Exclusivo: Farmadelivery tenta acelerar venda após fracasso em leilão
Grupo contrata assessoria para ampliar prospecção de interessados enquanto tenta liquidar R$ 265 milhões em dívidas
por Leandro Luize em
Mais um capítulo na trajetória descendente da Farmadelivery. A plataforma online, que concentrava operações de 650 farmácias em municípios de pequeno e médio porte, vem acelerando contatos com redes de médio porte e empresas de tecnologia para assegurar a venda dos ativos, enquanto convive com dívidas em torno de R$ 265 milhões. Até a possibilidade de compra de ações pelos funcionários entrou na mesa de discussões e ouvimos especialistas para entender o que levou a empresa a esse cenário.
Segundo apurações do Panorama Farmacêutico, esse movimento ocorre após o insucesso no leilão aberto no segundo semestre do ano passado. O procedimento fazia parte da recuperação judicial (RJ) da Investfarma, controladora da marca, de acordo com informações do processo 1000225-96.2023.8.26.0260, do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo – 1ª Vara Regional de Competência Empresarial. O prazo para o recebimento das ofertas venceu no fim de novembro, mas nenhuma proposta chegou à mesa.
A Investfarma, inclusive, contratou a consultoria Quatá Confidence para assessorá-la nas tratativas de venda. A Farmadelivery foi aprovada pela Justiça como uma Unidade Produtiva Isolada (UPI), garantindo que o comprador assuma a empresa sem sucessão de dívidas trabalhistas, tributárias ou bancárias.
Credenciais e entraves na venda da Farmadelivery
Na comunicação junto aos possíveis candidatos, o grupo apresenta o que seriam algumas credenciais da plataforma. A relação inclui 2 milhões de acessos e R$ 18 milhões de volume de vendas mensais, com tíquete médio de R$ 150 e 3,48% de taxa de conversão.
A divida total do grupo, que motivou a recuperação judicial, soma R$ 265,5 milhões. Embora não faça parte do escopo da venda, esse passivo tem representado uma barreira. Por conta do não pagamento de pendências trabalhistas, que beiram R$ 24 milhões referentes a 1 mil ações, a aprovação da UPI tornou-se mais morosa. Neste momento, R$ 7 milhões já foram quitados, segundo Antonio Luiz Lang Junior, consultor especializado em reestruturação de empresas e incorporado à Investfarma para apoiá-la no processo de RJ.
Operações desativadas sem aviso prévio
Também segundo informações obtidas pela redação, o encerramento das operações no fim de 2025 representou a estratégia possível para conter o déficit crescente do grupo. Parte considerável da equipe nesse período já atuava em regime de prestação de serviços, inclusive o diretor de negócios Rodrigo César dos Santos, e teve o trabalho cortado sem aviso prévio.
A plataforma estava prestes a fechar acordo com o Aché para a criação de uma loja virtual, com um cadastro inicial de 10 mil consumidores. Mas a direção do grupo considerou que o negócio seria insuficiente para assegurar o mínimo índice de break even exigido para a operação.

Grupo estuda stock options como alternativa à venda integral
Ainda de acordo com Lang, a Investfarma prevê realizar uma assembleia em abril para tentar definir seu futuro. Como alternativa à venda integral, a companhia considera aderir ao stock options, modelo de remuneração variável pelo qual empresas concedem a funcionários o direito de comprar ações do grupo a um preço fixo.
Números setoriais e o paradoxo das especialistas digitais
Os indicadores da Close-Up Intermational ajudam a compreender esse momento delicado da Farmadelivery, vista como um ativo valioso em 2020, quando foi comprada pela Investfarma. Na análise da evolução das vendas em farmácias por nicho, as plataformas 100% digitais tiveram queda de 30,8% no volume de negócios nos últimos 12 meses até janeiro de 2026. A receita, com altas tímidas nos últimos anos, despencou de R$ 1,55 bilhão para R$ 990 milhões.
“A fatia das vendas online ficou nas mãos das grandes redes, que intensificaram sua transformação digital a partir da pandemia e mantêm estratégias eficazes para reter seus clientes nas suas plataformas próprias”, contextualiza Ivan Engel, diretor de serviços e insights ao varejo e distribuição da consultoria.
Fernando Ferreira, consultor de varejo e fundador da Retail Jedi, acompanha esse raciocínio. “Durante muito tempo, ser um especialista digital significava um diferencial competitivo. A conveniência de comprar sem sair de casa e a facilidade de navegação eram atributos exclusivos de poucos players. Hoje, no entanto, o digital foi internalizado pelo omnicanal”, argumenta.
Para o consumidor, a equação é simples. Por que comprar em um site especializado se ele pode encontrar o mesmo produto, muitas vezes com frete grátis e entrega no mesmo dia, em um super app ou app da própria farmácia que ele já utiliza para outras compras? “A conveniência agregada e o sortimento infinito dos marketplaces esvaziam a proposta de valor das nativas digitais”, reforça.