Logística impõe desafios extras para distribuidoras do Norte-Centro-Oeste
Entenda o trabalho do atacado regional para abastecer farmácias independentes em regiões de difícil acesso
por Ana Claudia Nagao em
Levar acesso à saúde, bem-estar e informação a regiões distantes dos grandes centros urbanos é um dos principais desafios, e também uma das maiores responsabilidades, da cadeia de distribuição de medicamentos no Brasil. Nas regiões Norte e Centro-Oeste, marcadas por grandes distâncias geográficas, infraestrutura limitada e municípios afastados entre si, o papel do atacado ganha ainda mais relevância.
A atuação nestes estados supera desafios de transporte e fortalece o varejo farmacêutico regional, ampliando capilaridade e presença em localidades estratégicas. Esta é a terceira reportagem da série especial Rumo à Abradilan Conexão Farma 2026.
De acordo com dados da Abradilan, as 151 distribuidoras associadas estão presentes em todos os estados e no Distrito Federal, representando 69 grupos econômicos. Embora quase metade delas (48%) esteja concentrada no Nordeste, as demais regiões do país, incluindo Norte e Centro-Oeste, apresentam uma cobertura estratégica que garante acesso a remédios mesmo em localidades mais distantes.
Segundo a entidade, essas empresas atendem 99,3% dos municípios brasileiros e estão presentes em 85,4% das farmácias do país. A cobertura chega a 96,2% no varejo associativista. No que se refere à participação de mercado, o setor mantém um desempenho expressivo. O market share da entidade alcança 33,8% do mercado de distribuição em unidades, 48,8% do mercado de genéricos e similares em valores e 54% em unidades.
“A presença consolidada das distribuidoras no Norte e Centro-Oeste é crucial para garantir eficiência no fornecimento de produtos farmacêuticos em áreas com menor densidade populacional e maiores complexidades logísticas”, avalia o diretor executivo da Abradilan, Vinícius Dall’Ovo.
Acesso a medicamentos impulsiona pequenas farmácias
Em um cenário marcado por incertezas econômicas e mudanças tributárias constantes, a atuação de distribuidores regionais tem se mostrado decisiva para garantir o abastecimento farmacêutico nos rincões do país. É nesse contexto que a Centrofarma se consolida como um elo estratégico entre a indústria farmacêutica e milhares de PDVs independentes nos estados do Tocantins e Pará, contribuindo para reduzir desigualdades regionais e fortalecer o atendimento à população. A empresa também atua no Nordeste, por meio da presença no Maranhão.

Com sede em Palmas (TO), a companhia atende cerca de 4 mil CNPJs ativos. Opera em uma das malhas logísticas mais desafiadoras do Brasil, com infraestrutura rodoviária limitada e exigência de transporte por via fluvial, especialmente em áreas ribeirinhas do Pará.
Segundo Murillo Vieira de Queiroz, sócio-proprietário e diretor executivo, a distribuição regional é essencial para a sustentabilidade do varejo fora dos grandes centros. “Conseguimos realizar cerca de 90% a 95% das entregas em até 24 horas nos estados onde atuamos. Isso permite que as farmácias trabalhem com estoques menores, tenham mais giro e preservem o fluxo de caixa”, explica.
Essa agilidade é ainda mais relevante no Tocantins, onde a baixa densidade populacional e a existência de muitas cidades pequenas elevam a dificuldade operacional. Já no Pará, além da dimensão territorial, a combinação entre estradas precárias e rotas fluviais exige soluções sob medida.
Além da logística, a Centrofarma desempenha um papel financeiro crucial para o mercado. “Hoje, a distribuição concede mais crédito ao varejo do que o próprio sistema bancário. Somos nós que bancamos grande parte dessa operação, o que requer gestão rigorosa e parceria de longo prazo com o cliente”, observa.
O executivo destaca que o segundo semestre de 2025 foi especialmente difícil para o setor, com aumento da inadimplência e retração no consumo. Ainda assim, a perspectiva para o mercado regional é de crescimento moderado. Dados preliminares indicam que o setor farmacêutico na Região Norte cresceu cerca de 10% no último ano, com potencial para avançar entre 10% e 13% no médio prazo.
Para Queiroz, fatores como as eleições e grandes eventos nacionais tendem mais a redistribuir o consumo do que a frear a atividade. “Na nossa região, especialmente em anos eleitorais, há uma circulação maior de recursos no interior, o que também movimenta o comércio local”, observa.
Linkmed aposta em marcas exclusivas para crescer
Em meio a margens cada vez mais pressionadas, a Linkmed encontrou nas marcas exclusivas uma estratégia para sustentar o crescimento. De acordo com o diretor executivo Álvaro Silveira Jr., o mercado farmacêutico brasileiro enfrenta um momento de desaceleração quando desconsiderado o impacto pontual de categorias específicas, como as canetas emagrecedoras.

“Quando tiramos esse efeito, o mercado praticamente não cresce. Pelo contrário, chega a recuar”, crava. Mesmo diante desse contexto, a Linkmed mantém presença relevante no Pará e em Rondônia, atendendo farmácias independentes e regionais com um portfólio que combina produtos de grandes indústrias e private label. A empresa também atua no Distrito Federal e em Goiás, além do Maranhão.
Atualmente, a distribuidora atende cerca de 1.200 pontos de venda, sendo aproximadamente 600 CNPJs apenas no Distrito Federal. Para 2026, a expectativa é de um crescimento em torno de 35% no faturamento, impulsionado principalmente pelo desempenho de linhas exclusivas.
Entre os destaques estão a Silver Care, voltada para produtos de skincare e beleza; e a Silve Natus, focada em suplementos alimentares. “Nossa projeção é lançar mais 20 SKUs ao longo do ano, ampliando o mix dessas linhas”, antecipa Silveira Jr.
Outro ponto sensível destacado pelo executivo é o aumento dos pedidos de recuperação judicial por redes regionais, o que acaba acelerando a concentração do varejo farmacêutico. “Esse movimento não é saudável para as distribuidoras locais, porque as grandes redes compram muito pouco por esse canal”, observa.
Como parte da estratégia de fortalecimento, a Linkmed planeja abrir um novo centro de distribuição em Goiás ainda no primeiro trimestre, o que deve trazer ganhos logísticos e fiscais, além de ampliar a eficiência no atendimento aos clientes do Norte e Centro-Oeste.
Grupo ABS aposta em parceria e proximidade
Já o Grupo ABS vem ampliando sua atuação com um modelo de distribuição que vai além da entrega de produtos e aposta em parceria, proximidade e desenvolvimento do negócio farmacêutico. Com uma distribuidora instalada no Pará, a companhia atende Belém, a região metropolitana, áreas ribeirinhas e o setor de ilhas, alcançando pontos de venda que historicamente enfrentam dificuldades de acesso e irregularidade no abastecimento.
Segundo Anderson Barros, sócio-diretor e farmacêutico, o papel do distribuidor regional evoluiu de forma significativa nos últimos anos. “Deixamos de ser apenas entregadores de produtos. Hoje é preciso atuar como parceiro estratégico do varejo independente, oferecendo suporte em gestão, mix adequado à realidade local e soluções que ajudem a farmácia a ser mais eficiente e competitiva”, afirma.

No Pará, essa atuação se traduz em um modelo que combina agilidade logística, conhecimento das particularidades regionais e apoio direto ao pequeno varejo. O grupo busca garantir estoques mais seguros, melhor planejamento de compras e um nível de serviço capaz de competir com grandes operações nacionais de e-commerce e atacado, mesmo em localidades de difícil acesso.
A atuação no Norte também acompanha o movimento de transformação do setor farmacêutico como um todo, impulsionado por um novo perfil de consumidor, mais exigente e conectado. Para responder a esse cenário, o Grupo ABS investe em tecnologia, processos e equipes especializadas, com foco em eficiência operacional e fortalecimento do relacionamento com o cliente.
Com 27 anos de mercado, a distribuidora vem registrando crescimento acima da média do setor. Após encerrar 2025 com avanço de 16,5%, a previsão para 2026 é de crescimento em torno de 17,5%. Esse desempenho reforça a aposta na expansão regional e no fortalecimento do varejo independente como pilares do negócio.
Negócio que conecta saúde e bem-estar
Com mais de duas décadas de experiência em regiões estratégicas do país, a Alfamed construiu um modelo de distribuição baseado em capilaridade, agilidade logística e proximidade com o cliente. Em áreas onde o acesso a produtos e informações é mais restrito, a presença regional do distribuidor deixa de ser apenas operacional e passa a exercer uma função social e econômica fundamental.
“Somos responsáveis por pulverizar os produtos da indústria até o pequeno varejista, garantindo que medicamentos, itens de perfumaria e produtos de bem-estar cheguem a farmácias que, muitas vezes, são o principal ponto de saúde da cidade”, destaca Rodrigo Bevilacqua, fundador da Alfamed.

No Centro-Oeste, essa realidade é ainda mais evidente. Farmácias localizadas a centenas de quilômetros dos grandes centros dependem da eficiência do distribuidor para manter seus estoques atualizados e competitivos.
Além da logística, a empresa investe fortemente em informação e relacionamento. O time comercial atua como um verdadeiro parceiro do varejo independente, levando lançamentos da indústria, orientações sobre produtos e apoio à gestão. Em muitos municípios, a farmácia assume o papel de vitrine de novidades para a população local, reforçando sua importância como ponto de referência em saúde.
A série Rumo à Abradilan Conexão Farma 2026 já retratou os mercados do Sul e Sudeste, do Nordeste, consolidando o entendimento do papel dessas empresas na sustentabilidade do mercado farmacêutico brasileiro.
O Abradilan Conexão Farma 2026 acontecerá nos dias 10, 11 e 12 de março, no Expo Center Norte, em São Paulo (SP), e é reconhecido como o principal encontro do setor farmacêutico nacional. Com mais de 190 expositores confirmados, incluindo os principais players da indústria, distribuição e serviços, a feira espera receber mais de 30 mil visitantes ao longo dos três dias, consolidando-se como referência em negócios, networking e atualização do mercado.