Lúcia Rossato avalia liderança em tempos de mudança na Medley
Primeira CEO mulher da farmacêutica destaca transição para o Grupo EMS e pontua desafios e competências que definirão os líderes da indústria
por Leandro Luize em
Poucas indústrias farmacêuticas atravessam um momento tão singular quanto a Medley. Ao completar 30 anos, a fabricante de genéricos vive uma das maiores transformações de sua trajetória. Após décadas sob o guarda-chuva da Sanofi, a companhia iniciou sua jornada independente e se prepara para integrar o Grupo EMS, em uma operação que ainda aguarda aprovação do Cade.
À frente dessa transição, a CEO Lúcia Rossato enxerga a nova fase como um marco capaz de redefinir o futuro da companhia. “Acreditamos que os próximos 30, 60 ou 100 anos serão ainda mais potentes, ampliando nossa contribuição para o acesso à saúde e indo além dos medicamentos genéricos”, ressalta.
A executiva foi a convidada da segunda edição do Panorama Líderes, série de entrevistas do Panorama Farmacêutico dedicada a reunir executivos que ajudam a interpretar os rumos do setor.
Uma empresa em transição
Lúcia assumiu o comando da Medley há cerca de dois anos e meio, justamente em um dos períodos mais desafiadores da história recente da empresa. Além de ingressar no segmento de genéricos após uma carreira construída em mercados de alta complexidade, como oncologia, imunologia e medicamentos para governos e hospitais, ela precisou conduzir uma complexa separação operacional da Sanofi.
O processo ganhou novo capítulo em dezembro de 2024, quando foi anunciada a venda para o Grupo EMS. Desde então, a executiva valoriza ainda mais um dos mantras que acompanhou sua carreira. Liderar exige uma habilidade que raramente aparece nos manuais de gestão – conviver com a falta de respostas definitivas.
“Você passa a lidar diariamente com perguntas para as quais ainda não tem todas as respostas. Nosso papel não é fingir que sabemos tudo, mas cultivar a transparência e construir confiança durante a jornada”, analisa.
Ela considera que um dos maiores aprendizados desse período foi comprovar que a proximidade das pessoas pode sustentar o engajamento mesmo em momentos de incerteza. Essa pode ser uma das explicações para os baixos índices de rotatividade na farmacêutica.
O futuro da indústria passa pelas farmácias
Ao ponderar sobre as transformações do setor farmacêutico, Lúcia aponta três movimentos que deverão moldar a indústria nas próximas décadas. São eles o envelhecimento populacional, a digitalização impulsionada pela inteligência artificial e a evolução da farmácia como principal ponto de contato do consumidor com o sistema de saúde.
“As farmácias tornaram-se um dos principais pontos de atenção primária para os brasileiros. É onde o paciente encontra serviços, vacinação, exames rápidos e orientação. A mudança exige que a indústria esteja cada vez mais próxima desse ecossistema”, crava.
E o consumidor também mudou. Se durante a pandemia muitos apostavam em uma migração definitiva para os canais digitais, o que se consolidou foi uma jornada híbrida, que combina conveniência tecnológica e experiência presencial. “Hoje ele quer comprar pelo aplicativo, pelo WhatsApp ou pelo marketplace, mas também quer visitar a farmácia, conversar, retirar produtos e acessar serviços. Entender essa jornada híbrida é um dos grandes desafios da indústria”, acredita.
Inteligência artificial e fator humano
Para Lúcia, a inteligência artificial terá papel decisivo na evolução do setor, especialmente em áreas como logística, planejamento comercial e análise de comportamento do consumidor. A Medley, por exemplo, mantém relacionamento com mais de 90 mil farmácias em todo o país, o que gera uma quantidade massiva de informações capazes de orientar decisões mais rápidas e regionalizadas.
Mas ela alerta que a inteligência artificial não substitui a escuta ativa e a capacidade de compreender nuances que só aparecem quando se está presente no mercado. Por essa razão, mesmo na posição de CEO, Lúcia mantém uma agenda frequente de visitas a clientes e operações em diferentes regiões do país.
O líder do futuro
Ao longo da conversa, a executiva voltou diversas vezes a um conceito que considera essencial para o profissional contemporâneo – a adaptabilidade. Na sua avaliação, a velocidade das transformações tornou obsoleta a ideia de carreiras lineares e funções estáticas. Na sua percepção, uma descrição de cargo muda constantemente. O profissional precisa aprender continuamente, entender o ambiente onde está inserido e desenvolver capacidade de influência.
Para quem deseja construir uma trajetória de longo prazo na indústria farmacêutica, ela recomenda combinar competências técnicas ligadas à tecnologia e à inteligência artificial com habilidades humanas como flexibilidade, leitura de cenário, comunicação e relacionamento.
Mas talvez o principal conselho tenha vindo de uma reflexão pessoal. Ao revisitar os primeiros anos de sua carreira, quando assumiu sua primeira posição de liderança aos 24 anos, no Rio de Janeiro, Lúcia sabe exatamente o que diria para si mesma. “Eu diria para ter menos medo. Confiar mais em mim, ser mais genuína, mais vulnerável e seguir em frente”, admite.
Liderança com propósito
Primeira mulher a assumir a presidência da Medley em seus 30 anos de história, Lúcia também destacou a importância da diversidade para a construção de equipes mais inovadoras e resilientes. Na companhia, as mulheres já representam mais da metade dos cargos de liderança, resultado que ela considera motivo de orgulho e responsabilidade.
Ao encerrar a entrevista, a executiva deixou uma mensagem que sintetiza sua visão sobre carreira e liderança. “Seja o dono da sua carreira. Seja genuíno. E encontre propósito no que faz. Trabalhamos para levar saúde aos brasileiros e brasileiras. Quando existe propósito, tudo se torna mais leve, mais criativo e mais transformador”, acredita.