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Um ano depois do 1º vacinado, quais as lições sobre eficácia, imunidade e ‘vencedores’ da corrida das vacinas?

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Há pouco mais de 1 ano no mundo – e um pouco menos de 1 ano no Brasil – as primeiras doses das vacinas contra a Covid-19 eram aplicadas. O fantasma da pandemia ainda existe e não se sabe se um dia ele irá sumir, mas, o que já é possível afirmar sobre a imunização contra coronavírus? Onde a ciência evoluiu e aonde ela chegou?

Um ano depois…

…quais países ficaram à margem da corrida da vacinação e quais conseguiram alcançar as maiores taxas?

A imunologista Cristina Bonorino, professora da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre, afirma já existem vencedores da tal “corrida da vacina”:

“Está claro que quem ganhou que foram os países que investiram em ciência e tecnologia. As vacinas vieram da Europa e dos Estados Unidos’. A especialista avalia que “vivemos um grande problema mundial”, mas que não é tratado como tal.

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“O que a gente vê é a que a população nos países mais pobres não está vacinada nem com a primeira dose. Isso é resultado da incapacidade e falta de liderança mundial de lidar com esse problema de maneira unida’.

“O que a gente vê é a que a população nos países mais pobres não está vacinada nem com a primeira dose. Isso é resultado da incapacidade e falta de liderança mundial de lidar com esse problema de maneira unida’.

Etiópia, Tanzânia e Nigéria vacinaram apenas menos 2% de sua população com o esquema completo – com uma dose, menos de 10%. Ou seja: mais de 90% das pessoas não estão nem parcialmente protegidas.

Cientistas entrevistados pelo g1 avaliam que a disseminação do coronavírus em países por falta de acesso aos imunizantes, excluídos socialmente do planeta, continuará a gerar novas variantes. O caso mais recente, da ômicron, foi detectado na África do Sul, país com 25% dos cidadãos imunizados.

…a eficácia apontada nos estudos foi confirmada na efetividade?

Jorge Kalil, diretor do Laboratório de Imunologia do Instituto do Coração, explica que eficácia e efetividade são conceitos diferentes: “quando você fala nos estudos clínicos, se chama eficácia. Quando você vê o desempenho da vacina na população em geral, isso se chama efetividade”.

As eficácias das vacinas são diferentes: vacinas de RNA mensageiro e vetor viral são as mais eficazes, enquanto vacinas de vírus inativado tendem a ser menos. No entanto, todas elas se provaram importantes para evitar hospitalizações e mortes.

Sobre a efetividade, Kalil explica que, no começo, era “muito boa”: “algumas pessoas tinham recém se vacinado e a cepa que estava circulando ainda era a de Wuhan. Aí, de repente, começaram a circular novas variantes e a efetividade das vacinas caiu”.

Entre as lições aprendidas em relação à duração da proteção das vacinas, segundo Renato Kfouri, infectologista e diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), foi a de que as vacinas para vírus respiratórios não têm uma longa duração de proteção.

“A proteção se perde com o passar do tempo. Se perde mais rapidamente quanto mais idade tem o indivíduo, se perde a depender das vacinas. Vacinas inativadas são as primeiras a perder proteção, como no caso da CoronaVac. E se perde também em relação ao desfecho. Primeiro você perde proteção contra as formas mais leves, depois as moderadas. A proteção para as formas graves é preservada por mais tempo”, disse Kfouri.

Quais os principais eventos adversos e qual o impacto deles entre os vacinados? Estão superados?

Segundo Kalil, “os eventos adversos são raros e muito leves”. Mesmo após a aprovação e a aplicação das vacinas, poucos foram os casos de efeitos colaterais comprovados relacionados às vacinas contra a Covid.

Entre as situações que mais repercutiram no Brasil, está a morte de uma gestante após receber uma dose e desenvolver trombose. O caso, bastante raro, chegou a levar a uma suspensão da aplicação da vacina da AstraZeneca no grupo. No entanto, um estudo demonstrou que grávidas e puérperas que desenvolvem um quadro grave de Covid-19 e não receberam a vacina têm cinco vezes mais chances de morrer em relação às que, mesmo graves, foram imunizadas com duas doses.

“As pessoas precisam entender que os efeitos colaterais possíveis são nada em comparação com os que existem com a doença”, argumenta. “A doença por si só é grave, pode levar à morte, tem o pós-Covid que é complicado, leva à perda de memória, pode ter problema cardíaco, uma série de coisas”.

De acordo com Kalil, e também outros entrevistados pelo g1, a chance de desenvolver um evento grave após a vacina se comprovou bastante rara e, portanto, o risco/benefício dos imunizantes contra a Covid-19 se mostrou inquestionável no último ano.

Qual a vacina que se mostrou mais efetiva contra o coronavírus?

As vacinas de RNA mensageiro, como a da Pfizer, demonstraram ter uma taxa de efetividade mais alta, segundo Bonorino e Kalil.

No Brasil, temos vacinas de diferentes tecnologias: Pfizer, de RNA mensageiro; AstraZeneca e Janssen, de vetor viral; e CoronaVac, de vírus inativado.

“São as de mRNA, sem dúvida [as mais efetivas]. Todas elas funcionaram. A CoronaVac funciona. O que acontece é que a Pfizer funciona melhor”, disse Bonorino.

“São as de mRNA, sem dúvida [as mais efetivas]. Todas elas funcionaram. A CoronaVac funciona. O que acontece é que a Pfizer funciona melhor”, disse Bonorino.

Já existe alguma indicação de qual seria o percentual da imunidade de rebanho pela vacinação?

Com base em estudos em outras epidemias virais, especialistas chegaram a opinar inicialmente que 60% ou 70% da população com o esquema vacinal completo poderia garantir a imunidade de rebanho – quando a taxa de proteção do grupo influencia na redução da transmissão do vírus. No entanto, com o tempo, a taxa prevista passou a ser de 100%.

“A gente aprendeu que imunidade de rebanho não é possível de se obter. Até hoje vemos gente falando em %, mas não é possível estipular. Primeiro que é um vírus zoonótico, não acomete só em seres humanos, acomete também em animais. Você não consegue controlar, erradicar e eliminar a transmissão”, explica Kfouri.

‘É um vírus que tem mutações, as variantes surgem e escapam da infecção prévia. Quem já teve a infecção, a imunidade não perdura. Pode escapar até das vacinas. É também uma doença que permite reinfecção, diferente de sarampo, catapora, caxumba, rubéola, que você tem uma vez na vida”.

O que já se sabe sobre campanhas futuras? Devemos tomar todos os anos?

De acordo com os entrevistados pelo g1, esta é uma informação que ainda não foi confirmada. A Organização Mundial da Saúde (OMS) tem um grupo que estuda a possibilidade. Entretanto, o foco da entidade é vacinar toda a população mundial.

Para Kfouri, a vacinação no futuro vai depender do momento da pandemia.

“No período pós-pandêmico, não há sentido em ficar vacinando toda a população. Teremos, provavelmente, uma vacinação de grupos vulneráveis, algo semelhante com o que a gente faz na gripe. Até lá [o período pós-pandêmico], precisaremos manter altas taxas de proteção”, explica Kfouri.

O gerente-geral de medicamentos da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Gustavo Mendes, disse que segue acompanhando dados sobre a vacinação, mas ainda não existe uma resposta definitiva para a pergunta.

“O que vai trazer essa resposta para a gente é esse acompanhamento da capacidade neutralizante, dos anticorpos neutralizantes, e do número de casos que vão surgindo na população ao longo do tempo”.

…o que o enfrentamento de outras variantes (sobretudo a delta) indica sobre como as vacinas se sairão contra a ômicron?

Segundo a OMS, as evidências sugerem um pequeno declínio na eficácia das vacinas contra casos graves e morte por Covid-19 e um declínio na prevenção de doenças leves ou infecções. Especialistas dizem, no entanto, que ainda é cedo para avaliar o real efeito dos imunizantes no mercado contra a nova versão do vírus.

Em nota divulgada no dia 8 de dezembro, a Pfizer e a BioNTech informaram que estudos preliminares demonstram que 3 doses de sua vacina contra a Covid-19 neutralizam a variante ômicron.

Já a Universidade de Oxford disse em 30 de novembro que não há evidências de que as vacinas contra o coronavírus não prevenirão doenças graves da ômicron, mas acrescentou que está pronta para desenvolver rapidamente uma versão atualizada com a AstraZeneca, caso necessário.

A Janssen – braço farmacêutico do grupo Johnson&Johnson – disse que está avaliando a eficácia do seu imunizante ao mesmo tempo em que desenvolve uma vacina específica para a variante.

“Começamos a trabalhar para projetar e desenvolver uma nova vacina contra a ômicron e vamos progredir rapidamente em estudos clínicos, se necessário”, disse Mathai Mammen, chefe global de pesquisa da unidade farmacêutica da J&J.

Por último, no dia 7 de dezembro, a Sinovac, laboratório chinês que desenvolveu a CoronaVac, anunciou que está desenvolvendo uma versão da CoronaVac adaptada à variante ômicron. A expectativa é a de que a atualização do imunizante fique pronta em três meses – até fevereiro de 2022.

Fonte: G1


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