Liderança não é discurso. É exemplo!
Por Edison Tamascia, presidente da Febrafar e da Farmarcas
Falar de liderança, para mim, é falar de vivência. Eu não assimilei esse aprendizado em livros de autoajuda, nem em palcos iluminados, mas dentro da farmácia. Comecei minha atuação há mais de 50 anos e passei por todas as áreas do varejo farmacêutico. Sei o que é abrir a porta cedo e fechá-la tarde. Sei o que é transmitir notícia boa e, principalmente, notícia difícil.
E é justamente aí que começa a liderança de verdade. Para mim, o líder é o primeiro a falar na reunião. É o primeiro a assumir quando algo dá errado. Se há uma notícia boa ou ruim, é ele quem comunica. Isso muda completamente a percepção da equipe. Quando as pessoas olham e veem que você está ali, vestindo a camisa com elas, participando, decidindo e assumindo responsabilidades, a relação muda. Elas entendem que não existem “vocês” e, sim, “nós”.
Hoje, na presidência da Febrafar, que representa uma parcela expressiva do varejo farmacêutico brasileiro, continuo pensando exatamente da mesma forma. O cargo muda e a responsabilidade aumenta, mas o princípio é o mesmo e obedece ao tripé presença, exemplo e responsabilidade.
O primeiro ponto da liderança é o conhecimento, sem o qual não há liderança. Você pode até esbanjar carisma, ter boa articulação e empolgar por alguns minutos. Porém, se não domina de fato o assunto, não compreende a essência do negócio e não sabe conduzir o processo, você está apenas improvisando e não exercendo a liderança. Essa atitude não constrói resultados. O líder precisa estudar e se preparar para entender profundamente o mercado em que atua.
O segundo ponto é a calma. Nosso setor, assim como tantos outros, é bombardeado todos os dias por fatos e tendências alarmistas. Periodicamente surge uma “grande mudança”, a “ameaça definitiva” ou a “revolução que acabará com tudo”. Se o líder não demonstrar serenidade para analisar esses cenários com profundidade e visão sistêmica, acaba sendo engolido pelo ruído.
Não dá para embarcar nessas notícias como se fosse o fim do mundo. É preciso filtrar, interpretar o contexto, avaliar o impacto real e, só então, tomar decisões. Liderança também é proteger a equipe do pânico desnecessário.
Outra premissa na qual acredito profundamente – exercer a liderança ocorre por meio do exemplo. Não adianta ser um grande orador se o comportamento não corresponder ao discurso. Aquela liderança muito emocional, fundamentada em palco, gritos e frases de efeito, pode até engajar no momento, mas tem prazo curto.
Quando o evento acaba, a equipe volta à rotina e começa a observar qual é o resultado e como ela se posiciona quando a pressão aumenta? Eu não acredito em liderança motivacional vazia. Acredito em liderança de resultado. Você faz primeiro e depois fala. E, quando fala, tem autoridade.
Quem quer resultado precisa parar de achar que palavras resolvem tudo. Precisa parar de correr atrás de toda novidade como se fosse solução mágica. Precisa parar de buscar atalhos.
Liderança, para mim, também implica em postura diante das dificuldades. Eu sempre digo que é necessário olhar o copo meio cheio, não para ignorar os problemas e sim para captar oportunidades dentro da adversidade. O líder deve ajudar a equipe a enxergar a saída, não apenas o obstáculo.
Ao longo da minha trajetória, cultivei um modelo de liderança que chamo de suave e firme ao mesmo tempo. Suave na forma de tratar as pessoas, de ouvir e de dialogar. Firme nas decisões, nos princípios e nos posicionamentos. Quando tomo uma decisão, ela é baseada em análise, experiência e responsabilidade. E eu sustento essa decisão.
Talvez eu mantenha essa pensamento por ter vivido todas as etapas da farmácia. Quando você já esteve no balcão, sabe o impacto que uma decisão mal tomada no escritório pode causar. Quando já lidou com fornecedores, entende o peso de uma negociação mal conduzida. Quando já precisou bater meta com equipe reduzida, aprende a respeitar a realidade operacional.
Liderança não é se esconder atrás do cargo. Não é terceirizar responsabilidade. Não é aparecer apenas quando dá certo. É estar na linha de frente, assumir, decidir, estudar, manter a calma e entregar resultado. E, acima de tudo, é dar exemplo todos os dias. O resto é barulho.
*Edison Tamascia é presidente da Febrafar e da Farmarcas