FarmaUSA aposta em cannabis 100% nacional
Estratégia combina verticalização da fabricação, novos produtos e fortalecimento da prescrição
por Gabriel Noronha em e atualizado em
A FarmaUSA Life Science, farmacêutica brasileira especializada no mercado de cannabis medicinal, se prepara para expandir sua participação no canal farma do país.
A companhia anunciou a nacionalização de toda a sua cadeia de produção, tornando-se a primeira empresa do setor a fabricar produtos à base da planta no Brasil com insumos próprios produzidos nacionalmente.
Com sede administrativa em Volta Redonda (RJ) e uma planta fabril em São Paulo, adquirida da Takeda, a FarmaUSA afirma ter capacidade para atender toda a demanda brasileira por canabidiol isolado. A empresa projeta fabricar até 100 mil unidades por mês, diante de um consumo anual estimado em 500 mil unidades da categoria.
“Nós adquirimos uma empresa farmacêutica em 2021 e fizemos todo o processo de adequação na planta, nos tornando a primeira empresa a ter o IFA nacional de cannabis sendo fabricado no Brasil com o selo de Boas Práticas de Fabricação da Anvisa, é um marco total”, afirma Leandro Beltrão, CEO da empresa.
Nova fase da FarmaUSA tem lançamentos e foco no prescritor
O principal destaque dessa nova etapa é o lançamento de uma linha com quatro SKUs 100% nacionais. As apresentações de 50 mg, 100 mg e 200 mg contam com seringa dosadora, tecnologia de abertura segura e custo por miligrama mais acessível, reforçando a entrada da farmacêutica no canal farma. Já a versão de 20 mg será comercializada exclusivamente no setor público.

FarmaUSA acompanha desenvolvimento do mercado
Os esforços para a otimização dos processos da farmacêutica visam o crescimento do segmento de cannabis no Brasil, que avança ano após ano. Atualmente com cerca de 800 mil consumidores, projeções apontam para a superação da marca dos 5 milhões de usuários até 2030.
Esse movimento não é inédito na história da FarmaUSA. Fundada como uma importadora de medicamentos não disponíveis no Brasil, atuando por meio da RDC 81/2008, a companhia tem acompanhado passo a passo o desenvolvimento da categoria no país.
Posteriormente, em 2015, a empresa se destacou durante um dos principais saltos do setor, quando a Anvisa regulamentou pela primeira vez a importação excepcional de produtos à base de canabidiol (CBD) e outros canabinoides por pessoas físicas, por meio da RDC 17/2015, fruto do apelo de pais de pacientes com epilepsia refratária.
Atualmente, a farmacêutica prepara a expansão de sua equipe de representantes, que passará de 32 para 50 profissionais, ampliando sua presença em todas as regiões do Brasil.
Educação dos prescritores pode impulsionar o setor
A companhia ainda afirma que o principal obstáculo do segmento hoje é a orientação da classe prescritora. Atualmente formado por cerca de 10 mil profissionais, o grupo habilitado para receitar esses medicamentos tem 3 mil médicos cadastrados na base da FarmaUSA.
Sem a devida orientação, a farmacêutica teme que os prescritores recomendem a categoria de maneira inadequada, gerando resultados insatisfatórios que frustram não apenas o paciente, mas também o médico, “queimando” o mercado como um todo.
“A educação médica hoje é o maior gargalo do mercado de cannabis. Muito médico começa a prescrever, mas não dá sequência na prescrição ou prescreve de forma errada, fazendo com que o paciente não tenha eficácia, não compre mais e que o médico também desacredite na molécula”, explica.
FarmaUSA aposta no mercado magistral
Considerando justamente esse cenário, a companhia acredita no potencial do mercado magistral de cannabis, já que o tratamento com cannabis apresenta melhores resultados com a personalização.
“Para que serve a farmácia de manipulação? Para você realmente personalizar o seu tratamento. Hoje a indústria farmacêutica não tem esse poder, e o tratamento da cannabis é melhor personalizado. Além disso, no mercado farmacêutico convencional, até você lançar uma nova forma farmacêutica leva 3 anos. No magistral não, a facilidade de acesso é muito maior”, detalha Beltrão.
“Ao fornecer insumos de alta qualidade para farmácias de manipulação, a FarmaUSA fortalece um segmento essencial para a personalização dos tratamentos, especialmente no uso de canabinoides, que demandam ajustes individualizados de dosagem e formulação”, acrescenta Djalma Nogueira, sócio fundador da empresa.
Um dos principais indícios dessa estratégia é a importação de 1 tonelada de extrato de cannabis realizada recentemente pela farmacêutica, conforme noticiado pelo Panorama Farmacêutico.
Segundo a ConectaCann, consultoria estratégica especializada no segmento, o mercado magistral deve se consolidar como um dos principais vetores de crescimento da cannabis medicinal no país, não apenas ampliando o acesso, mas também resgatando o papel do farmacêutico na medicina de precisão.
Ainda de acordo com a entidada, “a publicação do novo pacote regulatório da Anvisa em fevereiro de 2026 (RDCs 1011 a 1015) consolidou a crescente integração da cannabis ao ambiente farmacêutico brasileiro, sinalizando a transição gradual de um modelo de excepcionalidade para uma estrutura mais madura e regulada, seguindo referências internacionais de sucesso com a Alemanha, onde a farmácia magistral ocupa posição central no acesso e na personalização dos tratamentos”.