Farmácias temem desemprego com fim da escala 6×1
Setor prevê aumento no custo da hora trabalhada e defende que mudanças ocorram via negociação coletiva
por Ana Claudia Nagao em
A possível aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC 148/2015), que propõe o fim da escala 6×1 e a adoção do modelo 5×2, acendeu um sinal de alerta no varejo farmacêutico brasileiro. Representantes do setor de farmácias avaliam que a mudança abrupta pode gerar desemprego, repasse de custos ao consumidor e comprometer o atendimento à população.
Pronta para ser votada no Plenário do Senado após aprovação na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), a PEC prevê a redução do tempo máximo de trabalho semanal de 44 para 36 horas e aumenta o descanso mínimo semanal de um para dois dias. A transição ocorreria de forma gradual ao longo de seis anos, proibindo os empregadores de reduzirem a remuneração dos trabalhadores como forma de compensar a diminuição da jornada.
O setor enxerga a proposta como um “grande abacaxi”. Segundo André Bedran Jabr, advogado do departamento jurídico do Sincofarma/ SP e da ABCFARMA,como o setor lida com margens apertadas e forte regulação governamental nos preços dos medicamentos, a conta recairia sobre outros produtos. “O empresário não vai conseguir absorver sozinho um aumento dessa magnitude. Ou ele ajusta preços, ou reduz quadro, ou investe em tecnologia, o que é mais viável para grandes redes do que para pequenas e médias empresas”, afirma.
Fim da escala 6×1 não garante ganhos de eficiência
Em vez de uma imposição constitucional ampla, classificada como “decisão de gabinete”, Jabr defende que a jornada de trabalho seja definida por meio de convenções e acordos coletivos, respeitando as particularidades de cada segmento. As entidades do varejo farma também pedem a participação do governo para mitigar impactos, com medidas como a redução de encargos sobre a folha de pagamento.
Segundo Jabr, experiências internacionais indicam que a redução da jornada foi consequência de avanços prévios em tecnologia e gestão, e não fator indutor dessas melhorias. Na avaliação dele, uma adoção abrupta pode resultar em queda de produtividade, especialmente no varejo.
A mesma opinião é partilhada por Nilson Ribeiro, diretor executivo e institucional da Abrafad. “Diversos países concentram esforços no aumento da produtividade e no crescimento econômico. O Brasil deveria priorizar medidas que ampliem a competitividade e a geração de renda, evitando mudanças que elevem despesas fixas sem ganhos de eficiência”, argumenta.
Atualmente, cerca de 90% dos trabalhadores de farmácias têm contratos entre 41 e 44 horas semanais, em sua maioria no regime 6×1. A eventual transição para a escala 5×2, com manutenção integral dos salários, elevaria o custo da hora trabalhada. “A mudança exigiria reestruturação das escalas, já que farmácias prestam serviço essencial e funcionam também aos fins de semana”, alerta.
Estudo da Abrafarma revela os prós e contras do novo modelo de jornada
Um estudo da Abrafarma, realizado pela consultoria Moavi, detalhou o impacto prático da possível adoção da jornada de trabalho 5×2. Para os trabalhadores, as simulações matemáticas apontam ganhos expressivos em descanso. No cenário em que a farmácia continua aberta todos os dias, o novo modelo garante aos funcionários 50% a mais de folgas. Já para as lojas que optarem por não funcionar aos domingos, o número de dias de descanso salta.
Além disso, a análise destaca que a mudança na escala cria a possibilidade de mais “dobradinhas”, organizar as folgas nos dias de menor volume de vendas. Com o aumento no tempo de descanso, o estudo projeta um alívio em dois dos maiores gargalos de recursos humanos do varejo – a possível redução das taxas de turnover e de absenteísmo.
Prós e contras da escala 5×2
| Abre domingo | Fecha domingo | |
| Positivos | • 50% mais folgas • 5,9% mais horas • Até 6x mais • Possível redução de turnover e absenteísmo | • 100% mais folgas • Possibilidade de dobradinhas • Possível redução de turnover e absenteísmo |
| Negativos | • 11,5% menos colaboradores • Possibilidade do aumento de interjornadas • Escala mais complexa | • 16,2% menos colaboradores • Possibilidade do aumento de interjornadas • Escala mais complexa |
Escalas complexas
Por outro lado, o impacto operacional para manter as farmácias abertas exigirá uma reestruturação profunda. A redução da carga horária resultaria em uma diminuição automática de 9,1% no banco de horas trabalhadas. Para compensar essa lacuna e tentar manter o mesmo nível de serviço à população, os estabelecimentos precisarão aumentar o quadro de funcionários em 10%.
A obrigatoriedade de adotar o regime 1×1 aos domingos (trabalha um, folga o outro) também provocaria uma queda de 25% na quantidade de colaboradores trabalhando neste dia da semana. No dia a dia geral, as farmácias abertas aos domingos operarão com 11,5% menos funcionários simultaneamente no salão, enquanto as lojas que fecharem terão uma redução de 16,2%.
“Para sobreviver às novas regras, será preciso rever os atuais horários de funcionamento das lojas e investir fortemente no uso de inteligência e tecnologia para garantir um planejamento perfeito da execução das escalas de trabalho”, comenta Sergio Mena Barreto, CEO da Abrafarma.
Mudança na relação entre empresa e colaborador
Na avaliação de especialistas da Korn Ferry, a proposta representa um ponto de inflexão para o setor. “Embora a mudança traga desafios operacionais e financeiros, também pode abrir espaço para ganhos em engajamento, retenção de talentos e modernização do modelo de negócios. Com menor rotatividade, as empresas tenderiam a reduzir custos com recrutamento, seleção e treinamento, despesas recorrentes em um setor marcado por alta troca de funcionários”, entende Breno Rossi.
Por outro lado, o novo modelo pode exigir ampliação do quadro para garantir cobertura de horários, especialmente em lojas que operam em finais de semana e feriados. Isso poderia elevar os custos totais com pessoal, ainda que a jornada individual seja menor.
Redes de farmácias já começam a testar a escala 5×2
Em setembro do ano passado, as farmácias do Grupo DPSP tornaram-se as primeiras do mercado farmacêutico brasileiro a implementar a escala 5×2 em todos os seus PDVs. O número de folgas anuais subiu de 64 para 96. “A mudança traz mais equilíbrio e bem-estar para a vida dos nossos colaboradores, permitindo que tenham maiores possibilidades de descanso consecutivo”, afirma o CEO Marcos Colares.
Já a Coop anunciou a implementação da escala 5×2 para os funcionários de farmácias da rede. A medida, que entrou em vigor em fevereiro, passa a valer para todos os PDVs, geralmente localizados na saída dos mercados e concentrados na região do ABC e no interior paulista, em cidades como São José dos Campos, Sorocaba, Piracicaba e Tatuí.
“Ambos os modelos atendem integralmente à legislação trabalhista, mas a escala 5×2 contribui para que o colaborador concilie melhor a rotina profissional com momentos de lazer e convivência familiar, refletindo positivamente nas relações interpessoais e no clima organizacional”, afirma Andrea Maia, gerente de gente e cultura da Coop.
A redação do Panorama Farmacêutico solicitou entrevistas com representantes da Fenafar, do Sinfar/SP e do Simfarmig mas não obteve retorno até o fechamento desta reportagem.