Roubo de medicamentos dispara no Brasil
Categoria já representa quase 20% dos prejuízos associados ao crime
por Gabriel Noronha em
O roubo de medicamentos ganhou espaço entre os principais alvos de cargas no Brasil no primeiro semestre de 2026. A participação do segmento nos prejuízos gerados por esse crime passou de 2,8% para 19% em um ano, levando o transporte de produtos farmacêuticos da sexta para a terceira posição entre as categorias mais atingidas.
Os dados fazem parte do Report Nstech de Roubo de Cargas, que identificou mudanças na distribuição geográfica e nos horários das ocorrências. No período, o Sudeste respondeu por 77,2% dos prejuízos nacionais, ante 60,5% no primeiro semestre de 2025.
O avanço regional foi puxado principalmente pelo Rio de Janeiro. O estado passou a liderar o ranking nacional, com 36,6% das perdas, contra 16,1% um ano antes. São Paulo ficou na segunda posição, com 30,9%, enquanto Minas Gerais respondeu por 9,3% dos prejuízos.
“A análise comparativa entre o primeiro trimestre deste ano e o de 2025 mostra que não se trata apenas de uma variação nos índices de sinistralidade. O que está em curso é uma mudança estrutural no comportamento do crime logístico no país”, analisa Helena Vito Costa, diretora de varejo da Nstech.
Roubo de medicamentos avança nas ocorrências urbanas
A concentração dos crimes também mudou. As vias urbanas responderam por 39,6% dos prejuízos no primeiro semestre, quase o dobro dos 20,4% registrados no mesmo período de 2025. No Rio de Janeiro, a capital concentrou sozinha 20,1% das perdas nacionais, seguida por Duque de Caxias, com 6%, São Gonçalo, com 3%, e Nova Iguaçu, com 1,9%.
A BR-101 foi a rodovia com maior participação nas perdas, concentrando 17,1% dos prejuízos, contra 10,8% no primeiro semestre de 2025. A BR-116 ficou em segundo lugar, com 8,2%, ante 4,8% no período anterior.
Outro ponto de mudança foi o horário das ocorrências. A madrugada passou a concentrar 32,9% dos prejuízos, contra 14,4% no primeiro semestre de 2025. A noite respondeu por 24,5%. Somados, os dois períodos representaram 57,4% das perdas registradas pelas transportadoras.
Na distribuição por dias da semana, a quinta-feira permaneceu como o período de maior concentração, com 22% dos prejuízos. Já a incidência às segundas e terças-feiras apresentou crescimento, passando de 9,3% para 15,6% e de 9% para 14,3%, respectivamente. Em sentido oposto, houve redução aos domingos – de 13,2% para 5%.
Medicamentos populares são os principais alvos
A comercialização ilegal de medicamentos na internet é um dos principais destinos desses fármacos. Canetas emagrecedoras, como Ozempic e Mounjaro, e psicoestimulantes utilizados no tratamento do déficit de atenção, como Ritalina e Venvanse, são produtos de alta demanda em diversos grupos de vendas.
Um levantamento divulgado pela ABRADIMEX em julho estimou perdas de R$ 283 bilhões no canal farma brasileiro apenas em 2025, em decorrência do roubo de cargas. Na avaliação de Paulo Maia, presidente executivo da associação, o problema antecede a chegada das canetas para obesidade. Segundo ele, produtos oncológicos, imunobiológicos, terapias para doenças raras, fatores de coagulação e imunoglobulinas sempre despertaram o interesse das quadrilhas.
“O roubo de cargas de medicamentos de alto custo deixou de ser um crime patrimonial e passou a representar também um problema de saúde pública”, acredita. O executivo lembra que muitos desses produtos precisam ser mantidos entre 2°C e 8°C e, após serem alvo dos bandidos, não há como garantir a integridade da cadeia de frio.
Projeto de lei amplia o cerco
O avanço dos roubos de cargas de medicamentos especializados começa a ganhar respostas efetivas também no campo legislativo. O Projeto de Lei 5.225/2026, protocolado na Câmara dos Deputados em 31 de agosto, propõe tratamento penal específico para crimes envolvendo medicamentos, insumos hospitalares e dispositivos médicos, com reclusão de até 14 anos para casos de roubo.
A proposta foi elaborada pelo Instituto Ética Saúde (IES) a partir de discussões com seu Conselho Consultivo, do qual a ABRADIMEX participa ao lado da Associação Brasileira de Importadores e Distribuidores de Produtos para Saúde (Abraidi), no âmbito da Frente Parlamentar Mista da Saúde.
A proposta avança também sobre o comércio eletrônico, ao prever a responsabilização do representante legal ou do profissional de plataforma digital encarregado, quando houver ciência inequívoca da origem criminosa do medicamento.