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CPI recebe denúncia de que Prevent Senior fez acordo com governo federal para testar e disseminar ‘kit Covid’ em ‘cobaias humanas’

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A CPI da Covid recebeu nesta quinta-feira (26) uma denúncia formal feita por um representante de médicos e ex-médicos da Prevent Senior em que afirmam que a operadora de saúde e o governo federal fizeram um acordo, no início da pandemia do coronavírus, para disseminar as medicações do “kit covid”, como cloroquina, ivermectina e azitromicina.

O documento cita lista uma série de irregularidades que, segundo os médicos, foram praticadas pela empresa, reveladas pela GloboNews e o G1 em abril deste ano. O Ministério Público abriu investigação

O primeiro desdobramento do acordo entre Prevent e governo federal, segundo a denúncia, foi a pesquisa feita com mais de 600 pacientes para testar a eficácia da hidroxicloroquina contra a Covid-19, realizado entre março e abril do ano passado. O resultado teria sido manipulado para que os resultados fossem favoráveis ao uso da cloroquina contra a doença.

“Eu quero trazer aqui um assunto muito grave, gravíssimo. Eu recebi aqui uma correspondência, que é cópia de um processo que está sendo movido por um grupo de profissionais médicos ligados à rede Prevent Senior, em que formalizaram uma denúncia contra essa instituição, por conta da política de coerção que foi assumida por essa direção em termos de orientações aos profissionais médicos, para adotarem aquelas orientações do chamado tratamento precoce. Inclusive, aqueles que, em algum momento, se recusaram a implementar essas medidas foram demitidos”, afirmou o senador Humberto Costa (PT).

A denúncia afirma ainda que a Prevent realizou uma série de tratamentos experimentais em seus pacientes, muitas vezes sem que houvesse consentimento deles. O texto diz que pacientes foram usados como “cobaias humanas” para testar medicações contra a Covid.

“Uma das coisas que o hospital orientava era que os pacientes e os seus familiares não tivessem conhecimento de que essa experiência estava sendo feita, que não tivessem conhecimento de que estavam sendo administrados esses medicamentos. A informação que se tem é que isso foi um acerto entre a direção do hospital e o governo federal, contra aquelas orientações que havia do Ministério da Saúde, no período do Ministro Mandetta. E o chamado gabinete paralelo estaria por trás dessa. Ele era o elo entre o Prevent Senior e o governo federal”, diz Humberto Costa.

Entre os tratamentos não-convencionais mencionados está a ozonioterapia, a flutamida e a heparina inalatória. A denúncia é acompanhada por mensagens de Whatsapp de diretores da empresa.

Os médicos alegam que eram coagidos pela Prevent a prescrever as medicações do tratamento precoce de forma sistemática e que há um acompanhamento rigoroso do número de kits prescritos.

Há um requerimento aprovado pela CPI para que o diretor-executivo da Prevent, Pedro Batista Jr., seja ouvido. O relator da comissão, senador Renan Calheiros, afirmou que vai convocar mais representantes da empresa. O senador Randolfe Rodrigues (MDB) disse que os crimes narrados na denúncia são de ‘lesa-humanidade’. Simone Tebet (MDB) comparou os relatos com o que aconteceu em Manaus.

A comissão também aprovou requerimentos para que o Ministério Público de São Paulo, o IDEC, a ANS e o Cremesp compartilhem suas investigações com a CPI.

Em nota, a Prevent diz que “sempre atuou dentro dos parâmetros éticos e legais e, sobretudo, com muito respeito aos beneficiários. Todas as dúvidas e questionamentos formulados pela CPI foram devidamente esclarecidos junto às autoridades competentes.”

Infectados

Médicos que trabalharam na linha de frente da Covid-19 na Prevent Senior, afirmaram à GloboNews que tiveram que fazer plantões nos hospitais da Prevent quando estavam infectados com o novo coronavírus. A denúncia diz ainda que eles foram proibidos de usar Equipamentos de Proteção Individual (EPIs).

“Há, inclusive, uma determinação que aqui consta do processo da não utilização de máscaras, porque o objetivo era exatamente disseminar o vírus, no ambiente hospitalar, para que, assim, pudesse ser feita uma pesquisa que constava da utilização de cloroquina, de azitromicina, de ivermectina com os pacientes. Esse protocolo começou, esse teste começou no dia 6 de abril. Houve um pedido do Prevent Senior.

Além disso, relataram uma rotina de pressão e assédio constantes para prescrever medicações que eles sabem que não funcionam e que podem agravar o quadro dos pacientes.

Resumo das principais denúncias feitas pelo médicos

A Globonews teve acesso a conversas em aplicativos de mensagens de grupos da Prevent que confirmam o relato dos profissionais. Em um dos diálogos, um diretor da empresa orienta os subordinados a medicar todos os pacientes com problemas respiratórios com hidroxicloroquina e azitromicina sem avisá-los disso, apesar de serem medicamentos sem indicação para Covid-19.

A reportagem também obteve prontuários médicos e outros documentos que mostram uso de práticas vetadas pelo Conselho Federal de Medicina, como a ozonioterapia. A Prevent Senior disse, na ocasião, à GloboNews que jamais coagiu funcionários (leia nota abaixo).

Flutamida

No dia 24 de março, o Ministério Público de São Paulo abriu uma investigação para apurar a prescrição de medicamentos não indicados para o tratamento da Covid na rede Prevent Senior. Isso aconteceu após a Globonews mostrar que a operadora está fazendo uma distribuição indiscriminada.

No mesmo dia, a Promotoria recebeu uma denúncia anônima de que ‘os médicos da direção da empresa estão solicitando a prescrição obrigatória para todos os pacientes internados com Covid-19 de medicações não comprovadas cientificamente’ e cita a “flutamida” e o “etanercepte’.

Em seguida, o denunciante diz que “a Prevent Senior está induzindo seus médicos a prescreverem as medicações citadas sem consentimento livre e esclarecido dos familiares dos pacientes, sem estar enquadrado em nenhum estudo científico e sem protocolo institucional’.

O etanercepte é um remédio para artrite e psoríase. A flutamida é um inibidor de hormônios masculinos, usado exclusivamente no tratamento do câncer de próstata.

Não há indicação da Anvisa para tratar pacientes com Covid, nem nenhum estudo científico publicado sobre a eventual eficácia desses medicamentos para o novo coronavírus. Os riscos também são desconhecidos.

A representação ao MP foi acompanhada de fotos de uma conversa em um grupo de médicos da Prevent. Um diretor da operadora escreve: ‘Bom plantão a todos e enfatizo a importância da prescrição da Flutamida 250 mg de 8 em 8 horas para todos os pacientes que internarem’.

A flutamida era comercializada para o tratamento de acne até 2004. Naquele ano, a Anvisa emitiu um alerta para que o remédio não fosse utilizado para nenhuma finalidade que não fosse o tratamento de câncer de próstata, depois que quatro mulheres morreram de hepatite fulminante fazendo o uso da medicação.

Na bula da flutamida, o fabricante diz que o remédio não deve ser usado por mulheres e que a única indicação é para tratar câncer na próstata.

Pressão para prescrever “kit covid”

O CFM diz que os médicos têm autonomia para prescrever o remédio que achar adequado ao paciente, mas, segundo esses médicos, não é o que acontece na Prevent Senior. Um deles foi demitido depois de se recusar a dar essas medicações.

‘Eu deixei de prescrever por um único dia acreditando nisso [autonomia] e acabei sendo chamado à diretoria com orientações bem claras de que eu deveria prescrever a medicação e o que ficava implícito era que, se não prescrevesse a medicação, você estaria fora do hospital. Voltei a prescrever a medicação por ter sido obrigado a prescrever. A autonomia, na verdade, é zero, você não tem escolha de deixar de prescrever. Se você não prescreve, você vai ser demitido’, afirma um deles.

Uma segunda médica fala que a prescrição do “kit covid” é uma orientação padrão para todos os pacientes. ‘Ao menor sinal de síndrome gripal, a orientação era que prescrevesse. Se o paciente teve uma coriza, você tinha que prescrever o kit. Bastava ter um único dia de evolução, algumas horas de evolução, paciente chegou, descreveu os sintomas, você tinha que entregar o kit. Eles contabilizavam o número de kits.’

Numa conversa de março do ano passado, um diretor da empresa anuncia o início do protocolo com ‘hidroxicloroquina e azitromicina’. E orienta os médicos a ‘não informar o paciente ou familiar sobre a medicação e nem sobre o programa’, ou seja, a dar a medicação de forma escondida.

Essa terceira médica pediu demissão por não concordar com essas práticas.

‘Todo plantão que eu ia lá sempre tem alguém que dizia, ‘olha, eu tenho que prescrever, qualquer sintoma gripal eu tenho que passar para o paciente. Então, não tem escolha, não. É diário mesmo. Então se tinha um paciente internado, aí eu deixava uma prescrição, aí vinha alguém de cima e falava ‘não, faltou tal coisa’. Ia lá, mexia na minha prescrição e colocava outra. Então isso chegou a acontecer. E aí eu acabo não exercendo aquilo que eu estudei.’

Em outra mensagem, de maio de 2020, outro diretor mostra um gráfico indicando queda na distribuição dos kits e cobra a equipe: ‘Não podemos perder o foco, voltamos a ter rendimentos ruins, não podemos perder o tônus’.

O monitoramento das entregas de kits é diário. Outra mensagem com a mesma orientação foi enviada no dia 15 de novembro por Whatsapp.

Dois dos médicos que entrevistamos disseram que foram obrigados a dar plantões mesmo estando infectados com o novo coronavírus. Um deles enviou o resultado do teste e a escala de plantões nos dias seguintes, comprovando que ele trabalhou mesmo infectado.

‘Aconteceu algumas vezes, inclusive comigo. Eu estava com Covid, tive o diagnóstico, enviei a mensagem para o meu coordenador, avisando que estava com Covid, mandei o exame pra ele, ele pediu que eu fosse para o plantão mesmo assim, para repetir esse exame lá [na Prevent Senior]. O exame foi feito lá também, confirmou novamente que estava com Covid, mas ele pediu para eu continuar trabalhando mesmo assim. Não tinha escolha de poder ir para casa e continuei realmente trabalhando com um Covid.”

O médico trabalhou ao menos cinco dias infectado com a doença e atendendo pacientes.

Um deles enviou o resultado do teste e a escala de plantões, provando que trabalhou com a doença.

Ozonioterapia

A GloboNews ainda teve acesso a dois prontuários médicos de pacientes que foram internados na Prevent Senior, receberam todas as medicações do kit covid e acabaram morrendo.

Um dos pacientes foi submetido a uma sessão de ozonioterapia, prática que é proibida pelo CFM. A resolução do órgão diz que a ozonioterapia só pode ser feita ‘de acordo com as normas do sistema CEP/Conep’, que são os Comitês de Ética em Pesquisa, que autorizam experimentações em humanos. A prática só é permitida em instituições credenciadas, o que não é o caso da Prevent Senior.

Segundo o Conep, não há aprovação de ensaio clínico que autorize a prática de ozonioterapia para a Prevent. A instituição não é credenciada para esse tipo de tratamento experimental, de acordo com o órgão.

O coordenador da Conep, Jorge Venâncio, afirmou que iniciar uma pesquisa sem ter autorização é uma ‘irregularidade grosseira’. ‘Nesses casos de pesquisa não autorizada, a responsabilidade por qualquer dano que exista ao participante é exclusivamente dos pesquisadores da instituição que estiver fazendo a pesquisa.’

Fonte: G1.Globo

Veja também: https://panoramafarmaceutico.com.br/ex-medicos-da-prevent-senior-afirmam-que-operadora-obrigava-a-trabalharem-com-covid-19-e-a-receitar-medicamento-capaz-de-provocar-hepatite-fulminante/

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