Canetas, medicamentos e o desafio do descarte nas farmácias brasileiras
por José Agostini Roxo em
No Brasil, a preocupação com a gestão de resíduos de serviços de saúde teve início na década de 1950, impulsionada pelo crescimento urbano, pelo aumento de doenças infecciosas e pela necessidade de controle sanitário. Esse movimento ganhou força com a evolução do arcabouço regulatório, destacando-se a RDC nº 33/2003 da Anvisa e a Resolução CONAMA nº 358/2005.
Posteriormente, a Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei nº 12.305/2010) consolidou diretrizes fundamentais, incluindo a obrigatoriedade dos Planos de Gerenciamento de Resíduos de Serviços de Saúde (PGRSS) e o fortalecimento da logística reversa, inclusive para resíduos de origem domiciliar.
Com o avanço das normas, especialmente o Decreto 10.388/2020 e as normas ABNT NBR 16457:2022 e 17059:2023, ampliou-se o foco para resíduos gerados no autocuidado domiciliar, como medicamentos, seringas e dispositivos médicos. Esses resíduos, quando descartados incorretamente, representam riscos à saúde pública e ao meio ambiente, exigindo soluções estruturadas de coleta, segregação e destinação.
Atualmente, a logística reversa é o principal instrumento para garantir o descarte adequado desses materiais. Programas de coleta vêm sendo implementados em farmácias, clínicas e outros pontos de entrega voluntária (PEVs), ainda em fase de expansão e conscientização da população. Além disso, a tendência é que a reciclagem passe a ser incorporada de forma mais consistente nesses sistemas.
Diversas iniciativas já demonstram o potencial da economia circular aplicada ao setor. Embalagens secundárias, bulas, sprays, vidros e plásticos podem ser reciclados, enquanto resíduos perigosos seguem tratamentos específicos. Entre os materiais de maior relevância estão as canetas de insulina e para controle de peso, além de outros dispositivos injetáveis, cujo uso cresce significativamente devido ao aumento de doenças crônicas.
As canetas representam um desafio e, ao mesmo tempo, uma oportunidade. Compostos principalmente por plástico, esses dispositivos, quando descartados de forma convencional, seguem com o lixo comum, oferecendo risco ocupacional e à população, além do desperdício de material reciclável. Com a implementação de programas bem estruturados de coleta e reciclagem, é possível reduzir a pegada de carbono, recuperar materiais e dar destinação ambientalmente adequada a esses resíduos.
A BHS – Brasil Health & Sustainability atua operacionalizando a logística reversa desde 2010, sendo autora do Programa Descarte Consciente, o maior do Brasil para o descarte de medicamentos domiciliares de uso humano, vencidos ou fora de uso. Até o momento já passaram pelo sistema 3,6 mil toneladas desse resíduo com destinação ambientalmente adequada. Esse modelo de trabalho reforça a importância de integrar indústria, distribuidores, varejo e consumidores na responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos produtos.
Apesar dos avanços, desafios importantes persistem. A falta de infraestrutura adequada em um país de dimensões continentais, lacunas regulatórias e a necessidade de maior conscientização da população dificultam a expansão da reciclagem. Questões tributárias também podem impactar a viabilidade econômica dos projetos.
Superar esses desafios exige colaboração entre governo, empresas e sociedade, além de investimentos em tecnologia, educação e modelos logísticos eficientes. O desenvolvimento da reciclagem de resíduos de saúde, especialmente das canetas injetoras e dispositivos domiciliares, será fundamental para reduzir impactos ambientais, melhorar a segurança sanitária e consolidar a economia circular no setor.
Nesse contexto, abre-se uma oportunidade relevante para executivos de ESG e HSE ampliarem ainda mais seu protagonismo, explorando novas fronteiras na gestão de resíduos de saúde. A identificação de produtos e processos aptos à logística reversa e à reciclagem – especialmente no contexto do autocuidado domiciliar –, pode gerar ganhos ambientais, regulatórios e reputacionais significativos.
Mais do que uma obrigação, trata-se de um espaço estratégico de inovação e liderança, onde iniciativas consistentes tendem a se traduzir em valor concreto para as organizações e para a sociedade.