EXCLUSIVO: mercado farmacêutico já perdeu R$ 283 mi com roubo de cargas
Apesar da queda no número de ocorrências em 2026, o canal acumula prejuízos e medicamentos de alto custo são os alvos principais
por Adriana Bruno em
O roubo de uma carga de medicamentos oncológicos avaliada em R$ 4,6 milhões, ocorrido em 8 de julho em Santo Antônio de Posse (SP), ampliou o alerta sobre a escalada da criminalidade envolvendo a cadeia farmacêutica.
Destinada ao sistema público de saúde paulista, a carga representa o segundo grande ataque em apenas três meses. Em abril, outra operação criminosa resultou no roubo de medicamentos estimados em R$ 6 milhões, evidenciando o avanço das quadrilhas sobre produtos de alto valor agregado.
A preocupação do setor é respaldada por números ainda mais contundentes. Levantamento da consultoria Overhaul, encomendado pela Associação Brasileira dos Distribuidores de Medicamentos Especializados, Excepcionais e Hospitalares (ABRADIMEX), aponta que as perdas com roubos de cargas farmacêuticas somaram R$ 283 milhões em 2025. No primeiro trimestre deste ano, a participação dos medicamentos no total de cargas roubadas aumentou de 2,2% para 3,3%, enquanto 40% das ocorrências se concentraram em cinco corredores logísticos – BR-381, SP-348, BR-277, BR-116 e SP-330.
Número de ocorrências de roubos de carga está menor
Apesar desse cenário, dados da Secretaria da Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP), compartilhados ao Panorama Farmacêutico pelo Sindicato das Empresas de Transportes de Carga de São Paulo e Região (Setcesp), mostram redução nas ocorrências.
Entre janeiro e maio de 2026 foram registrados 28 roubos de cargas farmacêuticas, ante 34 casos no mesmo período de 2025, queda de 17,65%. O recuo, porém, ficou abaixo da redução de 34,28% registrada no total de roubos de cargas no estado.
Mas para o presidente do Setcesp, Marcelo Rodrigues, os dados ainda não permitem afirmar que houve mudança estrutural no comportamento das quadrilhas. “Embora o número absoluto de roubos de medicamentos tenha diminuído, essa modalidade continua a apresentar participação relevante entre as cargas visadas pelas organizações criminosas”, afirma.
Segundo ele, medicamentos permanecem entre as mercadorias mais vulneráveis pelo alto valor agregado, demanda permanente e facilidade de comercialização no mercado ilícito, o que exige reforço das ações de inteligência, rastreabilidade e integração entre transportadores, embarcadores e forças de segurança.
Custos totais da operação crescem
Rodrigues ressalta que os impactos extrapolam as perdas financeiras. Os roubos elevam os custos com seguros, gerenciamento de risco, monitoramento e rastreamento, reduzem a eficiência logística e podem provocar atrasos nas entregas e recomposição de estoques. O executivo destaca ainda que parte significativa das ocorrências acontece durante a distribuição urbana, envolvendo veículos das próprias distribuidoras e operações dedicadas, e não apenas caminhões de transportadoras.
Na avaliação de Paulo Maia, presidente executivo da ABRADIMEX, o problema antecede a chegada das canetas para obesidade. Segundo ele, produtos oncológicos, imunobiológicos, terapias para doenças raras, fatores de coagulação e imunoglobulinas sempre despertaram o interesse das quadrilhas.
“O roubo de cargas de medicamentos de alto custo deixou de ser um crime patrimonial e passou a representar também um problema de saúde pública”, acredita. O executivo lembra que muitos desses produtos precisam ser mantidos entre 2°C e 8°C e, após serem alvo dos bandidos, não há como garantir a integridade da cadeia de frio.
“Medicamentos roubados perdem a garantia de procedência e podem comprometer a eficácia do tratamento. Cada carga roubada representa um risco direto à continuidade dos tratamentos, principalmente quando envolve medicamentos de alto custo”, endossa.
Violência acende alerta para o setor de segurança
O aumento da violência também preocupa o setor de segurança privada. “Várias farmácias aderiram à segurança patrimonial, armada ou desarmada. O número de orçamentos para a prestação desse serviço aumentou aproximadamente 5%”, observa Autair Iuga, presidente do Sindicato das Empresas de Escolta do Estado de São Paulo (SEMEESP), do Sindicato das Empresas de Segurança Privada, Segurança Eletrônica e Cursos de Formação do Estado de São Paulo (Sesvesp) e do Grupo Macor, além de vice-presidente da Federação Nacional das Empresas de Segurança e Transporte de Valores (Fenavist).
Entre as medidas adotadas estão botão de pânico, monitoramento por imagens, eclusas com abertura remota e reforço da segurança física. Iuga também chama atenção para a escalada da violência, citando dois ataques recentes a equipes de escolta armada em São Paulo com uso de fuzis calibre 5,56 e 7,62 mm.
Para os especialistas, reduzir esse tipo de crime depende de uma atuação integrada entre iniciativa privada e poder público. A Abradimex defende o fortalecimento da rastreabilidade, do compartilhamento de inteligência e do combate à receptação e ao comércio ilegal. “Enquanto houver mercado para esses produtos, as organizações criminosas continuarão enxergando a cadeia farmacêutica como um alvo altamente lucrativo. Proteger a cadeia de distribuição é proteger o acesso seguro aos tratamentos”, enfatiza Maia.
Roubos no PDV impactam o setor
Segundo reportagem da Folha de S. Paulo, os assaltos a farmácia somam 162 casos nos cinco primeiros meses do ano, de acordo com a SSP-SP. Em 2025, foram 166 ocorrências no mesmo período.
Sérgio Mena Barreto, CEO da Associação Brasileira de Farmácias e Drogarias (Abrafarma), diz que o assunto é pauta de conversas com representantes da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo. Para ele, no caso das canetas são se trata de algo eventual, mas sim encomenda do crime organizado. “Isso se tornou um problema de segurança e de saúde. Ninguém sabe como as canetas são armazenadas. Esperamos que a polícia consiga desmantelar essas quadrilhas”, comenta.
A Abrafarma criou um grupo de trabalho para monitorar e enviar dados sobre os furtos e roubos à polícia para ajudar com as investigações, porém cada rede de farmácia tem seu método para coibir os furtos.
Procuradas, Panvel e RD Saúde não responderam à solicitação de entrevista do Panorama Farmacêutico. A Pague Menos informou por meio de sua assessoria de imprensa que por se tratar de um assunto estratégico, a empresa não comenta; O Grupo DPSP também preferiu não comentar a pauta.