Taxa de abertura de farmácias no Brasil despenca quase 40%
Cenário de consolidação e digitalização redefine o crescimento do setor
por Gabriel Noronha em
A inauguração de apenas 6,7 mil lojas em 2025, contra 11,1 mil em 2022, reforça o fosso entre grandes e pequenas empresas no setor. O recorde de falências e recuperações judiciais no varejo farmacêutico é apenas a ponta de um iceberg muito mais ameaçador.
O número de lojas inauguradas no Brasil teve um recuo de 39,3% na comparação entre 2022 e 2025. Este último ano, inclusive, foi o primeiro a registrar um volume de novos PDVs menor que o de fechamentos.
Nos últimos 12 meses até novembro de 2025, de acordo com indicadores da Close-Up International, as empresas do setor iniciaram operações de 6.752 unidades. Há três anos, 11.113 lojas entraram em funcionamento. Em paralelo, 9.772 farmácias fecharam as portas no ano passado.
Ou seja, aproximadamente 14 farmácias foram descontinuadas para cada 100 que foram inauguradas em 2025.
Baixa nas aberturas x onda de fechamentos
(PDVs inaugurados e encerrados/ 12 meses até novembro do respectivo ano)

Quais nichos mais colaboram para esse quadro?
Dois nichos são os que mais encolheram nos últimos quatro anos. As pequenas e médias redes terminaram 2025 com 6.551 unidades, contra 7.537 em 2022. O recuo foi de 22,6%.
Já os líderes das farmácias independentes ainda parecem movidos pela empolgação de empreender, pois mantêm 56.234 PDVs – 56% do montante total. No entanto, o saldo entre aberturas e fechamentos nesse grupo é negativo em 1.567. O déficit demonstra fôlego para iniciar o negócio, mas respiração ofegante na hora de gerir a operação.
Essa dinâmica não é nova no setor. Em 2024, o Panorama Farmacêutico repercutiu um estudo que analisou o fechamento de farmácias entre março de 2022 e 2024, apontando que 87% das lojas encerradas eram independentes.
O levantamento da época, produzido pela IQVIA considerou estabelecimentos que encerraram suas atividades ou deixaram de registrar faturamento nos três últimos meses do período analisado. Das 7.784 farmácias afetadas, 6.823 (87,6%) eram independentes.
“Com grandes redes se consolidando frente a PDVs independentes, o espaço para novos entrantes no mercado torna-se ainda mais estreito. E esse cenário fica ainda mais desafiador a partir de oscilações geradas por fatores como a inadimplência”, observa Claudio Felisoni de Angelo, presidente do IBEVAR e professor titular da Universidade de São Paulo (USP).
O espaço já limitado destinado às farmácias independentes no varejo brasileiro segue encolhendo de forma acelerada, impulsionado sobretudo pelo fortalecimento das redes associativistas e pela expansão das grandes redes no ambiente digital.
Essa é a avaliação de Ivan Engel, diretor de serviços e insights ao varejo e distribuição da Close-Up, que classifica o momento atual como “um ciclo de profissionalização”. “As associações fazem parte de federações que vêm se estruturando, oferecendo dados de mercado para que as farmácias planejem melhor seu mix, escolham melhor seus pontos comerciais e aprimorem a operação”, explica.
Performance digital é o grande diferencial
Outro fator determinante para a disparidade de desempenho entre os diferentes perfis de farmácias é o e-commerce. Em um cenário de crescimento contínuo do fluxo de consumidores no ambiente digital, as empresas com estrutura para atender à demanda virtual partem em clara vantagem
“Esse nicho de farmácias vive um fosso digital. O uso de canais onlinepara programas de fidelidade inexiste em nove em cada dez dos estabelecimentos, enquanto oito, em média, não fazem propaganda nas mídias sociais”, afirma Rodnei Domingues, diretor de pesquisa do Instituto Axxus, que integra o ecossistema do Parque Científico e Tecnológico da Unicamp.
“O Brasil tem cerca de 94 mil farmácias, sendo que quase 49 mil estão no grupo das menores, com faturamento médio em torno de R$ 65 mil mensais. Muitas faturam ainda menos. Uma farmácia de grande rede pode ter faturamento médio mensal acima de R$ 700 mil, com estruturas robustas, organogramas completos e equipes especializadas em cada área do negócio”, compara Gilson Coelho, consultor de educação corporativa e que integra o time da seção Os Especialistas do Panorama Farmacêutico.