Exclusivo: cannabis medicinal enfrenta gargalos no varejo
Questões regulatórias, disponibilidade, variedade de formulações, estoque e preço estão entre os entraves
por Adriana Bruno em
A expansão da cannabis medicinal no varejo farmacêutico ainda convive com gargalos em diferentes etapas da cadeia, da aprovação regulatória à chegada dos produtos às farmácias. Entre os principais pontos estão disponibilidade, variedade de formulações, gestão de estoques, preço do tratamento e integração entre prescrição, produto e dispensação.
“Acredito que um dos principais gargalos, atualmente, não se resume apenas à disponibilidade industrial, mas está na distância entre o paciente e o tratamento. Ainda existem algumas barreiras entre o prescritor, o paciente e o balcão da farmácia”, comenta Kali Nardino, diretor de marketing da Canndoc.
Estoque e disponibilidade
A ampliação dos produtos à base de cannabis no canal farmacêutico assegurou maior presença da categoria nas farmácias, mas também aumentou o desafio de administrar a disponibilidade e os estoques.
“O paciente pode ter a prescrição, mas enfrentar dificuldade para localizar o produto, especialmente em cidades menores e mais distantes dos grandes centros. Ao mesmo tempo, o varejista precisa gerenciar capital imobilizado em uma categoria que ainda está em processo de consolidação”, opina.
Segundo o executivo, a tecnologia pode atenuar esse quadro. “Isso exige tecnologia aplicada ao ecossistema farmacêutico, com integração de prescrições eletrônicas e ferramentas que ofereçam informação científica confiável para amparar os profissionais de saúde, da prescrição à dispensação”, pontua.
Regulação e entrada nas farmácias
Para Maria Eugênia Riscala, CEO e cofundadora da Kaya Mind, o processo regulatório está entre os principais entraves para a chegada dos produtos ao varejo. “As empresas conseguem a documentação requisitada pela Anvisa, mas o tempo de análise da fila ainda é bem longo. E mesmo depois de obterem a aprovação, ainda há um grande intervalo para esse produto entrar na farmácia”, comenta.
Após a aprovação regulatória, os critérios de composição de portfólio das redes também podem influenciar a entrada de novos produtos. A sobreposição entre formulações é apontada como um fator de restrição.
Preço do tratamento
O preço é outro gargalo para a expansão da categoria. A relação entre concentração de canabinoides, custo por miligrama e desembolso inicial influencia o acesso ao tratamento.
Maria Eugênia também menciona diferenças de concentração entre os produtos comercializados nas farmácias. “Você encontra produtos de R$ 200 nas farmácias, mas com uma concentração relativamente baixa de canabinoides. Isso é complicado porque, para chegar à mesma dose de tratamento de um produto mais caro, com preço por miligrama mais baixo, é necessário utilizar um número muito maior de gotas”, relata.
Capacitação no ponto de venda
Na outra ponta da cadeia, Nardino destaca a capacitação de médicos, farmacêuticos e equipes de atendimento como um dos pontos necessários para o desenvolvimento do canal.
“O médico precisa estar cada vez mais familiarizado com as evidências científicas e as possibilidades terapêuticas da categoria. O farmacêutico deve estar apto a orientar o paciente com segurança e a equipe de atendimento tem o dever de acolher, direcionar e fornecer informações adequadas sem ultrapassar limites técnicos e regulatórios”, avalia.
O executivo defende maior integração entre os diferentes pontos da jornada de tratamento. Entre os mecanismos citados estão programas de benefícios e ferramentas de suporte a profissionais e pacientes. “O ponto de venda não deve ser apenas o local onde o produto é entregue. Ele precisa fazer parte de uma jornada integrada, na qual acesso, informação, segurança e conveniência contribuam para a continuidade do tratamento”, finaliza.