Estudo revela retrocesso na ascensão profissional de mulheres
Falta de suporte na carreira afeta desejo de promoção, enquanto empresas reduzem foco na diversidade de gênero. Realidade se estende ao canal farma?
por Ana Claudia Nagao em
Após uma década de avanços na representatividade, o progresso das mulheres no mundo corporativo corre o risco de retroceder. É o que aponta a 11ª edição do Women in the Workplace 2025, o maior estudo sobre a situação das mulheres em empresas, realizado pela LeanIn.Org e pela McKinsey & Company.
O relatório revela um dado inédito e preocupante. Pela primeira vez há uma lacuna notável de ambição, com as mulheres demonstrando menos interesse em ser promovidas do que os homens. No entanto, a pesquisa explicita que essa lacuna não se deve a uma falta de dedicação. Mulheres e homens são igualmente comprometidos com suas carreiras. A grande diferença está no suporte oferecido pelas empresas.
O problema é que o campo de atuação continua desigual. As mulheres recebem menos suporte e patrocínio para avançar. No nível de entrada, elas têm cerca de metade da probabilidade dos homens de contar com múltiplos patrocinadores ou um mentor em cargos de nível sênior.
O principal obstáculo na base da hierarquia corporativa, conhecido como “degrau quebrado” (broken rung), mantém-se intacto pelo 11º ano consecutivo. Para cada 100 homens promovidos ao cargo de gerente, apenas 93 mulheres recebem a mesma oportunidade.
Grupos específicos de mulheres sofrem mais
O cenário é ainda mais complexo para grupos específicos. As mulheres negras em cargos de liderança enfrentam níveis alarmantes de esgotamento (burnout) e insegurança no trabalho, superiores aos de outras líderes. As asiáticas de nível médio esbarram no preconceito de que carecem de assertividade para papéis de liderança.
Já as que apresentam algum quadro de deficiência entendem que sua condição pode limitar o avanço na carreira. Por outro lado, as latinas destacam-se pelo foco na ascensão. Quase nove em cada dez desejam ser promovidas para o próximo nível hierárquico.
As opções de trabalho remoto trouxeram desafios adicionais. As mulheres que trabalham fora do escritório na maior parte do tempo têm menos probabilidade de ter um patrocinador e de serem promovidas em comparação com aquelas que trabalham presencialmente.
A revolução da Inteligência Artificial (IA) também traz alertas. Apenas 21% das mulheres em início de carreira são incentivadas por seus chefes a usar IA, em comparação com 33% dos homens no mesmo nível. E na gestão de talentos, especialistas temem que algoritmos mal treinados possam amplificar padrões históricos de preconceito na hora de contratar ou avaliar o desempenho, prejudicando o avanço feminino.
A queda no compromisso das empresas
Para agravar a situação, as organizações parecem estar perdendo o ímpeto na busca pela igualdade. Apenas metade das empresas afirma que o avanço na carreira das mulheres é uma prioridade máxima, marcando uma tendência de declínio de vários anos no compromisso com a diversidade de gênero.
A realidade feminina no mercado farmacêutico brasileiro
A presença feminina no mercado farmacêutico brasileiro vivencia um momento de contrastes. Nos laboratórios farmacêuticos, o cenário é de expansão. Um levantamento do Sindusfarma e da iniciativa LeaderShe mostrou que a participação de mulheres em altos postos de comando (como diretorias e presidências) aumentou 8% em relação a 2024, superando a média nacional da indústria brasileira. As contratações e promoções também subiram 7% em comparação ao ano anterior, com um crescimento ainda mais expressivo de 19% na alta liderança.
Atualmente, elas já representam metade (50%) da força de trabalho do segmento. Ocupam 51% das posições de coordenação, 47% das funções gerenciais e 43% das cadeiras mais estratégicas. O compliance e o RH são as áreas com maior número de lideranças, com 73% e 72%, respectivamente, enquanto a tecnologia (22%) e a presidência (24%) ainda apresentam os menores índices.
“Esses dados demonstram que as mulheres ocupam um importante espaço no setor, mas ainda há lugar para mais”, analisa a chairwoman do LeaderShe, Heloísa Simão. Apesar dos avanços na alta gestão corporativa, persistem os desafios da diversidade interseccional. Nos cargos de liderança da indústria, apenas 13% são negras e 16% têm mais de 50 anos.
O desafio do varejo
Em contrapartida, o varejo farmacêutico enfrenta um refluxo. Estudo do Instituto Retail Think Tank (IRTT) demonstrou que a participação de mulheres no varejo farmacêutico diminuiu no último ano. Em 2025, apenas seis redes de farmácias figuraram entre as empresas com maior presença feminina, um número inferior às dez listadas em 2024. Além disso, a presença nos Conselhos de Administração das varejistas continua restrita.
Apesar do cenário desafiador, algumas redes caminham na contramão da estatística. A Farmácias Nissei lidera o ranking nacional de funcionários no varejo, com 70% de mulheres em seu quadro. A empresa investe em políticas de desenvolvimento interno e defende que investir na equidade de gênero é construir um ambiente mais inovador, conforme afirma a diretora de Gente e Gestão da rede, Regina Molinari.
Na análise de posições de liderança exclusivamente no varejo, a rede Pague Menos assume o protagonismo, com 69% de mulheres no comando, seguida pela RD Saúde (63%) e pela própria Nissei (62%).
Percentual de mulheres no varejo farmacêutico
(Total de colaboradoras e % sobre o número total)

Já nos Conselhos de Administração das redes, o Grupo Total lidera a participação feminina, com 27%, seguido pela Nissei com 20%.
Participação feminina na liderança
(Total de funcionárias e % de participação)
