Cannabis nas farmácias já movimenta R$ 485,4 milhões
Estudo da Close-Up aponta alta de 16,5% no faturamento, desconcentração entre fabricantes e expansão da base de médicos prescritores
por Adriana Bruno em e atualizado em
O mercado brasileiro de cannabis medicinal movimentou R$ 485,4 milhões no acumulado móvel até agosto de 2026, considerando todos os canais. O resultado representa crescimento de 15% em relação ao período anterior, segundo levantamento da Close-Up International apresentado durante a 4ª edição do Cannabis Connection.
O faturamento alcançou R$ 289,8 milhões no varejo farmacêutico, com alta de 16,5% em relação ao mesmo período anterior. O volume comercializado avançou 31% em unidades, indicando redução de aproximadamente 11% no preço médio por unidade.
“Esse movimento é típico de um mercado que ganha escala. Há mais empresas e mais produtos disponíveis, o que amplia a concorrência”, contextualiza Bianca Lamim, analista de market insights da Close-Up International.
Evolução do mercado de cannabis medicinal

Associativismo e independentes avançam
As grandes redes concentram 66,2% das vendas das farmácias, seguidas pelos estabelecimentos independentes (14,1%), associativismo (9,3%) e canal digital (8%). Entretanto, os maiores crescimentos anuais foram registrados no associativismo, com 35,7%; e nas farmácias independentes, com 29%.
Regionalmente, São Paulo responde por 25,5% do faturamento, seguido pelo Rio de Janeiro (11,2%) e por Minas Gerais (10,3%). Juntos, os três estados concentram 47% das vendas. A Bahia apresentou a maior expansão entre os mercados destacados, com alta de 39,5%.
Fabricantes disputam participação
A Prati-Donaduzzi permanece na primeira posição do ranking de vendas nas farmácias, com faturamento de R$ 77,1 milhões, participação de 26,6% e retração de 22,3% na comparação anual. Na sequência aparece a GreenCare, com R$ 51,2 milhões, share de 17,7% e crescimento de 22,7%.
A Mantecorp Farmasa ocupa a terceira posição, com R$ 43,1 milhões, participação de 14,9% e alta de 22,5%. Já o Aché movimentou R$ 27,2 milhões, alcançando 9,4% de participação e crescimento de 132,3%. A Eurofarma, por sua vez, registrou R$ 17,9 milhões, share de 6,2% e expansão de 412,3%.
Para Bianca, o movimento reflete uma mudança na estrutura competitiva, com avanço da desconcentração do mercado. “Ao mesmo tempo, empresas farmacêuticas tradicionais vêm ganhando espaço rapidamente. Isso mostra que a categoria está amadurecendo e passando a operar com a lógica da indústria farmacêutica tradicional, em que relacionamento com a classe médica, portfólio e distribuição são decisivos”, pontua.
Na composição das vendas, os produtos isolados representam 60,6% do mercado, enquanto os extratos respondem por 39,4%. Estes últimos, porém, cresceram 25,3% no período, ante 11,5% dos produtos isolados.
Ranking de fabricantes

Retenção médica é desafio para o setor
O número de médicos prescritores nas farmácias passou de 58.996 para 78.075, avanço de 32,3%. No mesmo intervalo, as prescrições físicas e digitais cresceram 37,9%, chegando a 532.646.
A movimentação da base médica também revela rotatividade. 47.964 profissionais começaram a prescrever, 30.111 mantiveram a atividade e 28.885 deixaram de prescrever.
“O mercado ainda está em fase de experimentação. Os médicos que deixaram de prescrever tinham, em média, cerca de duas prescrições no ano. Já os que se mantiveram aumentaram sua prescrição média em quase 29%, o que mostra que, quando há adesão, ela se aprofunda”, ressalta Bianca.
Entre os desafios, ela destaca a retenção, o custo do tratamento, a resposta clínica individual e o acesso. Outro indicador dimensiona o mercado potencial. Mais de 183 mil médicos de especialidades ainda não tiveram experiência com derivados de cannabis. O contingente representa 78% dos profissionais dessas áreas que já prescrevem anticonvulsivantes sintéticos.
“Hoje, quem receita de forma contínua gera cerca de sete vezes mais prescrições do que quem está começando. A simplificação do receituário com a nova regulamentação da Anvisa, a redução de preços e a atuação de mais empresas junto à classe médica podem acelerar essa adesão”, finaliza a analista.