Farmácias em supermercados: muita manchete para pouca mudança estrutural
Tenho acompanhado o debate recente sobre a instalação de farmácias em supermercados e acredito que é preciso trazer mais racionalidade à discussão
Por Edison Tamascia, presidente da Febrafar e da Farmarcas
Tenho acompanhado o debate recente sobre a instalação de farmácias em supermercados e acredito que é preciso trazer mais racionalidade à discussão. Muita manchete para pouca notícia. Antes de qualquer alarde, é fundamental ler a lei e entender exatamente o que mudou.
A sanção da Lei nº 15.357, que altera a Lei nº 5.991, de 1973, não criou um modelo desregulado de venda de medicamentos. Ao contrário, reafirmou que as farmácias instaladas dentro de supermercados devem cumprir exatamente as mesmas exigências aplicáveis a qualquer outra drogaria do país.
Na Febrafar, entidade que representa mais de 18 mil PDVs em todo o Brasil, nossa posição sempre foi clara. Nunca defendemos reserva de mercado. Sempre defendemos a isonomia regulatória. Se houver farmácia dentro de supermercado, ela deve contar com farmacêutico durante todo o horário de funcionamento, controle rigoroso na dispensação e cumprimento integral das normas sanitárias.
A lei aprovada deixa isso explícito. A unidade deve operar em espaço físico delimitado e exclusivo. Não pode haver venda de medicamentos em gôndolas comuns. A dispensação ocorre apenas dentro da farmácia, sob responsabilidade técnica. São necessários controle de temperatura, ventilação, iluminação, armazenamento adequado e rastreabilidade dos produtos.
Diante disso, afirmo com tranquilidade que não vejo impacto estrutural no varejo farmacêutico por conta dessa regulamentação. Trata-se da formalização de um modelo que passa a seguir as mesmas regras já aplicadas às mais de 94 mil farmácias brasileiras.
Enquanto parte do setor se concentra nesse debate, há um dado muito mais relevante que requer atenção. O Brasil registrou mais PDVs fechando do que abrindo. O varejo farmacêutico saiu de 94.237 unidades em dezembro de 2025 para 93.975 em janeiro de 2026. O saldo negativo de 262 lojas pode parecer pequeno em termos percentuais, mas representa um sinal importante. Historicamente, o setor sempre cresceu em número de unidades. A inversão dessa tendência indica que estamos entrando em uma nova fase.
E essa mudança não está sendo provocada por farmácias dentro de supermercados. O que tem pressionado, principalmente as independentes, é a falta de profissionalização, de gestão orientada por dados e de digitalização. O mercado ficou mais técnico, mais competitivo e menos tolerante ao improviso.
Competir apenas por preço tornou-se uma estratégia frágil. Sem ferramentas de BI, análise detalhada de rentabilidade, gestão eficiente de mix, programas estruturados de fidelização e controle rigoroso de margens, a farmácia perde eficiência e capacidade de reação.
O associativismo e as redes corporativas continuam expandindo porque operam com tecnologia, inteligência de dados e padronização. O consumidor está mais exigente. Ele busca conveniência, disponibilidade de produtos, confiança e uma experiência consistente.
Muitos empreendedores ingressam no segmento movidos por um sonho legítimo de ter seu próprio negócio. A farmácia sempre foi vista como um modelo acessível de varejo. Mas o cenário mudou. O investimento em tecnologia e gestão deixou de ser diferencial e passou a ser condição de sobrevivência.
É nesse contexto que o associativismo se transforma em uma alternativa estratégica concreta. Na Febrafar, trabalhamos para oferecer às farmácias independentes acesso à tecnologia, ferramentas de BI, negociação em escala, padronização operacional, marketing estruturado e capacitação contínua. Não é solução mágica, mas um caminho real para ganho de competitividade.
O mais importante não é apenas estar associado, mas utilizar as ferramentas disponíveis e promover uma mudança cultural na gestão. Deve-se sair do modelo baseado apenas na percepção e adotar decisões baseadas em dados.
Não vejo a farmácia em supermercado como ameaça estrutural. Vejo o verdadeiro desafio na necessidade urgente de modernização e profissionalização do setor independente.
O mercado está passando por um processo de seleção natural. Quem investir em gestão, tecnologia e estratégia continuará competitivo. Quem ignorar esse movimento enfrentará dificuldades cada vez maiores. Precisamos olhar menos para a manchete e mais para os fundamentos do negócio.
É sobre isso que realmente precisamos falar.
*Edison Tamascia é presidente da Febrafar e da Farmarcas