Mercado de nutrição cresce em volume e cai faturamento
Setor enfrenta desafios para crescer no canal farma, com preços em queda e demanda por inovação
por Márcia Arbache em
Os recentes recalls globais de fórmulas nutricionais infantis de duas grandes fabricantes, somados à debandada de altos executivos da divisão de nutrição da
Abbott, acenderam o alerta. Algo não vai bem nesse segmentorelevante para o varejo farmacêutico no Brasil, com casos que têm potencial para ensejar uma reorganização nesse nicho.
Nestlé e Danone, que dividem a liderança em vendas nas farmácias, se viram obrigadas a retirarem lotes de seus produtos do mercado por conta da presença da toxina cereulida, o que pode levar consumidores à perda de confiança nas respectivas marcas.
O consultor Paulo Paiva, especializado em varejo farmacêutico, traça o atual panorama do mercado de nutrição adulta e infantil na América Latina. Com movimento de cerca de US$ 2,8 bilhões (R$ 14 bilhões) ao ano, o Brasil tem 40% de participação desse montante. Embora o segmento cresça em volume, há uma estabilidade em termos de valor, com alta entre 4% e 8% em unidades vendidas. “O faturamento praticamente não avança, o que mostra uma corrosão e consequente queda de preço médio’’, pontua. Mudanças estruturais no consumo e na concorrência são o fator principal para entender esse cenário.
Paiva explica que o setor é altamente concentrado. Nestlé e Danone acumulam, juntas, uma participação de cerca de 90% do mercado, enquanto os demais 10% se dividem entre as também multinacionais Abbott e Johnson, além de fabricantes locais e regionais. “No Brasil, empresas como Cimed e Reckitt competem com marcas da Argentina (Bagó), Uruguai (Adium e Megalabs), que vêm ampliando presença com estratégias baseadas principalmente em preço”, reforça.
Procurada pela redação do Panorama Farmacêutico, a Danone afirmou em nota que todas as fórmulas infantis da companhia são produzidas sob rigorosos padrões de segurança e qualidade de alimentos e passam por controles minuciosos antes de saírem das fábricas. “Nossos controles confirmaram que os produtos são seguros e conformes às regulamentações de segurança. É importante reforçar que nenhuma fórmula infantil comercializada pela Danone no Brasil está envolvida no recall anunciado em outros países, que se refere a um número limitado de lotes específicos em mercados internacionais”, informa o comunicado.
Queda da natalidade e mudança no perfil de consumo de nutrição
Um dos fatores que limitam o crescimento é a retração de vendas da nutrição infantil, diretamente ligada à queda da taxa de natalidade na região. Ao mesmo tempo, a população mais velha tem migrado para outras categorias. “A economia prateada não foi capturada por essas empresas. Consumidores acima de 60 anos estão mais voltados para suplementos alimentares e nutrição esportiva, fora das categorias tradicionais de nutrição clínica”, afirma Paiva.
Segundo o executivo, esse movimento revela uma dificuldade das grandes companhias em manter o vínculo com consumidores ao longo do ciclo de vida. “Elas conquistam o paciente na pediatria, mas não conseguem mantê-lo na fase adulta e no envelhecimento.”
Concorrência local e marcas próprias pressionam o setor
Além das mudanças demográficas, a expansão de fabricantes locais e de marcas próprias do varejo tem intensificado a disputa por preço. Países como Peru, México e Colômbia registram crescimento significativo dessas alternativas mais acessíveis, que capturam consumidores das marcas tradicionais. “O grande driver de crescimento hoje é a unidade vendida, não o valor. E quem consegue competir em preço ganha espaço”, observa o consultor.
Brasil lidera em tamanho, mas sem consumo contínuo
O Brasil representa quase 40% do mercado latino-americano de nutrição, mas apresenta consumo per capita inferior ao de outros países. De acordo com Paiva, o consumo brasileiro corresponde a cerca de 30% do registrado no México. “Apesar de ser o maior mercado da região, o brasileiro não utiliza fórmulas nutricionais como parte da alimentação cotidiana. O uso é mais associado a situações agudas, como pós-cirurgias ou problemas de saúde específicos”, explica.
Essa característica, no entanto, indica espaço para expansão. “Existe uma oportunidade de reposicionar essas categorias como parte de um suplemento diário de saúde”, ressalta Paiva.
Desafios no varejo farma e necessidade de inovação
O desempenho do setor varia entre os países latino-americanos. A Argentina, responsável por cerca de 5% do mercado regional, enfrenta retração devido à queda de renda e ao aumento da pobreza. Peru e Equador também registram impacto negativo em função de instabilidade política e econômica recente. “Quando a renda cai, o consumo dessas categorias diminui ou migra para opções mais baratas”, resume o especialista.
Para o varejo farmacêutico, a nutrição é uma categoria de vultosa importância, porém, complexa. Os produtos ocupam muito espaço nas gôndolas e exigem alto giro para justificar a exposição nas lojas. Falhas de abastecimento podem resultar em perda de vendas, já que o consumidor nem sempre mantém o hábito de compra frequente.
A inovação surge como principal caminho para crescimento sustentável. “Não há fórmula mágica para aumentar preço. O que funciona é inovação e a entrada em novas áreas terapêuticas ou de consumo que ainda não estão no radar do consumidor”, afirma o consultor. Ele destaca que multinacionais tendem a liderar esse movimento, trazendo para a América Latina estratégias e produtos já consolidados em outros mercados.
Perspectivas positivas, mas dependentes de transformação
Apesar dos desafios, Paiva avalia que o futuro do mercado é promissor. O tamanho da população latino-americana, com cerca de 650 milhões de pessoas, com o Brasil respondendo por aproximadamente 30% desse total, indica potencial significativo de expansão. “O espaço para crescer é gigantesco, principalmente se houver mudança de percepção do consumidor e avanço em inovação. Sem isso, o setor continuará disputando preço em categorias já saturadas”, finaliza.
A Nestlé não retornou até o fechamento dessa reportagem.