Bolha dos GLP-1 preocupa a indústria farmacêutica
Medicamentos já representam 38% do fluxo comercial das farmacêuticas
por Gabriel Noronha em e atualizado em
Dados divulgados pela Deloitte na última segunda-feira, dia 4, revelaram que os retornos obtidos pelas farmacêuticas com investimentos em P&D avançaram pelo terceiro ano consecutivo, atingindo um patamar recorde de 7% em 2025.
Os resultados, apesar de positivos, acenderam um grande alerta em especialista ao indicarem o tamanho da dependência do setor em relação à “bolha dos GLP-1”. Desconsiderando a categoria, o retorno do setor despenca para 2,9%, abaixo dos 3,8% registrados em 2024. “É uma bolha, porque muita coisa está concentrada”, assegura Hanno Ronte, sócio de ciências da vida e saúde da Deloitte.
De acordo com a consultoria, o desempenho da categoria fez com que a oncologia perdesse o posto de líder em valor do pipeline das farmacêuticas pela primeira vez em 16 anos, após um recuo de 20%.
Em 2022, por exemplo, os ativos para obesidade representavam apenas 1% do valor projetado. Hoje, os medicamentos GLP-1 e GIP respondem por cerca de 38% de todos os fluxos comerciais projetados no pipeline de 2025.
O desempenho dos GLP-1 destoa do histórico de outras categorias no canal farma, tradicionalmente marcado por avanços mais moderados. “Dos 140 milhões de brasileiros na fase adulta, 68% estão obesos ou convivem com sobrepeso. Mas as doses vendidas atualmente atendem no máximo 1 milhão de pessoas, deixando aproximadamente 95 milhões de potenciais pacientes fora do mercado”, avalia o consultor Paulo Paiva.
Concentração dos GLP-1 gera alerta
O principal ponto de preocupação para os analistas da Deloitte é a concentração de receitas. A consultoria identificou que apenas 54 indicações, consideradas mega-blockbusters, representam 9% do pipeline tardio e respondem por cerca de 70% das vendas totais.
“O grau de concentração cria um ambiente de alto risco, no qual poucos ativos sustentam os retornos do setor inteiro, com maior sensibilidade a choques em áreas terapêuticas específicas”, entende Ronte.
Competição e limites dos GLP-1 testam indústria
Esse cenário levanta dúvidas sobre os futuros investimentos das farmacêuticas. Ao mesmo tempo em que o mercado se torna mais competitivo, afastando potenciais concorrentes, novas aplicações para a categoria surgem com frequência, ampliando sua atratividade.
Recentemente, o GLP-1 da Novo Nordisk foi aprovado para reduzir riscos cardiovasculares e tratar doenças renais e hepáticas, enquanto a combinação GLP-1 e GIP da Eli Lilly recebeu aprovação para tratar apneia do sono em pacientes com obesidade.
Ao mesmo tempo, um ensaio clínico da Novo Nordisk sobre o efeito da semaglutida, princípio ativo do Ozempic e do Wegovy, não demonstrou retardo significativo na progressão do Alzheimer, mas apontou impacto em proteínas associadas à doença e em biomarcadores de inflamação sistêmica. Outras pesquisas também indicam potencial dos GLP-1 no tratamento de dependência química.
“A questão é se as empresas simplesmente devem dobrar a aposta, o que forçaria a bolha, ou optam por encontrar a próxima onda científica”, questiona Ronte.