Fraude com medicamentos oncológicos movimentou mais de R$ 70 mi
Apurações envolvem compras públicas e remédios de alto custo
por Gabriel Noronha em
e atualizado em
Empresas investigadas por suspeita de fraude com medicamentos oncológicos faturaram mais de R$ 70 milhões entre 2021 e 2025, segundo dados da Receita Federal apresentados em reportagem do Fantástico e repercutidos pelo portal Terra.
A apuração em Mato Grosso do Sul aponta indícios de superfaturamento, uso de receitas falsas e aquisição de medicamentos importados sem registro na Anvisa.
Dois funcionários da Secretaria Estadual de Saúde de Mato Grosso do Sul foram afastados durante a investigação. Segundo a Defensoria Pública estadual, parte dos produtos adquiridos por meio de decisões judiciais não correspondia aos medicamentos determinados para os pacientes.
Em um dos casos identificados, um tratamento de três meses foi apresentado no processo por aproximadamente R$ 100 mil, enquanto o medicamento custaria entre R$ 1,2 mil e R$ 1,6 mil. A investigação aponta que farmácias e servidores poderiam se beneficiar do direcionamento das compras e do superfaturamento.
Fraude com medicamentos oncológicos identificada outros estados
As apurações sobre as movimentações também avançaram no Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e Ceará. As autoridades, porém, não tratam necessariamente os episódios como integrantes de uma mesma organização criminosa.
No Rio Grande do Sul, a Operação Placebo começou depois que profissionais da Santa Casa de Caridade de São Gabriel identificaram irregularidades em um lote destinado a pacientes. As embalagens apresentavam erros de grafia, diferenças de coloração e textura e divergências entre idiomas da caixa e da bula.
Após analisar uma amostra, o laboratório responsável informou à polícia que não reconhecia o produto como legítimo e a distribuição do lote foi suspensa.
Em junho, a Polícia Civil cumpriu 57 mandados de busca e apreensão em cinco estados. A operação investiga 15 pessoas e 14 empresas. O empresário Lisandro Henriques Hermes, apontado pela polícia como articulador do núcleo empresarial, foi preso e nega participação no esquema.
Segundo os investigadores, empresas ligadas ao empresário apresentavam orçamentos para o fornecimento de medicamentos pagos com recursos públicos.
A polícia também investiga a atuação de um oncologista que teria indicado medicamentos de alto custo não fornecidos pelo SUS e encaminhado pacientes a advogados para obtenção dos produtos por via judicial. As defesas negam irregularidades.
A investigação no Rio Grande do Sul identificou 39 possíveis vítimas. Sete morreram durante o período de tratamento, mas a polícia ainda apura se existe relação entre as mortes e os crimes investigados.
Em um dos casos, cerca de R$ 2,5 milhões repassados pelo governo estadual teriam sido desviados, enquanto apenas parte dos medicamentos teria sido entregue.
Além das fraudes em compras públicas, as autoridades investigam um mercado clandestino de medicamentos de alto custo. Entre os casos estão produtos contra câncer, doenças autoimunes e destinados a pacientes transplantados que seriam roubados ou desviados e posteriormente inseridos no mercado com documentação aparentemente regular.
Já no Rio de Janeiro, em julho, uma operação prendeu suspeitos de integrar uma quadrilha que atuaria no roubo e na redistribuição de medicamentos oncológicos em quatro estados. Segundo a Polícia Civil fluminense, o grupo teria movimentado mais de R$ 33 milhões em um ano.