Entenda como uma cidade industrial deu vida ao Viagra
Declínio industrial do país facilitou estudos
por Gabriel Noronha em
O dia 27 de março de 2026 marca o 28º ano de aprovação do Viagra, medicamento utilizado mundialmente no tratamento da disfunção erétil. Sucesso de vendas em diversos países, com receitas anuais de quase US$ 2 bilhões em seu auge, o fármaco tem uma origem pouco conhecida. As informações são da BBC.
No início da década de 1990, durante testes com o composto sildenafil UK-92.480, desenvolvido para tratar hipertensão e angina, a Pfizer contratou uma empresa de pesquisa médica em Merthyr Tydfil, pequena cidade no sul do País de Gales.
Vivendo um período de declínio industrial, a região concentrava diversos trabalhadores dispostos a atuar como cobaias em testes clínicos da companhia por uma renda extra.
“No final dos anos 80 e início dos anos 90, foram tempos muito difíceis para nós e estávamos tentando conseguir dinheiro de qualquer maneira que pudéssemos”, relembra Idris Price, um dos voluntários.
“O dinheiro que o estudo nos pagava era muito importante para a minha família, já que naquela época não tínhamos nada. Isso nos permitiu conseguir comida extra e em vez de termos dois sacos de carvão para o fogo, tínhamos cinco. Na verdade, era um dinheiro fácil que fazia muita diferença”, complementa.
Viagra nasce de reações adversas ao composto
Histórias semelhantes levaram diversos homens jovens ao laboratório, que os recrutou para tomar o medicamento três vezes ao dia, durante dez dias. Embora o processo tenha transcorrido sem problemas, as observações sobre um dos efeitos adversos chamaram a atenção da farmacêutica.
“Os voluntários começaram a dizer: ‘É um pouco constrangedor, mas percebi que estou tendo mais ereções do que o normal e elas estão muito mais firmes’“, recorda Peter Ellis, médico que liderou a equipe que descobriu e desenvolveu o Viagra na Pfizer.
As constatações levaram a empresa a buscar recursos para ampliar as pesquisas com o composto. Em seguida, pacientes com disfunção erétil foram reunidos no Hospital Southmead, em Bristol, antes de um novo ensaio clínico ser conduzido no ano seguinte, em 1994, em Swansea.
Neste terceiro teste, com um espectro mais amplo de pacientes, a farmacêutica incluiu homens com diabetes e doenças cardíacas, para quem a disfunção erétil pode ser um dos efeitos colaterais.
“A Pfizer pediu que fossem homens heterossexuais em uma relação estável”, lembrou David Prince, responsável pelo estudo. “Eles eram todos caras normais, todos casados. Homens comuns de Swansea”, acrescenta.
Os resultados foram tão positivos que vários envolvidos se recusaram a devolver os comprimidos não utilizados durante o processo, indicando à Pfizer que o produto tinha um grande potencial de mercado. Em 1998, o fármaco foi aprovado pelo FDA e chegou às farmácias como o primeiro tratamento oral para disfunção erétil. A condição, mais comum entre homens de 40 a 70 anos, afeta mais de 16 milhões de pessoas no Brasil e 332 milhões em todo o mundo.