EXCLUSIVO: Medicamentos para emagrecer podem movimentar até R$ 1 trilhão
Apenas 18 mil farmácias brasileiras comercializam medicamentos agonistas de GLP-1, apesar de um universo potencial de 95 milhões de consumidores
por Ana Claudia Nagao em
O mercado de canetas emagrecedoras, formado por medicamentos agonistas de GLP-1 usados para o tratamento de diabetes, obesidade e sobrepeso, vive um momento de expansão sem precedentes no Brasil. Segundo projeções, o segmento pode atingir cerca de R$ 1 trilhão em vendas, caso parte significativa do público potencial tenha acesso às terapias. Atualmente, as vendas giram em torno de R$ 8 bilhões.
A estimativa é de Paulo Paiva, consultor especializado no varejo farmacêutico, que acompanha de perto a evolução do setor e seus impactos sobre farmácias, indústrias e distribuidores. Apesar do potencial, o mercado ainda é pouco explorado.
“O Brasil reúne condições únicas. O país tem cerca de 210 milhões de habitantes, sendo 140 milhões adultos. Destes, 31% são obesos e 37% apresentam sobrepeso. Mesmo assim, o consumo atual ainda é restrito. As doses vendidas atendem entre 800 mil e 1 milhão de pessoas, deixando aproximadamente 95 milhões de potenciais pacientes fora do mercado”, afirma.
Principais moléculas do mercado de canetas emagrecedoras
Liraglutida
- Produtos de referência: Victoza e Saxenda (Novo Nordisk)
- Produtos similares: Olire e Lirux (EMS)
- Indicações: Diabetes e controle de peso
Semaglutida
- Produtos de referência: Ozempic e Wegovy (Novo Nordisk)
- Indicações: Diabetes e controle de peso
Tirzepatida
- Produto de referência: Mounjaro (Eli Lilly)
- Indicações: Diabetes e controle de peso
Barreira de preço versus margens
O custo elevado é o maior entrave para o consumo. Atualmente, o tratamento mensal varia de R$ 1.000 a R$ 2.000. A situação, porém, deve mudar a partir de março, com a expiração da patente do Ozempic, da Novo Nordisk, e a entrada de versões similares e de genéricos.
“A redução de preço é inevitável. Com a queda do valor de R$ 1.000 para R$ 500, o mercado tende a dobrar. Se o preço recuar para R$ 300, a expansão pode ser quase triplicada. A experiência com a liraglutida, que já conta com o genérico de marca Olire, da EMS, reforça essa expectativa”, destaca Paiva.
A chegada do Mounjaro ao Brasil, no terceiro trimestre do ano passado, trouxe aumento expressivo no faturamento das farmácias, mas provocou compressão das margens. Redes como Drogasil e Pague Menos registraram crescimento de dois dígitos em vendas, mesmo com queda do lucro percentual por unidade, avalia Fernando Ferreira, fundador da Retail Jedi.
Com os genéricos, o mercado deve se transformar. Uma simulação feita por Ferreira mostra que uma caneta de semaglutida referência, com custo de fábrica de R$ 1.050 e preço de venda de R$ 1.270, gera margem de 17,3% e lucro bruto de R$ 219,92. Com a chegada do genérico, o custo de aquisição cairia para R$ 682,55 e o preço ao consumidor ficaria em torno de R$ 950, aumentando a margem para 28,2% e o lucro bruto para R$ 267,45.“Isso permite que as farmácias ganhem mais em reais, mesmo vendendo a preços menores, devido à redução do capital imobilizado e ao aumento do volume de vendas. Trata-se de uma simulação, mas reveladora do potencial do mercado”, explica.

Segurança, roubos e cadeia fria limitam distribuição
Apesar da demanda crescente, o mercado enfrenta desafios operacionais. Atualmente, apenas 18 mil das 105 mil farmácias do país comercializam medicamentos agonistas de GLP-1.
A segurança é uma preocupação. “A farmácia voltou a ser alvo de assaltos por causa desses produtos, algo que não ocorria há décadas. Os custos com seguros e sistemas de proteção impactam principalmente pequenas e médias redes”, relata Paiva
Uma estratégia para minimizar riscos é a venda sob encomenda, usando ferramentas como “docas virtuais”, que permitem o pagamento antecipado e reduzem a necessidade de estoque físico. “É especialmente relevante para farmácias de pequeno e médio porte”, afirma Sandra Asturi, líder de inovação no GrupoSC e especialista em GC do Panorama Farmacêutico.
Outro desafio envolve a cadeia fria. Os medicamentos exigem armazenamento e transporte refrigerados, com controle rigoroso de temperatura, umidade e manuseio. “Grande parte das farmácias de menor porte ainda não está preparada para essa operação e a logística precisa evoluir antes de uma expansão maior”, alerta Paiva.
Exclusividade que limita acesso
O uso de PBM e do sistema de clique e retire vem gerando polêmica no mercado das canetas emagrecedoras. Grandes redes recebem preços mais vantajosos, enquanto pequenas farmácias chegam a pagar até R$ 100 a mais pelo mesmo produto. Como exemplo, um Ozempic adquirido via PBM, comprado pelo e-commerce e retirado na farmácia, pode custar R$ 1.270 em uma grande rede, enquanto uma farmácia independente vende o mesmo medicamento por R$ 1.370.
No entanto, o problema vai além do preço e atinge a disponibilidade do produto. Quando as fabricantes decidiram concentrar as vendas apenas nas grandes redes, acabaram criando um verdadeiro clube exclusivo de acesso. Um caso emblemático, lembrado por Ferreira, ocorreu quando ele atuava em uma distribuidora de medicamentos em Manaus (AM).
A empresa movimentava cerca de R$ 40 milhões por ano e comprava aproximadamente 10 milhões de unidades de medicamentos como Ozempic. A distribuidora abastecia farmácias independentes na região ribeirinha, incluindo localidades de difícil acesso na fronteira com a Colômbia.
De forma repentina, a fabricante decidiu não vender mais para essa distribuidora, direcionando o fornecimento apenas para grandes redes e atacadistas selecionados. O resultado foi imediato: farmácias pequenas e remotas ficaram sem acesso aos medicamentos, mesmo em regiões com alta demanda.
Crescimento acelerado nos próximos 12 meses
Mesmo com limitações, o mercado cresce rapidamente. Segundoestudo da Close-Up International, a categoria quase dobrou de tamanho nos últimos 12 meses encerrados em novembro de 2025, com alta de 89,9%. O Wegovy, indicado para obesidade, teve crescimento de 326,9%, enquanto o Mounjaro saltou de 35% para mais de 60% do faturamento mensal.
Em contrapartida, medicamentos mais antigos perderam espaço: Ozempic (-49%), Saxenda (-66,7%), Trulicity (-20,7%) e Victoza (-8,1%), mostrando substituição por terapias mais eficazes. O faturamento mensal total passou de R$ 0,9 bilhão, em maio, para R$ 1,5 bilhão em novembro de 2025.
Movimentação em vendas de GLP-1 nas farmácias
(em bilhões de R$ nos 12 meses até novembro do respectivo ano)

Impactos para indústrias e outras categorias do varejo
Ferreira avalia que o efeito dos agonistas de GLP-1 vai além das farmácias. O mecanismo que reduz apetite e promove saciedade influencia o consumo de alimentos, criando oportunidades e desafios para outras categorias.
Estudos internacionais apontam queda de até US$ 6,5 bilhões em vendas de alimentos nos EUA, com redução de cereais (65%) e refrigerantes (36,6%). “Farmácias que lucram com chocolates e salgadinhos podem ver essa receita diminuir à medida que mais clientes aderem ao tratamento”, alerta o consultor da Retal Jedi.
O avanço do GLP-1 também deve provocar um redesenho em outros nichos. Terapias para emagrecimento usadas de forma off-label, como combinações de bupropiona, naltrexona e até metformina, tendem a perder espaço. “À medida que o preço do GLP-1 se ajusta, o paciente migra. Esse movimento pode impactar indústrias menores e o mercado de manipulação, mas não deve gerar perdas relevantes para o varejo farmacêutico”, avalia Paiva.
Novas oportunidades em dermocosméticos e suplementos
A perda rápida de peso gera efeitos colaterais que abrem novas demandas para dermocosméticos e nutrição. O chamado “rosto de Ozempic” provoca flacidez e rugas, criando mercado para cremes com ácido hialurônico, retinol e bioestimuladores.
No setor de suplementos, colágeno, vitaminas e whey protein ganham espaço, assim como produtos para manejo de desconfortos gastrointestinais, como fibras e probióticos. A farmácia pode se tornar um centro de cuidado integral, oferecendo soluções que vão do medicamento à estética e nutrição, aumentando fidelização e tíquete médio. “O GLP-1 é um catalisador de transformação no varejo e nas categorias adjacentes”, ressalta Sandra.
Uma ruptura histórica no tratamento da obesidade
Para Paiva, os agonistas de GLP-1 representam uma virada histórica na medicina. “É a primeira vez que existe uma ferramenta realmente eficaz para tratar obesidade. Antes, tudo dependia quase exclusivamente de mudança de hábitos e força de vontade. Agora, o medicamento cria uma condição real de sucesso”, acredita.
O impacto tem sido comparado ao de outros medicamentos que revolucionaram não apenas tratamentos médicos, mas também o mercado farmacêutico global. Um exemplo clássico foi a migração das estatinas tradicionais para terapias de nova geração mais potentes, que ampliaram significativamente o número de pacientes tratados, ao oferecer maior eficácia e melhor controle dos níveis de colesterol.
São os casos do Crestor (rosuvastatina), da AstraZeneca, lançado no início dos anos 2000; e do Lipitor (atorvastatina), da Pfizer, que chegou ao mercado na década de 1990. Este último tornou-se um dos maiores exemplos de sucesso da história da indústria farmacêutica e um divisor de águas no tratamento das doenças cardiovasculares.
“O Lipitor ultrapassou a barreira de US$ 15 bilhões (R$ 79,5 bilhões) em vendas anuais em seu auge, tornando-se, por vários anos, o medicamento mais comercializado do mundo. No pico, o produto, sozinho, gerava receita equivalente à da 15ª maior indústria farmacêutica global”, relembra Paiva.
Outro marco foi o lançamento do Viagra em 2008, medicamento também da Pfizer para disfunção erétil. A sildenafila não apenas criou um novo tratamento, como inaugurou um mercado bilionário e permanente, que se mantém relevante até hoje com moléculas como tadalafila e vardenafila.
Para Paiva, o GLP-1 segue a mesma lógica desses blockbusters. “São medicamentos que não apenas substituem terapias existentes, como também expandem radicalmente o mercado, ao tornar o tratamento mais eficaz, mais aceito pelos médicos e mais desejado pelos pacientes”, acrescenta.
Um “oceano azul” de longo prazo
O potencial de mercado dos medicamentos agonistas do GLP-1 explica a intensificação das fusões e aquisições focadas em pipelines de emagrecimento e diabetes, com ênfase em formulações mais convenientes ao paciente. A Pfizer adquiriu a Metsera por US$ 4,9 bilhões (R$ 26,3 bilhões), apostando em moléculas que atuam via GLP-1 e amilina, incluindo versões semanais, mensais e orais – um passo importante para ampliar adesão e acesso.
Já a Roche firmou um acordo de US$ 5,3 bilhões (R$ 28,5 bilhões) com a Zealand Pharma, mirando o petrelintide. Esse análogo de amilina pode ser usado isoladamente ou em combinação com o agonista de GLP-1 da própria Roche (CT-388).
“Obesidade e oncologia são hoje as áreas que mais recebem investimento em pesquisa. Esse mercado ainda é um oceano azul, com céu claro e vento favorável por muito tempo”, projeta Paiva.