Transformações no mercado GLP-1 trazem oportunidades e desafios
Preços mais baixos democratizam acesso, mas eventual taxação deixa cenário nebuloso
por César Ferro em
O mercado de GLP-1 passa por um momento de grande transformação. Enquanto surgem os primeiros genéricos e similares da categoria, a alta concentração de faturamento e possíveis medidas para fortalecer a fabricação nacional dividem opiniões. As informações são do portal C-Level, da Folha de S. Paulo.
Mercado de GLP-1 ganhou novos players nos últimos meses
A patente da semaglutida, princípio ativo presente no Ozempice no Wegovy – ambos da Novo –, chegou ao fim em março. De lá para cá, a Anvisa já registrou 16 produtos com o princípio ativo, entre genéricos e similares. Grandes laboratórios, como EMS e Hypera Pharma, lideram esse movimento.
Segundo relatório do Itaú BBA, essas novas terapias podem ter um efeito positivo muito rápido nas operações. No caso da antiga Hypermarcas, a expectativa é que, já no primeiro ano de vendas da caneta, sejam adicionados R$ 359 milhões em receita líquida. Para dimensionar o montante, o valor representa cerca de 4% da receita total estimada pela empresa para 2027.
Fim da patente aumenta o acesso e segurança
A chegada desses novos medicamentos para o tratamento do diabetes e da obesidade é vista como positiva pelo varejo farmacêutico. Para Sergio Mena Barreto, presidente da Abrafarma, uma nova parcela da população irá se beneficiar.
“Hoje eles não conseguem comprar esses medicamentos pelo preço proibitivo para parte das famílias”, afirma. As opções comercializadas por EMS e Mantecorp chegam com preços a partir dos R$ 300. Já o tratamento da Novo pode se aproximar dos R$ 3.500.
Com um mercado mais repleto de opções e uma precificação menos agressiva, outro efeito esperado é uma diminuição das vendas paralelas. Sustentados por produtos contrabandeados do Paraguai sem regulação ou fabricados por indústrias clandestinas, esses medicamentos surgiam como uma “opção” mais barata, ainda que sem garantias de segurança e eficácia.
Fortalecimento do mercado nacional divide players da indústria
Como medida para fortalecer a fabricação nacional, a EMS protocolou em setembro um pedido à Câmara de Comércio Exterior (Camex) para que o imposto de importação sobre as canetas que chegam prontas do exterior suba de 7,2% para 15%. Tal alta representaria um acréscimo de 108% na alíquota.
O Sindusfarma, que reitera seu apoio à “ampliação da produção nacional”, é contra a medida. “O caminho para fortalecer a indústria local é reduzir o custo de produzir no Brasil, não aumentar o de quem importa”, argumenta o presidente da entidade, Nelson Mussolini. O executivo, inclusive, se comprometeu a manter a posição caso seja convidado pelo órgão a se manifestar sobre o tema.
O presidente da Interfarma, Renato Porto, também discorda do aumento do imposto como solução. Para ele, um regime diferenciado poderia reduzir o potencial do mercado brasileiro. “É importante que a gente faça com que o medicamento tenha o menor preço e que tenha as menores alíquotas, para que esses produtos, de fato, consigam ter o menor preço possível no país”, diz.
Faturamento ainda segue concentrado
Apesar do avanço na diversidade de medicamentos à base de semaglutida, a molécula que concentra a maior fatia do faturamento é a tirzepatida, presente nos Mounjaroe Zepbound da Lilly. Líder em vendas, o primeiro representa cerca de 65% dos R$ 10,1 bilhões movimentados pelo segmento brasileiro nos oito primeiros meses deste ano.