Por Edison Tamascia, presidente da Febrafar e da Farmarcas
Durante muitos anos, o varejo brasileiro acreditou que seus maiores concorrentes eram as lojas da mesma categoria. Um supermercado disputava espaço com outro. A farmácia concorria com a drogaria da esquina. O atacarejo disputava preço, localização e experiência de compra.
Mas a realidade mudou profundamente. Hoje, os maiores concorrentes do varejo são invisíveis, digitais e estão presentes no celular de milhões de brasileiros. Não mantêm vitrines físicas, não geram a mesma cadeia de empregos que o varejo tradicional e, mesmo assim, vêm absorvendo uma parcela crescente da renda da população. Estou falando das plataformas de apostas online, as chamadas bets.
O que foi apresentado como entretenimento rapidamente se transformou em um fenômeno social, econômico e de saúde pública, com impactos diretos no consumo, no endividamento das famílias e na sustentabilidade de diversos setores da economia.
No varejo, os reflexos já são notórios. Recursos que antes eram destinados à compra de alimentos, medicamentos, produtos de higiene, materiais de construção, vestuário e outros itens essenciais passaram a ser direcionados para apostas digitais. O dinheiro sai do consumo produtivo e entra em uma lógica de perdas sucessivas e de alto potencial de dependência.
O problema é ainda mais grave entre as classes de menor renda. A promessa de ganho rápido cria uma falsa sensação de oportunidade financeira, mas o que vemos na prática é o maior comprometimento da renda familiar, alta no endividamento e deterioração das condições de consumo.
Esse impacto não está restrito ao varejo. Empresas de diversos segmentos já observam aumento de problemas financeiros entre colaboradores, maior procura por empréstimos, queda de produtividade, ansiedade, dificuldades emocionais e até afastamentos relacionados ao vício em jogos. Em algumas organizações, já existem relatos de funcionários com salários completamente comprometidos por dívidas ligadas às apostas.
Mais do que uma questão econômica, estamos diante de um problema crescente de saúde pública. A ludopatia, transtorno relacionado ao vício em jogos, já afeta milhares de brasileiros e tende a crescer rapidamente se não houver ações estruturadas de prevenção, conscientização e tratamento. O impacto chega inevitavelmente às famílias, às empresas e ao sistema público de saúde.
Recentemente, tomei a iniciativa de reunir, na sede do Edifício do Associativismo em São Paulo (SP), representantes de entidades do varejo, da distribuição, da indústria e outros setores ligados ao consumo para discutir esse cenário. Participaram lideranças do varejo farmacêutico, supermercadista, atacadista, indústria, serviços e entidades empresariais.
O mais relevante desse encontro foi perceber que não existe divergência sobre a gravidade da situação. Todos os canais estão sendo impactados. O varejo percebe a redução do consumo. O setor produtivo observa o aumento do endividamento. As empresas enxergam reflexos na saúde emocional dos colaboradores. E as entidades entendem que o tema precisa deixar de ser tratado apenas como uma questão econômica para ser encarado também como um desafio social e sanitário.
Outro ponto que preocupa é o avanço massivo da publicidade das apostas, especialmente nas redes sociais. Influenciadores digitais, celebridades, campanhas esportivas e conteúdos patrocinados contribuem para normalizar um comportamento extremamente perigoso, muitas vezes atingindo jovens e adolescentes.
Vivemos hoje uma realidade completamente digitalizada, em que o estímulo às apostas está disponível 24 horas por dia, nas redes sociais e plataformas consumidas pela população. Isso torna o enfrentamento ainda mais complexo e exige uma discussão séria sobre limites, publicidade e responsabilidade.
O Brasil já enfrentou desafios semelhantes no passado. O combate ao tabagismo é um exemplo importante. Houve um processo gradual de conscientização da população. Restrições publicitárias, campanhas educativas e políticas públicas reduziram significativamente os danos causados pelo cigarro.
Precisamos iniciar essa discussão agora em relação às apostas digitais. Não se trata de radicalismo ou proibição pura e simples. Trata-se de responsabilidade social, proteção da população e construção de mecanismos que reduzam os impactos negativos que já começam a comprometer a economia e a saúde coletiva.
A partir do encontro realizado, já estruturamos novas reuniões e uma frente de trabalho voltada à construção de propostas concretas para ampliar o debate sobre regulamentação, conscientização, saúde pública e responsabilidade das plataformas.
O mais importante é entender que essa não é uma pauta de um único setor ou de uma única entidade. Trata-se de um tema suprassetorial e apartidário. Seus efeitos atingem toda a cadeia econômica e social brasileira.
A sociedade civil organizada precisa participar dessa discussão. O varejo não pode ignorar que parte relevante da renda das famílias está sendo drenada para plataformas digitais de apostas. As empresas não podem ignorar os impactos sobre seus colaboradores. O setor público não pode ignorar o crescimento do problema de saúde associado ao vício em jogos.
Ainda há tempo para agir, mas essa janela está se estreitando rapidamente. Quanto mais demorarmos para enfrentar essa realidade, maior será o custo econômico, social e humano para o Brasil.
Faço uma pergunta direta: você também está percebendo os impactos das bets no seu negócio, na sua empresa ou na sua família? Porque essa batalha não é apenas do varejo. É uma batalha da sociedade brasileira.