Guerra de preços do GLP-1 avança sob alerta sanitário
Queda de patentes acelera descontos e amplia acesso, mas Anvisa endurece fiscalização diante de uso indiscriminado e mercado irregular
por Leandro Luize em
A corrida pelo mercado de agonistas de GLP-1 no Brasil entrou em uma nova fase. Com o fim da patente da semaglutida, a competição ganhou intensidade, pressionando preços e ampliando o acesso a tratamentos para diabetes e obesidade. Ao mesmo tempo, o avanço do consumo acendeu um sinal de alerta regulatório, levando a Anvisa a reforçar o cerco sobre riscos sanitários.
Na prática, o movimento já se traduz em descontos agressivos. A Novo Nordisk vem adotando, desde março, uma nova política de preços. Mais recentemente, a Eurofarma – parceira da dinamarquesa na comercialização de versões locais de suas canetas – também lançou um programa com objetivo semelhante. A farmacêutica brasileira passou a conceder descontos superiores a 60% nas duas doses iniciais da Poviztra, versão nacional da caneta emagrecedora Wegovy, quando adquiridas em conjunto.
Farmacêuticas unidas
A parceria com a Eurofarma é considerada estratégica. Desde o ano passado, a produção local das canetas tem permitido ampliar a distribuição para regiões antes desassistidas, com preços mais acessíveis. Antecipando esse cenário, a Novo Nordisk já havia anunciado, ainda em março e antes mesmo do fim da patente, uma nova dinâmica comercial para o Wegovy. A iniciativa inclui a oferta gratuita da dose inicial de 0,25 mg, desde que o paciente apresente prescrição médica com a titulação completa do tratamento.
Na mesma linha, o programa mais recente da Eurofarma passou a disponibilizar as doses iniciais da Poviztra (0,25 mg e 0,5 mg), referentes aos dois primeiros meses de tratamento contra a obesidade, por R$ 599 no total. O valor representa uma redução de 66% em relação aos cerca de R$ 1,8 mil cobrados fora da ação promocional.
“Pretendemos, em breve, ampliar essa política com descontos de até 50% em medicamentos complementares ao tratamento da obesidade, do sobrepeso associado a comorbidades e do diabetes tipo 2, considerando o caráter multidisciplinar dessas terapias”, declara Andrea Frazão, diretora comercial de prescrição médica da Eurofarma, em entrevista ao Valor.
Além das canetas injetáveis, as duas farmacêuticas também vêm ajustando os preços de outros medicamentos à base de semaglutida. No caso da Novo Nordisk, o programa de descontos passou a contemplar uma nova política para o Rybelsus, versão oral indicada para o tratamento do diabetes.
Consumo cresce e impõe posicionamento público da Anvisa
Atualmente, a Anvisa já contabiliza 25 pedidos de registros de medicamentos com o princípio ativo, incluindo opções sintéticas e biológicas. Se, por um lado, a democratização do acesso é vista como avanço, por outro, o uso indiscriminado preocupa autoridades sanitárias.
O tema levou o presidente da agência, Leandro Safatle, a emitir um posicionamento público. A autarquia ainda intensificou a fiscalização e endureceu medidas contra irregularidades. Um dos focos está nas importações ilegais, especialmente vindas do Paraguai, e na atuação de farmácias de manipulação fora dos padrões exigidos.
Operações recentes, conduzidas em conjunto com a Polícia Federal, resultaram na apreensão de mais de 1,3 milhão de unidades de produtos considerados irregulares. Entre os problemas identificados estão medicamentos sem registro, falhas no transporte e ausência de controle sanitário adequado. “O avanço do consumo, especialmente impulsionado por redes sociais e pelo mercado paralelo, exige uma resposta mais firme do Estado”, reforça Safatle.
Outro ponto crítico envolve a manipulação em escala incompatível com prescrições individualizadas, prática que contraria a regulamentação vigente. Como resposta, a agência prepara novas regras que devem exigir maior rastreabilidade e padrões mais rígidos para insumos e processos produtivos.
O pacote regulatório em discussão inclui ainda restrições adicionais à importação, reforço na fiscalização e maior alinhamento com conselhos profissionais de saúde. “A expectativa é que as medidas sejam votadas ainda neste mês”, antecipa o dirigente.