Pharlab inicia nova fase sob comando brasileiro
Com a chegada de investidores, grupo dividirá atuação em três frentes
por César Ferro em
Depois de 13 anos integrando o grupo francês Servier, a Pharlab anuncia uma nova fase. Adquirido por um grupo de empreendedores reunidos por Nelson Libbos, ex-CEO da Teva Pharmaceutical no Brasil, o laboratório brasileiro passará por um processo de renovação.
A companhia irá diversificar as áreas terapêuticas e dividirá a operação em três braços. A empresa passará a se chamar Merrell Lepetit, mantendo a divisão de genéricos com a marca Pharlab. A linha Lepetit – criada na Itália no início do século 20 com foco em antibióticos e analgésicos – será retomada no segmento de prescrição. Já a Merrell englobará o portfólio de produtos OTC, incluindo medicamentos isentos de prescrição e itens de beleza.
Grupo Servier decidiu concentrar esforços em oncologia e especialidades
A venda da Pharlab ocorreu no contexto da decisão do Grupo Servier de desinvestir em operações globais para concentrar esforços no mercado de oncologia e especialidades. Além da transação no Brasil, a companhia também vendeu a Swipha, da Nigéria, e a Biogaran, da França.
“Participei ativamente da integração da Pharlab à companhia francesa e acompanhei uma tradicional empresa familiar profissionalizar por completo a sua gestão. Ganhamos envergadura e aumentamos dez vezes de tamanho, o que respaldou a transição para esse novo momento. As conversas com o grupo de empreendedores começaram há dois anos e rapidamente tivemos um casamento de aspirações”, comenta Eduardo Martins, CEO da farmacêutica.
Investidor assumirá cadeira no conselho de administração
Com a aquisição, a fabricante passará a ter Libbos como presidente do conselho de administração. O executivo soma mais de 50 anos de experiência na indústria farmacêutica, com passagens por cargos de decisão em laboratórios como BMS, Grupo DOW, HMR, Aventis, Farmasa e Cellera. Já Luiz Eduardo Violland, consultor com atuação no setor, conduzirá as relações institucionais e com os canais de distribuição, apoiando o CEO e o conselho.
“A Pharlab construiu uma plataforma industrial sólida, com trajetória consistente e uma equipe de excelência. Encontramos a oportunidade ideal para desenvolver uma nova companhia nacional forte em genéricos, prescrição e OTC, com expansão futura para dermocosméticos. Nosso compromisso é acelerar projetos de P&D e ampliar significativamente a presença da empresa em novas áreas terapêuticas”, comenta o presidente do conselho.
O grupo prevê que os genéricos tenham uma participação acima de 50% na receita da companhia, enquanto os OTC responderão por 20% e prescrição cerca de 30%. Apesar de não ter a participação majoritária, a divisão de Rx deve ser a mais rentável.
Aquisição aquecerá mercado de trabalho local
A aquisição também prevê a criação de 180 novos postos de trabalho nos próximos dois anos, impulsionando operações de pesquisa, desenvolvimento e negócios no parque industrial localizado em Lagoa da Prata (MG). O complexo tem capacidade para produzir até 12 milhões de unidades por mês. Hoje a Pharlab reúne 160 apresentações de medicamentos, das quais 42 são exclusivas ou contam com, no máximo, dois concorrentes.
“Vamos trabalhar em torno de conexões com mercados maduros da Ásia e da Europa, em busca de oportunidades para trazer ao Brasil medicamentos à base de inovação incremental ou mesmo radical. Também teremos fôlego para investir em parcerias com o poder público, por meio de um pipeline capaz de atender a doenças negligenciadas ou carentes de mais alternativas terapêuticas no país”, antecipa Libbos. Como a unidade foi aprovada pela Agência Europeia de Medicamentos (EMA), está nos planos da nova liderança exportar medicamentos para a Europa por meio de parcerias com farmacêuticas estrangeiras.
Relançamento de produtos está no radar
Uma das principais bandeiras da companhia nesta nova fase será o relançamento de medicamentos atualmente fora do mercado, como o Resprin – cuja marca pertence ao executivo. O antigripal, que foi sucesso entre os anos 1990 e 2000, não teve a marca renovada pela Johnson & Johnson.
O grupo de investidores comandado por Libbos viu então a oportunidade de registrar a marca e a trará de volta antes do inverno de 2026. “É um nome muito conhecido e sempre foi muito forte no País”, argumenta. Ao todo, serão seis apresentações do medicamento, cobrindo as áreas de gripe e resfriado.
A farmacêutica também relançará ainda neste ano o colírio Lerin, descontinuado pela Allergan. “Este produto também tem um recall enorme. E vamos recuperar isso”, garante.
No primeiro ano de mercado, o laboratório projeta vender 1,8 milhão de caixas do antigripal e 1,2 milhão do colírio. O faturamento combinado deve superar R$ 20 milhões.
Além do retorno de marcas consagradas, a empresa também focará em inovação. A meta é alcançar a R$ 1 bilhão de receita em cinco anos, com margem Ebitda de 20%. A título de comparação, a Pharlab faturou R$ 500 milhões em 2025 e a margem ficou em 9% no mesmo período.