Avanço do varejo farmacêutico escancara diferentes realidades
Segundo dados da Close-Up International, GLP-1 puxa as grandes redes, enquanto o Farmácia Popular sustenta as populares e independentes
por César Ferro em
A Close-Up International realizou na última quarta-feira, dia 21, a 11ª edição do Outlook. Um dos principais focos do debate indica que o varejo farmacêutico apresenta dois movimentos distintos de expansão.
Segundo Ivan Engel, diretor de serviços e insights ao varejo e distribuição, o setor cresceu 13% nos 12 meses encerrados em agosto, impulsionado principalmente por dois fatores – os medicamentos à base de GLP-1 nas grandes redes e o Programa Farmácia Popular nas independentes e associativistas.
As duas alavancas do varejo farmacêutico
Para o executivo, a divisão por canal evidencia esse contraste. “Nas redes da Abrafarma, o GLP-1 foi o maior vetor individual do crescimento acumulado de 16,6% no ano, com cerca de um terço desse total. Já nas federações, o Farmácia Popular contribui com 2,6 pontos percentuais dos 13,9% de crescimento e com um quinto do avanço dos independentes”, afirma.
A análise por perfil de loja reforça essa diferença. Entre as unidades maduras, o crescimento dos PDVs super premium recua apenas 2,9 p.p. quando se exclui o efeito da iniciativa, mas a redução supera 10 p.p. quando são desconsideradas as vendas das canetas.
| Perfil da loja | Lojas com Farmácia Popular (em %) | Crescimento (MAT 8/26) | Crescimento sem Farmácia Popular (MAT 8/26) | Crescimento sem GLP-1 (MAT 8/26) |
| Super premium | 21% | 14,60% | 11,90% | 4,30% |
| Premium | 35% | 13,70% | 11,60% | 7% |
| Padrão | 39% | 9,70% | 8,10% | 7,30% |
| Popular | 38% | 9,70% | 7,30% | 9,10% |
| Super popular | 25% | 9,50% | 5,70% | 9,50% |
“Do perfil premium ao super popular, o diferencial de crescimento das lojas com o programa sobe de 0,9 p.p. para 3,8 p.p. É quase uma inflação a mais de crescimento”, resume Engel.
Porém, a maré deve virar…
O diretor questiona, porém, a sustentabilidade dos dois fatores como motores de crescimento no longo prazo. Segundo ele, os acontecimentos que impulsionaram o mercado nos últimos anos foram pontuais ou já estão incorporados à base de comparação do setor.
Somados, os dois vetores chegaram a responder por mais de 40% do crescimento do setor nos períodos de maior influência. Atualmente, representam cerca de 34% do avanço.
Efeito GLP-1 se dilui
De acordo com o estudo, o crescimento do varejo farmacêutico vem desacelerando. O mercado avançou 13% no MAT de agosto, 12,4% no acumulado de janeiro a agosto, 10,4% no trimestre móvel e 8,6% no mês.
“O principal fator para a diminuição do ritmo é o efeito de base criado pelo lançamento do Mounjaro no ano passado. As comparações anuais já estão incidindo sobre períodos nos quais o medicamento já estava à venda, o que modifica consideravelmente o ponto de partida”, explica.
Um indicador que reforça essa análise é a participação dos medicamentos à base de GLP-1 no crescimento do mercado em trimestres móveis. No período encerrado em fevereiro, a categoria respondia por 28,3% do avanço; no dado mais recente, essa participação caiu para 19,8%. O executivo projeta que a contribuição se aproxime de zero nas comparações anuais de outubro e novembro, uma vez que as vendas da categoria permanecem estáveis em valor há cerca de três meses. “A tendência é de estabilidade em valor, porém a chegada de novos produtos amplia a oportunidade da categoria”, ressalva.
Manter o ritmo com Farmácia Popular será o desafio
O Farmácia Popular movimentou R$ 11,75 bilhões até agosto, alta de 28,7%. Em unidades, o avanço foi mais tímido (10,3%), totalizando 795,2 milhões. Atualmente, cerca de 27 mil farmácias estão habilitadas, o que alcança 89% dos municípios brasileiros.
O programa se mostrou especialmente relevante para as lojas maduras independentes, sendo o único fator que contribuiu acima da média dos anos anteriores para o crescimento. “A iniciativa deu uma espécie de sobrevida para esses gestores”, comenta o diretor.
O executivo, porém, alerta que esse efeito decorreu de mudanças pontuais no Farmácia Popular, incluindo novas regras de gratuidade e a inclusão de novos produtos, como absorventes. Por isso, o mesmo ritmo de crescimento pode não se repetir caso não haja novas alterações no programa.
“Sem novas mudanças, a expectativa é que o crescimento convirja dos atuais 28% para algo mais em linha com o mercado, na casa dos 10%”, conclui. Considerando a perda de força dos dois fatores, Engel estima que o crescimento do setor fique entre 8,5% e 10% nos próximos dois meses.
