A decisão da CVS Health de passar a dispensar medicamentos prescritos para cães e gatos, extensiva às cerca de 9 mil farmácias do grupo nos Estados Unidos, representa mais do que a ampliação de um serviço. O movimento da maior rede de farmácias do mundo sinaliza uma mudança estratégica e um olhar cada vez mais atento desse setor para o canal pet, tendência que também ganha tração no Brasil.
A iniciativa contempla antibióticos, medicamentos para alergias, antipulgas, insulinas, analgésicos e outras terapias. Segundo a empresa, para retirar a prescrição basta levar a receita impressa até a farmácia ou pedir que o médico veterinário envie a prescrição diretamente à CVS.
Os benefícios também abrangem o sistema de reabastecimento automático e de sincronização de receitas comuns nos Estados Unidos, com alguns itens disponíveis para entrega em casa. Pelo site ou pelo aplicativo da CVS Health, o tutor cadastra o perfil do animal e acompanha as prescrições ativas.
“Podemos agora atender a todos os membros da família. Combinando isso com nossas localizações convenientes, horários estendidos e ampla gama de produtos de saúde e bem-estar, oferecemos um verdadeiro destino completo para cuidados”, avalia Sid Tenneti, vice-presidente sênior e presidente interino de Farmácia e Bem-Estar do Consumidor da rede, que ainda planeja incluir a opção de prescrição eletrônica nos próximos meses.
Estratégia conta também com suporte de marca própria (h2)
A novidade acompanha a expansão da CVS no varejo pet, que já inclui a linha própria Pet Central. A marca contém itens de higiene, acessórios, brinquedos, areia sanitária e tapetes de treinamento, além de xampus, ração, produtos antipulgas e petiscos dentais. Novos lançamentos estão previstos para setembro.
Brasil já segue a mesma direção
Embora a novidade tenha repercutido internacionalmente, o varejo farmacêutico brasileiro já vem incorporando essa tendência. Nos últimos dois anos, grandes redes passaram a enxergar o mercado pet como uma categoria estratégica, impulsionadas pelo crescimento da população de cães e gatos, pela humanização dos animais e pela recorrência das compras.
Com pouco mais de 350 lojas em Minas Gerais, a Drogaria Araujo foi uma das pioneiras na oferta de remédios veterinários, produtos de higiene, alimentação e acessórios. A varejista investe também na manipulação. Um laboratório próprio na capital mineira produz aproximadamente 1.200 fórmulas por dia.
Entre as opções oferecidas estão biscoitos medicamentosos, pastas orais e soluções líquidas, todos com sabores, como carne e peixe. “Com fórmulas personalizadas, cada animal recebe a dose exata, sem o estresse de comprimidos difíceis de administrar. Essas preparações são desenvolvidas para tratar doenças e condições específicas, formuladas considerando as características fisiológicas e metabólicas de diferentes espécies”, explica Angela Berti, gerente do laboratório de manipulação.
Rede gaúcha nos passos da CVS
Outro exemplo é o das Farmácias São João, que administra mais de 1.200 unidades nos estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. A rede foi além da simples comercialização de produtos e lançou a marca própria São João Pet neste mês de julho.
O portfólio contempla brinquedos diversos e assessórios para passeios. A linha também dispõe de tapetes higiênicos, talco antipulgas, produtos para banho, perfumes e até educador sanitário. Sachês, petiscos e rações complementam o mix. “A estratégia dissemina ainda mais o conceito de farmácia como um centro de conveniência especializado”, enfatiza o diretor de compras Marco Machry.
No ambiente digital, a movimentação também ganhou força. Companhias como RD Saúde, Pague Menos, Drogaria São Paulo, Panvel, Nissei e Drogaria Venancio passaram a estruturar categorias permanentes de produtos pet em seus e-commerces e marketplaces.
Farmácias devem ficar atentas à legislação sanitária
Fernando Ferreira, CEO da Retail Jedi, afirma que uma farmácia pode vender diversos produtos destinados a animais, desde que eles se enquadrem como correlatos ou itens de higiene, acessórios, cosméticos, shampoos, escovas, tapetes higiênicos, coleiras, entre outros, e que seu licenciamento sanitário permita essa atividade. A base legal está na Lei nº 5.991/1973.
“O ponto principal é o art. 5º, §1º. Esse dispositivo não autoriza automaticamente qualquer produto veterinário, mas abre a possibilidade para determinadas categorias de correlatos”, explica.
Ferreira ressalta ainda que não existe, na legislação federal, uma regra geral que permita a toda drogaria comercializar medicamentos veterinários da mesma forma que medicamentos de uso humano. “Esses remédios são regulados principalmente pelo Ministério da Agricultura (MAPA), e não pela Anvisa. A Anvisa atua apenas em aspectos específicos, como resíduos em alimentos de origem animal”, pontua.
Segundo o executivo, a Araújo e outras redes podem operar nesse segmento por diferentes modelos. “Alguns exemplos são possuir licenciamento específico perante a vigilância sanitária e os órgãos competentes, além de autorização estadual ou municipal. Outro ponto é operar atividade veterinária dentro do escopo permitido pelo seu licenciamento, ou, eventualmente, contar com decisões judiciais específicas”, finaliza.
