 29 redes de farmácias associadas no ambiente digital somou R$ 20,45 bilhões e cresceu 54,8% na comparação com o mesmo período anterior.
É a primeira vez que o segmento ultrapassou cifras de R$ 20 bi. Detalhe: os valores não chegavam a R$ 2 bi em 2020. Em apenas cinco anos, a representatividade do canal digital no volume total de negócios saltou de 3% para 18%.
No intervalo de 12 meses, mais de 150 milhões de clientes foram atendidos por sites e aplicativos, com média mensal de 12,6 milhões de consumidores e ticket médio de R$ 141,76. A base de clientes digitais avançou quase 40% no período.
E-commerce nas redes da Abrafarma
(em bilhões de R$)

Fontes: Abrafarma e FIA-USP
Redes colhem resultados após amadurecimento digital
Para as grandes redes, o crescimento é resultado direto de investimentos contínuos em tecnologia, logística, experiência do consumidor e integração entre canais físico e digital. O e-commerce deixou de ser apenas um canal complementar para se tornar um agregador relevante de faturamento e relacionamento.
“O ano passado foi um marco para as grandes redes no uso do e-commerce como agregador de resultados de venda. Há um claro amadurecimento do varejo farmacêutico. Por consequência, o consumidor sente-se mais confiante para realizar essas transações em um ambiente seguro e com o devido respaldo legal”, avalia Sergio Mena Barreto, CEO da Abrafarma.
Essa performance ocorre em sintonia com o avanço do e-commerce brasileiro como um todo. Segundo dados da Neotrust, o comércio eletrônico movimentou cerca de R$ 360 bilhões no último ano. Dentro desse contexto, o setor farmacêutico sobressaiu ao crescer aproximadamente 80%, consolidando-se como a quinta categoria mais relevante da cesta de consumo digital.
O executivo da área de negócios da Neotrust, Léo Bicalho, destaca que o desempenho do setor vai além de fatores conjunturais. “Esses indicadores refletem uma mudança estrutural no comportamento de compra dos consumidores, que passaram a incorporar a farmácia de vez na sua jornada digital, em busca de conveniência, disponibilidade e previsibilidade”, afirma.
Um dos exemplos mais emblemáticos dessa transformação foi o desempenho das canetas emagrecedoras. Entre janeiro e setembro de 2025, foram vendidas 2,34 milhões de unidades online, gerando R$ 3,01 bilhões em faturamento – montante quase cinco vezes maior do que o registrado no mesmo período de 2024.
Baixa digitalização trava competitividade das independentes
Enquanto as grandes redes aceleram no digital, a realidade da maioria das farmácias independentes ainda é marcada por processos manuais, baixa integração de sistemas e ausência de estratégias estruturadas de e-commerce. Uma pesquisa do Instituto de Pesquisa AXXUS com 420 proprietários de PDVs em todos os estados e no Distrito Federal revelou um cenário preocupante.
Um dos dados mais emblemáticos do estudo está na política comercial. Em 99% das farmácias independentes, os descontos são concedidos diretamente pelo atendente ou por um superior, sem qualquer parametrização sistêmica. “O cenário contrasta fortemente com o das redes corporativas, que utilizam regras automatizadas, inteligência de dados e precificação dinâmica”, ressalta Rodnei Domingues, diretor de pesquisa do instituto.
Além disso, 99,5% das lojas não mantêm programas de fidelidade. A fragilidade estende-se à gestão operacional, pois 86% ainda registram manualmente produtos esgotados e 95% não realizam integração eletrônica entre o sistema da loja e o distribuidor. “Isso culmina em uma compra mais baseada em relacionamento e argumentação do vendedor do que em aspectos técnicos”, complementa Domingues. O contraste entre redes e independentes ajuda a explicar por que o crescimento acelerado do e-commerce farmacêutico, embora positivo para o setor, também aprofunda desigualdades competitivas. Mais do que presença online, o desafio passa por integração de sistemas, profissionalização da gestão e mudança de mentalidade.