Grupos de venda ilegal de medicamentos reúnem mais de 82 mil usuários
Investigação identifica atuação em múltiplas plataformas digitais
por Gabriel Noronha em e atualizado em
Uma investigação do Estadão Verifica revelou que a venda ilegal de medicamentos tem sido registrada sem muitos obstáculos em diversas redes sociais.
Ao todo, a equipe do jornal encontrou, em plataformas como Telegram, WhatsApp, Facebook e X (o antigo Twitter), 65 grupos em funcionamento que acumulam mais de 82 mil usuários.
O primeiro aplicativo, inclusive, removeu outros 24 grupos e canais dedicados à comercialização ilícita de medicamentos poucos meses atrás, após determinação da Advocacia Geral da União (AGU).
Procuradas, as plataformas afirmaram não permitir a circulação desses conteúdos e retirá-los do ar assim que identificados. Apesar disso, perfis e comunidades associados à prática podem ser facilmente encontrados por qualquer usuário, inclusive por meio das barras de pesquisa dos aplicativos.
Na prática, muitas comunidades oferecem produtos como um “cardápio de restaurante”. Os vendedores, que costumam utilizar nomes e fotos falsas, enviam listas com a variedade de produtos disponível e orientam os interessados a entrar em contato via chats privados para pagamento e entrega dos pedidos.
Para atrair o público, os grupos costumam promover medicamentos com alta demanda, como Ozempic e Mounjaro, chamados comumente de canetas emagrecedoras, e Ritalina e Venvanse, psicoestimulantes para tratar déficit de atenção.
Grupos vão além da venda ilegal de medicamentos
Algumas dessas comunidades ainda disponibilizam para compra receituários e atestados médicos falsos com assinaturas e registros de profissionais existentes, além de laudos e requisições para exames.
Um dos principais grupos encontrados, com mais de 8,7 mil participantes, afirma que a emissão é feita diretamente no sistema do CFM, com o acesso de médicos reais e QR Code funcional. O código direciona para arquivos similares a documentos médicos originais, com nomes e registros de profissionais de saúde.
Em contato com a reportagem, um médico alegou ter registrado um boletim de ocorrência sobre o uso de seus dados, enquanto outro afirmou que nunca teve ciência desse tipo de fraude com seu nome, destacando que se trata de uma “falsificação grosseira”.
Fiscalização existe, mas é falha
Ao Estadão, a AGU explicou que não faz monitoramento ativo desse tipo de comércio ilícito nas redes sociais. A instituição trabalha sob requerimento ou demanda de órgãos e entidades.
A Meta, dona do Facebook, Instagram e WhatsApp, afirma em nota que não permite anúncios que promovam a venda ou uso de drogas, substâncias, produtos ou suplementos inseguros e remove esse tipo de conteúdo sempre que violações são identificadas.
Já o Telegram respondeu que “a venda ilegal de substâncias controladas é explicitamente proibida pelos Termos de Serviço e esse conteúdo é removido sempre que descoberto”. A empresa afirmou que modera ativamente a circulação desses materiais.
A Anvisa, por sua vez, afirmou, em nota, que implementou o Sistema Nacional de Controle de Receituários com objetivo de fornecer numeração válida para as notificações de receitas médicas, reforçando o processo de fiscalização.