Acessibilidade e adesão ao GLP-1 ainda são os principais desafios no Brasil
Para Edison Tamascia, os GLP-1 representam uma das mais importantes inovações terapêuticas recentes
Por Edison Tamascia, presidente da Febrafar e da Farmarcas
Os medicamentos da classe GLP-1, amplamente utilizados no tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade, representam uma das mais importantes inovações terapêuticas recentes na saúde. Seus benefícios vão além do controle glicêmico e da perda de peso, abrangendo a redução de riscos cardiovasculares, renais e hepáticos, bem como a melhora de diversas comorbidades associadas à obesidade.
Apesar desse avanço clínico, um estudo nacional realizado pela Febrafar em parceria com o Instituto IFEPEC, com a participação de 1.067 médicos de diversas especialidades e regiões do Brasil, evidencia um desafio central. O acesso e a continuidade do tratamento ainda limitam o impacto dessa terapia no país.
Os dados mostram que, atualmente, o custo dos medicamentos torna o tratamento viável para apenas 28% dos pacientes considerados aptos. Mais preocupante ainda, 65% interrompem o uso ou não conseguem manter a posologia recomendada por limitações financeiras.
Esse cenário aponta que, embora haja ampla aceitação médica e reconhecimento dos benefícios clínicos dos GLP-1, a barreira econômica permanece como fator determinante para a efetividade.
Segundo o levantamento, uma redução de aproximadamente 35% nos preços poderia ampliar significativamente o acesso, elevando a viabilidade do tratamento para cerca de 45% dos pacientes. O dado evidencia o potencial efeito positivo de uma maior concorrência e da entrada de novas opções no mercado para o sistema de saúde e os pacientes.
Um dos pontos mais relevantes do estudo é a expectativa em torno da chegada das primeiras canetas biossimilares e similares de GLP-1, impulsionadas pelo avanço do ciclo de patentes. Para os médicos entrevistados, essas alternativas representam um marco importante para ampliar a concorrência, reduzir custos e democratizar o acesso ao tratamento no Brasil.
Esse movimento é visto como um fator estruturante para o futuro da categoria, com potencial de ampliar significativamente o alcance dessa terapia no país nos próximos anos.
Outro ponto relevante identificado é a aplicação inadequada desses medicamentos. Em média, 7% dos pacientes relatam já ter utilizado GLP-1 sem prescrição médica antes da primeira consulta. Esse dado reforça a necessidade de combater a comercialização irregular e fortalecer os canais legais de dispensação, garantindo segurança e orientação adequada ao paciente.
As farmácias desempenham papel essencial nesse processo. O cumprimento rigoroso das normas sanitárias e a exigência de prescrição médica são fundamentais. Além disso, o farmacêutico atua como elo entre prescritor e paciente, orientando sobre armazenamento e aplicação corretos e promovendo o acompanhamento contínuo da terapia.
Os entrevistados destacam ainda que os benefícios dos GLP-1 vão muito além da perda de peso. Entre os principais efeitos observados estão o melhor controle do diabetes tipo 2, a redução da compulsão alimentar, a melhora metabólica e a proteção cardiovascular e renal. Em contrapartida, também são relatados efeitos adversos como náuseas, vômitos, constipação e fadiga, entre outros, o que reforça a importância do acompanhamento profissional.
O estudo também expõe uma visão estratégica sobre o potencial dessa classe terapêutica. Considero que os GLP-1 podem representar um marco comparável ao impacto da penicilina em sua época, dada sua relevância na transformação do tratamento das doenças metabólicas e na melhoria da qualidade de vida da população.
Os resultados da pesquisa indicam que o mercado brasileiro de GLP-1 apresenta amplo potencial de crescimento. No entanto, sua expansão sustentável depende do equilíbrio entre inovação, acesso, uso responsável e atuação integrada entre médicos e farmacêuticos.
O desafio que se impõe é claro – transformar uma terapia altamente eficaz em uma solução democrática e segura para um número cada vez maior de brasileiros.