Gigantes ampliam receita, mas vivem pressão por rentabilidade
Balanços de 2025 confirmam força das grandes redes, ao mesmo tempo em que expõem desafios crescentes em eficiência, mix e competição digital
por Leandro Luize em
As três maiores redes de farmácias listadas em Bolsa – RD Saúde, Farmácias Pague Menos e Panvel – seguem ampliando a relevância do grande varejo farmacêutico brasileiro. Dados da Close-Up International mostram que esse segmento movimentou R$ 116,6 bilhões em vendas nos 12 meses até janeiro de 2026, ante R$ 68,5 bilhões há cinco anos. No período, o crescimento acumulado (CAGR) foi de 14,2%, com avanço de 16,3% apenas no último ano.
Esse desempenho elevou o market share das grandes redes de 42,6% para 45,3%, reforçando a consolidação do setor. Mas por trás da expansão robusta os balanços de 2025 revelam um cenário mais complexo, em que crescer já não garante, por si só, a geração de valor.
Crescimento com freio na rentabilidade
A análise dos resultados indica um ponto de inflexão. “À primeira vista, os números reafirmam uma força estrutural, com expansão de receita, ganho de escala e avanço do digital. Porém, parte relevante desse crescimento não se converte, na mesma proporção, em rentabilidade”, argumenta Cesar Bentim, senior advisor da gestora independente de venture capital Green Rock.
Para ele, margens mais pressionadas e maior sensibilidade dos resultados mostram que eficiência operacional deixou de ser diferencial e passou a ser condição básica. “Cresce quem executa melhor e a escala sem eficiência passa a cobrar seu preço”, complementa.
Resultados robustos, mas heterogêneos
No recorte do quarto trimestre, os números reforçam essa dualidade. A RD Saúde reportou receita bruta de R$ 13 bilhões (+19,8%), com desempenho consistente das vendas online, que já respondem por 29% do faturamento. Ainda assim, o lucro líquido ajustado ficou abaixo das expectativas do mercado.
A Pague Menos também entregou crescimento expressivo, com faturamento de R$ 4,3 bilhões (+19,8%) e lucro líquido de R$ 132,7 milhões, impulsionada pela forte execução comercial e avanço de 58% no digital. Já a Panvel se destacou pela rentabilidade, com margem bruta de 29,8% – a maior entre os pares – e lucro recorde de R$ 45,2 milhões.
Para Admar Corrêa, diretor executivo da Peers Consulting + Technology, o trimestre confirma a resiliência do segmento, ao mesmo tempo em que evidencia diferenças importantes na execução. “Os principais players demonstram capacidade de adaptação em um cenário macroeconômico desafiador, mas os resultados mostram que disciplina operacional e heterogenia do mix fazem cada vez mais diferença”, avalia.
Principais indicadores das redes de farmácias na Bolsa

Fontes: Releases de resultados das redes
Digital redefine o jogo competitivo
Outro ponto de convergência entre as redes é o avanço das operações digitais. A penetração já supera 20% em todos os grandes players. Bentim chama atenção para a mudança de lógica. “O desafio deixa de ser presença online e passa a ser integração eficiente e rentável. Quem ainda trata o digital como canal está olhando para o passado”, afirma.
Esse movimento amplia o campo competitivo, abrindo espaço para novos entrantes com forte capacidade logística e domínio da experiência do cliente. Plataformas como marketplaces e big techs começam a pressionar o setor em novas frentes.
O peso do mix e a revolução dos GLP-1
A ascensão dos medicamentos à base de GLP-1 adiciona uma nova camada de complexidade. “Embora elevem tíquete médio e frequência de compra, esses produtos pressionam margens e exigem ajustes estratégicos no mix”, comenta Bentim.
Correa reforça que a possível entrada de genéricos a partir de 2026 pode ampliar o acesso e o mercado endereçável, mas exigirá ainda mais eficiência. “Será um vetor de crescimento relevante, mas com impacto direto sobre precificação e rentabilidade”, acredita.
Eficiência como novo campo de batalha
Com um mercado mais competitivo, digitalizado e sensível ao mix de produtos, o foco das grandes redes se desloca para dentro da operação. Produtividade por metro quadrado, alocação de equipes e integração entre canais passam a definir vantagem competitiva. Na prática, os balanços de 2025 deixam um recado claro: o varejo farmacêutico brasileiro segue como uma das avenidas mais promissoras do consumo, mas já não tolera improvisos.