Trump prevê tarifa de 100% sobre medicamentos genéricos em 2028
por Adriana Bruno em e atualizado em
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou que os medicamentos genéricos importados continuarão isentos de tarifas até agosto de 2028. A partir dessa data, será aplicada uma alíquota de 100% durante um ano, que subirá para 200% em agosto de 2029. As informações são do G1.
Segundo Trump, a medida tem como objetivo incentivar a transferência da produção de medicamentos genéricos para o território norte-americano.
Em publicação na rede Truth Social, o presidente afirmou que as tarifas funcionarão como uma penalidade para empresas que optarem por não instalar fábricas e equipamentos no país dentro do prazo estabelecido. “Isso visa repatriar a produção de medicamentos genéricos para os Estados Unidos. O objetivo desta política é proteger o povo dos Estados Unidos”, escreveu.
Paralelamente, Trump mantém a política baseada na cláusula da “nação mais favorecida” (most-favored-nation), que busca pressionar a indústria farmacêutica a reduzir os preços dos medicamentos nos Estados Unidos para níveis próximos aos praticados em outros países desenvolvidos.
Em entrevista ao Panorama Farmacêutico, Tiago de Moraes Vicente, presidente-executivo da ProGenéricos diz que no curto prazo, o impacto direto tende a ser limitado, porque o Brasil não é hoje um grande exportador de genéricos para o mercado americano. Mas o sinal estratégico é muito importante. “Os EUA estão dizendo que medicamentos e insumos farmacêuticos são parte da agenda de segurança nacional. Nesse mesmo contexto internacional, o Brasil acaba de sancionar a Estratégia Nacional de Saúde do Complexo Econômico-Industrial da Saúde (ENSCEIS), instituída pela Lei nº 15.471”, pontua.
Ele diz ainda que a estratégia transforma em política de Estado instrumentos voltados ao fortalecimento da produção no Brasil, da inovação e da autonomia tecnológica em saúde. “Desde a pandemia, as principais economias passaram a tratar a produção de medicamentos, insumos farmacêuticos e tecnologias em saúde como tema de segurança nacional, soberania produtiva e resiliência das cadeias de abastecimento. Na prática, diferentes países vêm adotando instrumentos para incentivar a produção local, reduzir a dependência de fornecedores externos, atrair investimentos industriais, fortalecer pesquisa, inovação e transferência de tecnologia e proteger cadeias consideradas estratégicas para a saúde pública”, comenta.
Política permanece inalterada para medicamentos patenteados
Atualmente, mais de 90% dos medicamentos comercializados no mercado norte-americano são genéricos, de acordo com dados da Administração de Alimentos e Medicamentos dos Estados Unidos (FDA).
Para os medicamentos patenteados, de marca ou inovadores, a política permanece inalterada.No ano passado, as principais farmacêuticas globais firmaram acordos com o governo norte-americano, o que permitiu que bilhões de dólares em medicamentos ficassem isentos de tarifas.
Em abril, Trump já havia assinado uma ordem executiva impondo tarifas de 100% sobre medicamentos de marca importados. Na ocasião, a sobretaxa poderia ser evitada por fabricantes que aceitassem negociar preços com o governo ou assumissem o compromisso de produzir seus medicamentos em território norte-americano.
Nelson Mussolini, presidente-executivo do Sindusfarma falou com exclusividade ao Panorama Farmacêutico e afirma que é difícil fazer qualquer previsão diante de um horizonte temporal tão longo, especialmente quando se trata de políticas públicas na área da saúde, sujeitas a mudanças regulatórias, econômicas e geopolíticas. “Caso essa decisão do governo dos Estados Unidos seja efetivamente implementada e mantida ao longo do tempo, ela poderá representar uma oportunidade para empresas brasileiras interessadas em expandir sua atuação internacional. O Brasil possui empresas com reconhecida capacidade de produzir medicamentos genéricos de alta qualidade, em conformidade com rigorosos padrões regulatórios e a custos competitivos”, destaca.
Ainda segundo o executivo, se houver condições adequadas de acesso a esse mercado, esse poderá ser um importante vetor para a internacionalização da indústria farmacêutica nacional. “Naturalmente, trata-se de um mercado altamente competitivo, no qual empresas indianas já possuem presença consolidada e significativa escala de produção e as empresas brasileiras não participam. Assim, embora exista uma oportunidade potencial, sua concretização dependerá da capacidade das empresas brasileiras de competir em preço, eficiência, capacidade produtiva e atendimento aos requisitos regulatórios internacionais”, avalia.
Exportações brasileiras
Segundo reportagem da Veja, em 2025, o Brasil exportou US$ 240,6 milhões, o equivalente a pouco mais de R$ 1,2 bi em produtos farmacêuticos aos Estados Unidos, cerca de 19% dos US$ 1,27 bilhão (R$ 6,42 bilhões) vendidos pelo setor ao exterior.
Desse total, US$ 167,9 milhões (R$ 855 milhões) corresponderam a medicamentos acondicionados para venda no varejo. O valor, porém, não representa a exposição efetiva à nova tarifa: inclui genéricos, materiais hospitalares e produtos já poupados pelas exceções americanas, além de não distinguir quais medicamentos possuem patente válida nos Estados Unidos.
Olhando para o mercado interno brasileiro, análise da PróGenéricos, com base em dados do IQVIA, mostra que a categoria deverá alcançar 45,12% de participação de mercado até 2030. “Hoje, os genéricos representam cerca de 40% do mercado farmacêutico e contribuem diretamente para consolidar o Brasil como o 7º maior mercado farmacêutico do mundo” comenta Tiago Vicente, presidente-executivo da ProGenéricos.