O Laboratório Cristália desenvolve uma vacina antitabagismo que busca reduzir o risco de recaída entre pessoas que tentam abandonar o cigarro. A tecnologia pretende estimular a produção de anticorpos capazes de capturar a nicotina na corrente sanguínea antes que a substância alcance o cérebro.
O projeto está na fase de Early Discovery, etapa inicial do desenvolvimento em que são selecionados protótipos e avaliados resultados em modelos experimentais. A pesquisa é conduzida pelo Centro de Pesquisa, Desenvolvimento & Inovação (PD&I) da farmacêutica, no complexo industrial de Itapira (SP).
Vacina antitabagismo do Cristália amplia alternativas contra recaídas
A proposta difere da abordagem dos tratamentos atualmente utilizados para o combate ao tabagismo. Em vez de atuar diretamente sobre os sintomas da abstinência, a candidata vacinal busca impedir que a nicotina desencadeie no cérebro mecanismos associados à sensação de prazer e ao reforço da dependência.
“A nicotina ativa receptores nicotínicos de acetilcolina no cérebro, favorecendo a liberação de dopamina e ativando o sistema de recompensa, o que gera uma sensação rápida de prazer e reforça o consumo compulsivo. Nossa vacina foi concebida para interromper esse ciclo ao impedir que a nicotina chegue ao cérebro em quantidade suficiente para ativar esse mecanismo”, explica Ogari Pacheco, fundador e presidente do conselho diretivo do Cristália.
A tecnologia utiliza um princípio semelhante ao de outras estratégias baseadas na resposta imune. Como a molécula da nicotina é pequena demais para provocar sozinha uma resposta imunológica significativa, ela é associada a uma estrutura capaz de estimular o sistema imune. A partir disso, o organismo passa a produzir anticorpos específicos contra a substância.
Com a presença desses anticorpos, a expectativa é que a nicotina seja capturada ainda na corrente sanguínea após o consumo. Dessa forma, uma quantidade menor da substância chegaria ao cérebro, reduzindo a possibilidade de ativação dos receptores relacionados à liberação de dopamina e à sensação de prazer.
O fármaco só foi testado em animais até o momento. Segundo o Cristália, os antígenos sintéticos desenvolvidos pela empresa induziram a produção de anticorpos específicos e, em um modelo experimental, a candidata apresentou capacidade de impedir a dependência nos animais. Um novo estudo está em andamento para avaliar a resposta imune gerada pela vacina.
A produção dos protótipos e dos antígenos sintéticos ocorre com tecnologia própria do laboratório. O desenvolvimento do insumo farmacêutico ativo (IFA) está a cargo da planta Farmoquímica Oncológica, em Itapira, enquanto a formulação e o envase deverão ser realizados em uma das unidades farmacêuticas do complexo.
Próximas etapas
O desenvolvimento ainda depende de estudos pré-clínicos adicionais de eficácia e segurança, além de etapas de desenvolvimento farmacotécnico e analítico, escalonamento e testes clínicos em humanos. Somente após a conclusão dessas fases poderá ser avaliada a apresentação de um pedido de registro à Anvisa.
O Cristália também prepara os dados necessários para um pedido de patente. A empresa prevê publicar os resultados científicos após o depósito da propriedade intelectual.
“A vacina antitabagismo não substitui o tratamento: ela protege a continuidade dele. Ao neutralizar o efeito prazeroso da nicotina, a tecnologia atua exatamente onde muitos tratamentos falham, ajudando a reduzir o risco de recaída”, afirma Pacheco.
O projeto integra uma plataforma antidrogas criada internamente pelo Cristália em 2024 para prospectar tecnologias voltadas ao combate à dependência química. A iniciativa surgiu da busca por alternativas que pudessem auxiliar pacientes durante o período de abstinência.
Segundo estimativas da OMS, o tabaco está associado a cerca de 8 milhões de mortes por ano no mundo.
