Estudo inédito avalia o poder do consumidor 60+ nas farmácias
IFEPEC ouviu quase mil entrevistados para entender oportunidades e lacunas no atendimento a esse público
por César Ferro em
O número de idosos no Brasil cresceu 57,4% entre 2010 e 2022, segundo o Censo Demográfico realizado há quatro anos. Nesse contexto, os consumidores 60+ vêm ganhando protagonismo no varejo farmacêutico.
De olho nesse movimento, o Instituto Febrafar de Pesquisa e Educação Corporativa (IFEPEC), com o apoio do Instituto Axxus e do NEIT da Unicamp, incorporou um recorte analítico sobre esse público em seu Comportamento do Consumidor em Farmácias 2026.
O estudo ouviu 920 consumidores com 60 anos ou mais, o que corresponde a 23% da amostra total. A maioria dos entrevistados reside no Sudeste (47,73%), Nordeste (19,84%) e Sul (17,68%).
Um raio-X sobre o consumidor 60+
72% consomem mais de três medicamentos por dia
Segundo a pesquisa, 72% dos consumidores idosos realizam a prática conhecida como polifarmácia – o consumo simultâneo de diferentes terapias. A maior parte (54%) consome entre três e cinco fármacos e 18% chegam a precisar de seis ou mais diariamente. Vale destacar também que apenas 2% não fazem controle de doenças crônicas.
“Esse dado sublinha a alta dependência de medicamentos por parte da população idosa, tornando-os um público-alvo estratégico para as farmácias”, analisa Edison Tamascia, presidente da Febrafar.
Consumidor 60+ pratica polifarmácia (H4)
(Quantidade de medicamentos consumida pelos idosos)

A polifarmácia é mais comum nos estados do Nordeste, com incidência de 72,6%, enquanto a maioria dos consumidores que não fazem uso contínuo de medicamentos está no Sul do país (2,5%).
“Quando o cuidado em saúde não é integrado, cada médico prescreve um remédio sem conciliar com outro que já é tomado. Cabe ao farmacêutico entender a real situação do paciente e readequar essa rotina, tomando precauções contra possíveis reações medicamentosas ou duplicidades de tratamento”, ressalta Marcelo Polacow, ex-presidente do CRF-SP, professor visitante e pós-doutorando da Universidade Estadual de Campinas.
Mais de 97% convivem com dificuldades no manuseio
Um dado que torna a polifarmácia ainda mais alarmante é que 97,7% dos consumidores 60+ convivem com problemas no manuseio de medicamentos. A principal barreira está na conferência de bulas e embalagens (57,1%), seguida pela dificuldade de lembrar horários (34,1%) e de tirar os comprimidos da cartela ou parti-los (22,4%).
Os principais ruídos na jornada do shopper idoso

“As limitações na leitura de bulas e embalagens afetam mais da metade dos idosos. É um alerta importante para a indústria farmacêutica, que deve adotar uma maior clareza nas informações e uma atenção especial ao tamanho das fontes”, pontua Tamascia.
“Precisamos ter políticas mais firmes em relação ao cuidado farmacêutico dessa população. A própria tecnologia pode nos ajudar com essa tarefa, com aplicativos que avisam quando um determinado medicamento deve ser tomado”, opina Polacow.
Farmacêutico pode ter papel mais estratégico
Apesar de os pacientes conviverem com desafios tão frequentes, o farmacêutico ainda não é um participante tão comum na jornada. De acordo com o levantamento, apenas 15,2% dos entrevistados buscam apoio profissional para esclarecer dúvidas.
Farmacêutico ainda pode se tornar protagonista
(Frequência de interação com esse profissional)

“A população precisa enxergar o farmacêutico como um agente integral de saúde e atenção primária, como já acontece em mercados como Inglaterra, Austrália e Canadá”, completa Polacow.