Menos improviso, mais estrutura: o novo momento do varejo farmacêutico
Com margens pressionadas e concorrência mais técnica, setor deixa o improviso para trás e passa a exigir gestão
O varejo farmacêutico brasileiro entrou em uma nova fase. Não é mais um mercado que cresce por inércia tampouco um ambiente que permite improvisos. A pressão aumentou, as margens ficaram mais estreitas e os erros passaram a ter impacto direto no resultado. A régua subiu e mudou completamente a forma de competir.
Os dados mais recentes mostram um movimento claro. Nos últimos anos, mais farmácias independentes fecharam do que abriram. Esse fenômeno não indica uma crise do setor, mas revela um nível de exigência maior. Operar bem deixou de ser diferencial. Virou condição básica para continuar no jogo.
O Brasil ainda preserva uma característica rara no varejo farmacêutico mundial. Mais da metade do mercado é formada por operações independentes, fora das grandes redes. Esse modelo sempre foi viável porque o país construiu uma cadeia próxima, com indústria acessível, distribuidores regionais fortes e um associativismo que, historicamente, cumpriu um papel relevante. Mas esse equilíbrio vem sendo colocado à prova.
Hoje, não basta comprar bem ou negociar pontualmente. O varejo impõe gestão, método e execução. Requer controle de estoque, leitura de comportamento de consumo, estratégia de categorias e disciplina operacional. A farmácia que atua sozinha, sem estrutura e sem apoio, enfrenta um ambiente cada vez mais competitivo e menos tolerante ao erro.
Quando analisamos a evolução do mercado nos últimos cinco anos, o movimento é consistente. Grupos mais estruturados cresceram, enquanto o pequeno varejo perdeu participação. Isso não ocorre por falta de esforço do empresário, mas pela complexidade crescente do negócio. O jogo ficou mais técnico.
Nesse contexto, o uso de dados tornou-se um fator decisivo. O mercado deixou de ser guiado apenas por percepção, experiência ou histórico. Hoje, quem não consegue enxergar com clareza o que acontece no ponto de venda, no comportamento do consumidor e na performance das categorias está claramente operando em desvantagem.
Dados não são mais um diferencial restrito aos grandes grupos. São parte essencial da gestão. Compreender as dinâmicas que envolvem giro, mix, estoque, participação de categorias e evolução do consumo é o que separa decisões estratégicas de apostas. Em um cenário de margens pressionadas, apostar se transformou em um risco alto demais.
O varejo farmacêutico exige precisão. Ajustes finos, correções rápidas e decisões baseadas em informação confiável fazem parte da rotina de quem quer se manter competitivo. A farmácia que não trabalha dados reage sempre depois do mercado, quando o impacto já aconteceu. Errar menos passou a ser tão importante quanto vender mais.
É exatamente nesse ambiente que o associativismo ganha ainda mais relevância. Não apenas como instrumento de escala, mas como plataforma de suporte ao empresário. Associativismo significa acesso a inteligência, processos, treinamento, acompanhamento e troca de experiências. Sozinho, o empresário fica exposto. Junto, ele ganha estrutura para competir.
Costumo dizer que os modelos associativistas são parecidos na teoria. O que diferencia os resultados é a execução. Governança, regras claras, disciplina operacional e acompanhamento próximo fazem toda a diferença. Não existe solução mágica. Existe método, consistência e capacidade de adaptação.
O varejo farmacêutico continua sendo essencial, resiliente e com grande potencial no Brasil. Mas o cenário mudou. As incertezas do consumo, a pressão por margens e a evolução tecnológica exigem uma nova postura do empresário. Insistir em operar como antes passou a ser um risco alto demais.
Neste novo ciclo, o associativismo deixou de ser apenas uma alternativa estratégica. Para o varejo independente, tornou-se o caminho mais seguro para manter competitividade, ganhar eficiência e seguir relevante.
*Edison Tamascia é presidente da Febrafar e da Farmarcas