26 anos de Febrafar e a consolidação do associativismo no Brasil
Durante o jantar de comemoração dos 26 anos da Febrafar, realizado recentemente, fiz uma reflexão que gostaria de retomar para garantir mais visibilidade e aprofundamento. Naquela noite, diante de um público que representa praticamente toda a cadeia do varejo farmacêutico, ficou ainda mais claro que o associativismo deixou de ser apenas um modelo de organização para se consolidar como uma estratégia concreta de competitividade.
Essa percepção não surgiu por acaso. Ela é resultado de uma trajetória construída ao longo de várias décadas, mas, principalmente, da leitura de um mercado que vem se transformando em velocidade cada vez maior.
Quando a Febrafar nasceu, partimos de uma ideia simples, mas poderosa – a de que, juntos, poderíamos prosperar mais. Havia naquele momento uma necessidade clara de ganhar escala, melhorar condições comerciais e criar um ambiente mais equilibrado para competir. No entanto, o que talvez não estava nítido era o tamanho da transformação que esse movimento poderia gerar ao longo do tempo.
Hoje, ao observar o cenário com mais maturidade, é possível afirmar que o associativismo não apenas respondeu a uma demanda pontual do passado, como também se antecipou a uma necessidade estrutural do futuro.
O varejo farmacêutico brasileiro e do Exterior segue uma lógica que favorece a concentração. Em mercados onde o consumo representa o principal motor, a tendência natural é que grandes grupos avancem com mais velocidade, impulsionados por escala, eficiência operacional e capacidade de investimento. Esse fenômeno pode ser observado especialmente na América Latina, onde poucos players detêm grande parte do faturamento.
Esse panorama também está em curso no Brasil. No entanto, temos uma característica particular que torna nosso mercado único. Ainda existe uma presença muito relevante do varejo independente, responsável por aproximadamente metade do setor. Trata-se de um modelo que garante capilaridade, proximidade com o consumidor e forte presença em localidades onde muitas vezes as grandes redes não chegam.
Mas essa relevância não se sustenta sem evolução. Durante o jantar, destaquei que o setor vive um momento de reposicionamento importante, inclusive com sinais de redução no número de pontos de venda. Esse movimento não é isolado e reflete um ambiente mais exigente, em que a competitividade deixou de estar baseada exclusivamente em preço e passou a exigir gestão, estratégia e tecnologia.
Essa mudança de eixo é talvez o maior desafio atual para o varejo independente. Competir significa entender o comportamento do consumidor, trabalhar com dados, operar de forma eficiente e oferecer uma experiência cada vez mais personalizada. São exigências que, na prática, tornam muito mais difícil a atuação isolada, especialmente para pequenas e médias empresas.
É nesse ponto que o associativismo ganha protagonismo. Ao longo dos anos, o modelo evoluiu de uma estrutura voltada principalmente para negociação para um ecossistema completo, apto a fornecer ferramentas reais de competitividade. Não se trata apenas de unir empresas, mas de criar condições para que elas possam adotar uma gestão em nível mais elevado.
Na Febrafar, essa evolução é bastante evidente, se traduz em números e, principalmente, em estrutura. Reunimos mais de 19 mil farmácias organizadas em 73 redes, com presença nacional e faturamento superior a R$ 40 bilhões. Mas o diferencial não está somente no tamanho. Está na capacidade de transformar essa escala em inteligência e eficiência.
Como destaquei durante o evento, não somos apenas um conjunto de lojas. Somos um coletivo com estratégia, acesso à tecnologia e condições reais de competir no mercado atual. Esse posicionamento é sustentado por um forte investimento em dados e inovação. Programas de fidelidade com milhões de consumidores, ferramentas de gestão de portfólio e soluções de CRM já fazem parte da rotina das farmácias associadas. Mais recentemente, a inteligência artificial ampliou essa capacidade, agilizando processos e conferindo mais precisão às decisões.
Essa evolução também muda a lógica da competição. O diferencial deixa de se restringir ao preço. Eficiência, conhecimento do cliente e capacidade de execução devem ditar os rumos da farmácia. Outro ponto importante, reforçado na ocasião, é que o associativismo não se sustenta apenas na ideia e depende de estrutura. Foi necessário construir ferramentas, processos e métodos para transformar a união em um modelo competitivo e sustentável.
Esse é um dos principais aprendizados desses 26 anos. O associativismo funciona quando gera valor concreto, facilita o acesso à tecnologia, aprimora a gestão e cria condições reais de crescimento para o varejo independente. Além do impacto econômico, há também um papel social relevante. A presença das farmácias independentes em milhares de municípios garante acesso à saúde e fortalece o empreendedorismo local.
Ao retomar essa reflexão, a mensagem é clara. O futuro do varejo farmacêutico independente impõe capacidade de atuar de forma coletiva, estruturada e orientada por dados. Em um mercado cada vez mais exigente, crescer junto não significa uma opção. É um caminho necessário.
*Edison Tamascia é presidente da Febrafar e da Farmarcas