Reforma Tributária exigirá decisões mais estratégicas das farmácias
Para Edison Tamascia, setor está diante de uma transformação que vai além da substituição de tributos
Por Edison Tamascia, presidente da Febrafar e da Farmarcas
O varejo farmacêutico está diante de uma transformação que vai muito além da substituição de tributos. A Reforma Tributária exigirá dos empresários uma mudança na forma de compreender o próprio negócio. Durante muitos anos, a tributação foi tratada como um assunto predominantemente técnico, concentrado nas mãos dos contadores. Agora, cada vez mais, o empresário precisará entender como os impostos interferem na operação, na formação de preços, nas margens e nas decisões de compra.
Essa não é a primeira grande mudança tributária que acompanho no setor. No passado, também participei de discussões importantes envolvendo o Simples e a tributação das farmácias. Naquela época, tivemos de trabalhar para que o empresário compreendesse melhor as regras e pudesse aproveitar corretamente as mudanças. Hoje, estamos novamente diante de uma transformação que exigirá informação, organização e, principalmente, capacidade de tomar decisões.
Reforma Tributária coloca o gestor no centro da discussão
Um dos pontos que mais me preocupam é que ainda existe uma dificuldade muito grande de compreensão do sistema tributário brasileiro. A maioria dos empresários de farmácia não domina conceitos que passaram a ser fundamentais para a gestão. E isso tende a ganhar ainda mais importância com a Reforma Tributária.
O empresário precisará entender o que gera crédito, o que gera débito e como essas informações interferem na operação. Serviços, aluguel, fornecedores e outras despesas poderão ter impactos diferentes na formação dos créditos, dependendo de quem presta o serviço e de como essa relação estiver estruturada.
Isso muda a lógica da gestão. Não basta saber qual é a alíquota. Será necessário compreender a cadeia tributária e seus efeitos sobre o negócio. Uma decisão aparentemente simples, como escolher determinado fornecedor, poderá ter reflexos na estrutura de créditos da empresa.
Por isso, não acredito em uma gestão em que o empresário simplesmente entrega a responsabilidade ao contador e espera o resultado no fim do mês. O contador continuará sendo fundamental, mas o empresário também precisará participar mais da discussão.
O Simples Nacional também exigirá atenção
Esse cuidado será especialmente importante para as empresas do Simples Nacional. A discussão não pode ser conduzida apenas pela ideia de que permanecer ou não no regime é uma questão tributária. É preciso olhar para toda a cadeia.
Se uma empresa vende para outra empresa, por exemplo, a possibilidade de geração e transferência de créditos pode influenciar a relação comercial. Esse é um ponto que precisa ser analisado com cuidado pelos empresários, porque a escolha tributária de uma empresa também pode produzir efeitos sobre seus clientes e fornecedores.
No varejo farmacêutico, essa análise ganha ainda mais relevância porque temos uma grande diversidade de produtos e diferentes tratamentos tributários. A forma como cada item será enquadrado e como os créditos e débitos serão tratados terá impacto direto na gestão.
Por isso, não acredito que exista uma decisão que possa ser tomada de maneira automática ou apenas com base no percentual de imposto. Cada empresa precisará analisar sua realidade, sua operação, seus fornecedores, seus clientes e sua estrutura de custos.
O empresário precisará enxergar o imposto dentro do sistema de gestão
Existe outro ponto que considero fundamental – não podemos transformar a Reforma Tributária em uma nova indústria de consultorias que prometem soluções fáceis. Já vemos surgir muitas empresas oferecendo recuperação de créditos e serviços para ajudar o empresário a navegar nesse novo cenário. Algumas podem fazer um bom trabalho. O problema é imaginar que a gestão tributária precisa ser resolvida por uma sucessão de serviços externos.
Minha visão é diferente. A informação tributária precisa estar integrada ao sistema de gestão da farmácia. O cadastro de produtos precisa carregar as informações necessárias para que o empresário consiga entender sua tributação. O sistema deve permitir visualizar créditos, débitos, margem, custo da mercadoria e demais indicadores necessários para a tomada de decisão.
Essa integração é fundamental porque não adianta entregar ao empresário uma planilha complexa e esperar que ele consiga administrar o negócio a partir dela. Precisamos transformar informação em ferramenta de gestão.
Na Febrafar, temos trabalhado justamente nessa direção, buscando incorporar informações tributárias aos sistemas utilizados pelas farmácias. A ideia é que o empresário consiga olhar para os dados do próprio negócio e compreender o que está acontecendo sem depender de processos paralelos para cada decisão.
A transição será longa, mas as decisões começam antes
Outro aspecto importante é entender que a Reforma Tributária não acontecerá de uma vez. Teremos um período de transição, com mudanças graduais até a implantação completa do novo modelo. Isso pode dar ao empresário a impressão de que ainda existe muito tempo para pensar no assunto. Na minha avaliação, é justamente o contrário.
Quanto mais longa a transição, maior será a necessidade de acompanhar as mudanças e revisar as decisões ao longo do caminho. O empresário não pode esperar o sistema estar completamente implantado para começar a entender como ele funciona.
Será necessário testar cenários, acompanhar os impactos e mudar de estratégia quando os dados mostrarem que é preciso. O grande desafio, portanto, não será apenas entender a legislação. Será transformar a legislação em decisão empresarial.
O empresário precisará olhar para sua margem, seus produtos, fornecedores, custos e créditos. Precisará entender como cada escolha interfere no resultado da farmácia. Isso também reforça algo que considero essencial para o futuro do varejo farmacêutico: a profissionalização.