Fim da patente do Ozempic pauta disputa nos tribunais
Novo Nordisk busca estender exclusividade enquanto concorrentes já preparam versões genéricas
por Gabriel Noronha em
Os bastidores da indústria farmacêutica brasileira intensificam-se com a aproximação do fim da patente do Ozempic. Enquanto diferentes laboratórios se preparam para lançar suas versões genéricas do medicamento, a dinamarquesa Novo Nordisk, detentora dos direitos, busca no Judiciário alternativas para proteger sua principal fonte de receita.
Com o vencimento da exclusividade previsto para março, a disputa por um [/grifar]mercado que movimentou R$ 9,89 bilhões nas farmácias no ano passado[/grifar] passou a ter o Congresso Nacional como principal palco, segundo informações da Folha de S. Paulo.
No Legislativo, a Novo Nordisk apoia um projeto de lei que pode estender por cinco anos seus direitos sobre o medicamento, sob o argumento de que o INPI, órgão responsável pela análise de patentes, teria permanecido inerte no processo por quase oito anos.
O PL 5810/2025 representa a mais recente estratégia da farmacêutica para compensar o período que alega ter perdido. Em novembro do ano passado a empresa apresentou o mesmo pleito ao STJ, que o rejeitou e manteve a data original de vencimento da patente.
Um dos autores, o deputado Capitão Alberto Neto (PL-AM), afirma que o texto busca preencher um vácuo legal criado por uma decisão do STF, em 2021. À época, o Supremo declarou inconstitucional a previsão de garantia mínima de sete a dez anos para patentes após a concessão do registro, que permitia ressalvas em caso de atraso do INPI.
“Desde então, a ausência de instrumento legal para compensar atrasos injustificados do INPI compromete a segurança jurídica, a previsibilidade e o ambiente de investimentos em pesquisa e desenvolvimento”, contesta a farmacêutica.
Ainda segundo a Novo Nordisk, o projeto não cria privilégios nem amplia direitos de forma automática. Ele propõe um mecanismo técnico já adotado internacionalmente, que apenas recompõe o tempo perdido quando a demora no processo de avaliação de patentes é atribuível exclusivamente ao próprio Estado. Trata-se de alinhar o Brasil às melhores práticas globais e garantir regras claras, estáveis e previsíveis.
Entidade no campo oposto
No campo oposto da disputa, o Grupo FarmaBrasil destaca os possíveis impactos da aprovação, que criaria precedentes para outros medicamentos e afetaria diretamente a população por meio do SUS, como forma de pressionar o Legislativo a rejeitar a proposta.
“A grande preocupação agora é justamente o Congresso. A garantia de uma extensão de exclusividade impede que os concorrentes possam trazer as versões genéricas para o mercado, que têm um preço muito mais acessível”, entende Adriana Diaféria, vice-presidente da associação.
Preparativos da concorrência
Entre as farmacêuticas nacionais que se anteciparam ao fim da exclusividade está a EMS. O laboratório investiu mais de R$ 1 bilhão em sua planta de Hortolândia (SP) para a produção de semaglutida. Com o produto, a companhia projeta faturar US$ 4 bilhões (R$ 21,7 bilhões) no médio prazo, somando vendas no Brasil e no Exterior.
Outros players que avançam na preparação são a Hypera, que busca registro junto à Anvisa; a Biomm, por meio de acordo com a indiana Biocon; além de Cimed, Nexus e Eurofarma.
Fim da patente do Ozempic pode expandir mercado
A expectativa do setor é que a entrada das versões similares amplie o acesso e impulsione a popularização da categoria, hoje limitada principalmente pelo alto preço. Uma projeção divulgada com exclusividade pelo Panorama Farmacêutico estima que o mercado brasileiro de canetas emagrecedoras pode alcançar cerca de R$ 1 trilhão em vendas.