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PIB do 1º tri ainda não reflete efeitos de inflação, juros e guerra, dizem analistas

Com um resultado levemente abaixo do esperado pelo mercado, o crescimento de 1% do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil no primeiro trimestre não muda a perspectiva de um desempenho fraco da economia no ano, afirmam especialistas ao CNN Brasil Business.

De um lado, o desempenho nos três primeiros meses de 2022 ainda não reflete os impactos do ciclo de alta de juros no Brasil e no mundo e da guerra na Ucrânia, que devem começar a aparecer nos trimestres subsequentes e desacelerar a economia.

Além disso, o resultado positivo foi fortemente influenciado por elementos temporários, segundo Silvia Matos, coordenadora do Boletim Macro do Ibre-FGV. Esses fatores não devem se repetir nos próximos trimestres, e, sem eles, o desempenho tende a ser mais fraco.

Isso não significa, porém, que o Brasil entrará em uma recessão, cujo risco está descartado no momento. Mas representa uma continuidade da tendência pós-crise de 2015 de um crescimento baixo, rondando os 1%, e aquém do desempenho mundial e do potencial brasileiro.

Desempenho no trimestre

Para Matos, o resultado do PIB foi “ruim”, e um “balde de água fria”. A principal surpresa negativa apontada por ela foi a forte queda nos investimentos privados, de 3,5%, que tende a gerar efeitos negativos no futuro.

“Se a demanda está mais fraca na ótica do investimento, com tanta inflação, não é algo bom. Os Estados Unidos, por exemplo, estão com inflação alta, mas economia aquecida, muitos investimentos. A inflação é sempre ruim, mas pode ser sintoma de algo positivo, não parece ser o caso”, diz.

Ela cita ainda um surgimento mais cedo que o esperado de um consumo alto do governo federal, indicando uma recuperação da área, mas que, ao mesmo tempo, é temporária, e não deve ajudar o PIB em outros trimestres.

Na avaliação dela, os elementos positivos na composição do resultado do PIB são temporárias, ligadas ou à reabertura da economia beneficiando o setor de serviços ou à normalização dos serviços públicos.

“O trimestre foi anabolizado por alguns aspectos, mas tem que limpar bem, e limpando bem, sobra pouca coisa. É uma foto da atividade econômica, não um filme”, afirma.

Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados e especialista CNN em economia, considera que o resultado veio dentro do esperado, com o setor de serviços forte, indústria estagnada e o agropecuária com queda devido às quebras de safra de soja e arroz no começo do ano por fatores climáticos.

Segundo ele, a surpresa negativa para o mercado veio do agro, com um desempenho pior que o esperado. “A expectativa era que os preços altos das commodities fossem ajudar, mas a quebra de safra acabou sendo mais relevante, e aí o PIB veio pior”.

Ele avalia que a queda de investimentos é negativa, mas faz sentido considerando o momento de crescimento fraco, incertezas e um “risco ESG [sigla para meio ambiente, social e governança]” no Brasil, além da falta de sinais de que vale a pena investir na economia no longo prazo.

“Ainda sinalizamos crescimentos baixos na economia, não deslocamos disso desde 2016, 2017, não conseguimos mostrar que o país é capaz de retomar um crescimento forte”, diz.

Juliana Inhasz, professora do Insper, diz que o resultado é bom considerado a conjuntura atual, apesar de uma perspectiva mais otimista do mercado ligado a indicadores de desemprego e serviços que não se confirmou.

Entretanto, ao olhar o desempenho de forma crítica, ela não vê o resultado como positivo. “É uma economia que teoricamente já deveria ter deslanchado um pouco mais na trajetória de crescimento, e isso não ocorreu”.

“Temos fundamentos positivos, mas a evolução ao longo dos trimestres mostra uma grande dificuldade que o Brasil tem de deixar para trás uma herança de crescimento baixo, não consegue passar de 1%, 1,1%”, afirma.

Perspectivas para o ano

Entre os especialistas, é consenso que o resultado do primeiro trimestre deve ser o melhor do ano, com uma perspectiva de desaceleração nos próximos.

Entretanto, Inhasz considera que a desaceleração pode não ser tão grande quanto o esperado. “O começo do ano sempre é um período mais complicado, e em um ano de saída de pandemia é pior ainda, e o resultado não foi tão ruim”.

A expectativa dela é que a economia mantenha uma trajetória de redução do desemprego, e que a eleição presidencial, mesmo com incertezas, gere alguma movimentação pela criação de expectativas.

Ela cita, ainda, um “pequeno ciclo de commodities”, com preços e demanda elevados, que está favorecendo o Brasil, beneficiado pela guerra entre Rússia e Ucrânia. Como os preços não devem cair tão cedo, a economia é beneficiada, em especial pela agropecuária.

Mas nem tudo são flores. A professora observa que o próprio agronegócio deve ser prejudicado pelos altos custos de produção, com fertilizantes, água e luz mais caros, dificultando a produtividade do setor e afetando as margens. Por isso, mesmo com crescimento, o desempenho não deve ser tão positivo quanto em outros anos.

Apesar de ainda ver espaço para o crescimento no setor de serviços, ela avalia que a renda baixa da população e a inflação devem inibir grandes avanços.

A expectativa dela é que o PIB de 2022 fique entre 0,5% a 1%, talvez até 1,2%. “Estamos vendo a economia voltar a ser dinâmica, a questão é que a dinâmica é diferente de outros períodos de recuperação, ela é bem forçada, porque tem necessidade de aumentar produção porque a demanda voltou a subir, mas a renda é baixa, e isso deve segurar bastante o crescimento”.

Já Vale afirma que a tendência nos próximos trimestres é de desaceleração. A economia deve começar a sentir os efeitos da forte alta de juros pelo Banco Central, com a taxa Selic indo de 2% para mais de 12%, e o setor de serviços, com maior peso no PIB, deve ser prejudicado.

“Está chegando um momento em que tudo de serviços vai ter retomado, e aí passa a ter a influência de inflação e juros”, explica.

Considerando ainda o impacto da guerra na Ucrânia e o cenário econômica externo mais adverso, Vale espera um PIB de 1,1% no ano, um resultado que ele avalia ser fraco e muito abaixo da média mundial.

“É aquém do que poderia nesse cenário de saída da pandemia, o mundo todo passa por inflação, guerra, e mesmo assim crescemos menos, por problemas domésticos”, afirma.

Matos, da FGV, diz que já é possível ver alguns segmentos do setor de serviços no campo negativo, em especial os beneficiados pela pandemia. A tendência é que, finalizada a recuperação dos demais, o setor enfrente os desafios dos juros altos, e desacelere.

Ela ainda projeta um PIB no ano de 0,9%, já que vê elementos suficientes para corroborar com algo acima disso.

“Parte do resultado do 1º trimestre vem da reabertura, o 2º deve ter isso, mas menos. O consumo do governo já vai estar ajustado, demanda externa menor, agronegócio pode ter algum risco, e aí entram os efeitos defasados da política monetária do Banco Central, então vai desacelerar” afirma.

Ela ressalta que o mundo todo está passando por uma desaceleração econômica para combater a inflação, e que o Brasil não vai conseguir escapar desse cenário.

“Os países produtores de commodities estão sendo beneficiados nesse momento, mas é um sinal também dessa inflação mundial, que precisa ser combatida. A reabertura da economia cria um mini boom, mas tem muitos efeitos colaterais, e vamos senti-los”, avalia.

Fonte: CNN Brasil

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