Logística reversa avança nas farmácias, mas velocidade esbarra nas PMEs
Volume de medicamentos e embalagens recolhidas ultrapassou mil toneladas em 2025, mas baixa adesão no varejo independente preocupa
por Márcia Arbache em e atualizado em
O sistema de logística reversa de medicamentos vencidos ou em desuso no Brasil vem ganhando escala e relevância nos últimos anos, impulsionado por uma atuação coordenada entre indústria, importadores, varejo e distribuidores. Entre 2021 e 2025, o número de pontos de coleta em farmácias praticamente dobrou, passando de 3.650 e alcançando cerca de 7.800 unidades em todo o país.
Para Fabrício Soler, consultor jurídico do Grupo de Acompanhamento de Performance (GAP/LogMed), que monitora a implementação do programa no país, esse número é mais representativo do avanço do sistema do que o volume de resíduos recolhidos. “O principal parâmetro de sucesso é a capilaridade da rede de coleta. Hoje são cerca de 780 municípios com o serviço, acessados por uma média de 135 milhões de pessoas”, pontua.
Soler destaca que o volume de medicamentos domiciliares descartados também cresceu de forma expressiva, com aumento de até 18 vezes no referido período. A afirmação é ratificada pela Abrafarma, que contabilizou, pela primeira vez, mais de mil toneladas de medicamentos com descarte correto em 2025, face aos 55,7 mil quilos descartados em 2021, quando teve início o processo de adequação ao sistema de logística reversa a partir do Decreto Federal 10.388/2020.
Sergio Mena Barreto, CEO da Abrafarma, vê nesses indicadores o resultado de um esforço conjunto que envolve a crescente conscientização dos brasileiros para as causas de impacto socioambiental. “’Soma-se a isso o empenho das redes de farmácias em divulgar os benefícios concretos dessa prática’’, sublinha.
“Temos espaço para evoluir ainda mais, considerando que as grandes redes contam com 11,5 mil lojas e a julgar pelo exemplo de Portugal, onde a média anual atinge 1.200 toneladas”, complementa.
Quantidade recolhida e descartada corretamente nas farmácias
(volume em mil kg entre 2021 e 2025)

Expansão estruturada e coordenada
Ao todo, 17 entidades setoriais participam da iniciativa coordenada por meio do GAP. De acordo com Soler, o modelo brasileiro tem se destacado pela estrutura técnica e padronização. “O sistema é totalmente balizado por diretrizes operacionais. Para participar, é preciso seguir critérios específicos, que contemplam o uso de contentores adequados, a sinalização e o cumprimento de requisitos técnicos”, explica.
Em seguida as farmácias passam a integrar uma malha logística estruturada. A coleta dos medicamentos descartados não ocorre de forma isolada, mas sim dentro de rotas organizadas por operadores logísticos e distribuidores. “Eles percorrem vários pontos em uma mesma rota, coletando os resíduos de diferentes estabelecimentos. Por isso é fundamental que o ponto esteja formalmente habilitado e incorporado ao sistema”, destaca o consultor.
Desafio: engajar pequenas farmácias e consumidores
Apesar dos avanços, o sistema ainda enfrenta desafios importantes. Um deles é a baixa adesão ou subnotificação por parte de pequenas redes de farmácias e estabelecimentos independentes. “Muitos PDVs até realizam a coleta, mas não reportam os dados ao sistema. Isso significa que o número real de pontos pode ser ainda maior do que o registrado oficialmente”, projeta Soler.
Outro ponto crítico é o engajamento da população. “O consumidor precisa entender que faz parte do processo. Não adianta ter o ponto disponível se não houver um trabalho efetivo para incentivar a devolução dos medicamentos vencidos ou em desuso”, ressalta.
Como parte da estratégia para ampliar o engajamento de pequenos e médios varejistas, o GAP instituiu prazo até 30 de abril de 2026 para que as empresas responsáveis por planos individuais e coletivos de logística reversa de medicamentos, que não integram o LogMed, reportem informações sobre a operacionalização desses sistemas.
Responsabilidade compartilhada
Sócio-diretor da BHS e especialista em logística reversa de medicamentos de uso humano, José Agostini Roxo diz que o país já acumula mais de 3,6 toneladas de medicamentos descartados corretamente desde 2010, quando a empresa, pioneira em sustentabilidade e gestão de resíduos de saúde no Brasil, iniciou a operação.
Além da exigência legal, Roxo avalia que a adesão do varejo farmacêutico também está ligada ao comportamento do consumidor. “A farmácia precisa entender que, além de cumprir a norma, está criando um diferencial competitivo. O cliente com consciência ambiental é fiel e multiplicador de opinião”, observa Roxo, que integra a seção Os Especialistas do Panorama Farmacêutico e promoverá nesta quarta-feira, dia 15, um treinamento gratuito sobre o assunto.
A BHS atua como operadora, organizando a gestão do processo. As responsabilidades são compartilhadas da seguinte forma:
● Farmácias – disponibilizam pontos de coleta de resíduos, adquirem coletores e treinam equipes
● Distribuidores – realizam o recolhimento nas lojas e o transporte até os CDs, assumindo custos operacionais e treinamento de motoristas, e encaminham os materiais até os centros de distribuição
● Indústrias farmacêuticas – financiam o sistema, incluindo a contratação de operadores logísticos, tecnologia e a destinação final ambientalmente adequada (como incineração ou aterro industrial)
Economia para cada quilo de medicamento descartado
O especialista reitera que o descarte correto de medicamentos evita a contaminação do solo e da água. Segundo ele, cada quilo de medicamento descartado adequadamente pode preservar até 450 mil litros de água. “Mesmo comprimidos sólidos representam risco ambiental, já que seus componentes químicos podem degradar ecossistemas ao serem descartados no lixo comum ou na rede de esgoto’’, frisa.
Roxo defende maior ênfase na educação ambiental e nas campanhas de conscientização. ‘’Estamos muito distantes de países europeus, nos quais mais de 60% da população têm alto nível de consciência ambiental. Aqui esse índice gira em torno de 5% quando se trata especificamente de descarte de medicamentos’’, compara.
A BHS lançou recentemente o coletor Eco Fitting, um projeto modular feito com material reciclado, para facilitar a entrada de farmácias independentes no sistema. Entre os diferenciais estão montagem simples (por encaixe, sem parafusos), menor custo logístico e venda facilitada, inclusive por e-commerce.
Distribuidores ganham protagonismo na logística reversa
As distribuidoras também desempenham um papel estratégico para garantir eficiência operacional, capilaridade e redução de custos ao processo. “Diferentemente de outros elos da cadeia, os distribuidores visitam os pontos de venda com alta frequência, quase sempre mais de uma vez por dia, para abastecimento de produtos. Essa rotina operacional foi aproveitada pelo sistema de logística reversa’’, acredita Edilene Mota Previdi, gerente regulatória da Abafarma.
Os 16 CDs administrados pelas empresas associadas à entidade foram responsáveis por 2.657 coletas no ano passado. O mesmo veículo que realiza a entrega de medicamentos pode recolher os resíduos descartados pelos consumidores nas farmácias, desde que respeitados critérios de segurança e segregação. “Isso evita custos adicionais com transporte dedicado. O distribuidor já está na farmácia, faz o recolhimento e leva esse material de volta ao centro de distribuição”, afirma Edilene.
As operadoras logísticas são outros atores relevantes nesse ecossistema. A Andreani, por exemplo, encerrou 2025 com a movimentação de mais de 329 toneladas em operações de descarte no transporte de medicamentos e equipamentos médicos.
A empresa mantém uma equipe exclusivamente dedicada à área, em um planejamento que considera fatores como urgência, valor agregado da carga e local de origem, com a combinação de modais rodoviário e aéreo.
A diversidade tributária entre os estados e a menor regularidade de alguns fluxos ainda representam desafios operacionais. Enquanto o envio a partir de grandes centros ocorre de forma constante, o caminho inverso exige uma arquitetura mais robusta para evitar atrasos e custos adicionais.
“O grande desafio está no retorno da mercadoria. É nesse momento que entram variáveis como regras fiscais distintas e limitações da malha logística. Nossa atuação é justamente na antecipação desses pontos para manter a fluidez da operação”, detalha o diretor de operações Djalma Campos.