Cultivo pode desbloquear potencial do mercado de cannabis medicinal
Previsão da Kaya Mind é de que o setor pode movimentar até R$ 9,5 bilhões
por César Ferro em
Mesmo sem conquistar seu primeiro bilhão, o mercado de cannabis medicinal no Brasil apresenta amplo espaço para crescimento das empresas nacionais. Segundo a Kaya Mind, o setor tem potencial para movimentar R$ 9,5 bilhões, e um caminho para destravar esse avanço é o cultivo por fabricantes oriundas do país.
Em 2024 e 2025 o segmento cresceu acima dos dois dígitos em receita, com altas de 22% e 14%, respectivamente. O número de pacientes, porém, ainda está abaixo do potencial estimado: enquanto cerca de 873 mil pessoas já utilizam a terapia, a consultoria projeta um universo de até 7 milhões de possíveis beneficiários.
Cultivo deve potencializar o mercado de cannabis medicinal
Mas como transformar esse potencial em realidade? A resposta mais provável está no cultivo em solo nacional. Em fevereiro, a Anvisa publicou as regras para a produção da erva por empresas habilitadas, seguindo critérios restritos.
Com a liberação, farmacêuticas e empresas de outros setores, como a Embrapa, já demonstraram interesse na prática. A empresa pública de pesquisa agropecuária, por exemplo, vê o cânhamo como um produto com potencial para revolucionar o setor agrícola, em movimento semelhante ao provocado pela soja há 50 anos.
Embrapa pesquisa cannabis desde 2025
Antes mesmo de a agência divulgar as diretrizes para o plantio da cannabis, a Embrapa já havia sido autorizada a avançar em pesquisas com a planta. Além dos medicamentos, a empresa também pretende identificar a melhor produtividade industrial para os derivados da erva. Entre os possíveis usos estão cosméticos e terapias veterinárias.
Fabricante buscou know-how estrangeiro
No mesmo caminho, a Ease Labs verticalizou sua operação por meio da aquisição da Plena, companhia colombiana com expertise na exploração sanitária da cannabis. A operação serviu, inclusive, de referência para o modelo aprovado pela Anvisa para o plantio nacional.
“O mais importante da aquisição foi incorporar o know-how relacionado ao cultivo para fins farmacêuticos”, afirma Gustavo Palhares, CO-CEO da operação. Na Colômbia, são mais de 500 variedades da planta cultivadas, entre espécies selecionadas e submetidas a melhoramentos genéticos.
Segundo o executivo, tamanha diversidade representa um diferencial importante para adaptação à regulamentação brasileira. “A Anvisa limitou o THCa 0,3% para as plantas cultivadas no País. Hoje detemos genéticas que cumprem esse limite”, garante.
Outra empresa também foi ao Exterior… mas em busca de sementes
Se a Ease Labs buscou inspirações na Colômbia, a Alko do Brasil atravessou oceanos em busca de sementes. Com matéria-prima vinda de países como África do Sul, Austrália e Itália, a farmacêutica familiar carioca pretende migrar do modelo de importação de produtos acabados para a fabricação nacional.
A companhia realizará testes de adaptação com as sementes, avaliando como elas respondem ao solo e ao clima brasileiro. “Até o fim deste ano teremos o piloto. Vamos desenvolver ensaios de sementes certificadas no Brasil para os primeiros insumos, de modo a garantir o perfil químico da planta diante de fatores agroambientais, inclusive atendendo aos critérios permitidos pela Anvisa”, relata o agrônomo e head de operações Dennys Santos.