Pesquisa revela impactos das apostas na saúde mental
Para Edison Tamascia, é muito importante que bets sigam proibidas no Brasil
por César Ferro em
Por Edison Tamascia, presidente da Febrafar e da Farmarcas
A discussão sobre a proibição das bets no Brasil ganhou um novo capítulo com a publicação da Medida Provisória nº 1.394, de 25 de setembro de 2026. A medida, que entrou em vigor com força de lei, proíbe a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade das apostas de quota fixa no país. Sua continuidade depende da análise do Congresso Nacional. Diante dos impactos financeiros e sociais associados a essa atividade, é muito importante que os parlamentares aprovem essa medida.
O debate não pode se limitar à liberdade de apostar ou à possibilidade de obter ganhos financeiros. É preciso considerar o que acontece quando o dinheiro destinado às despesas da casa passa a ser comprometido pelo jogo, afetando o pagamento de contas, o planejamento familiar e a capacidade de poupar. Os efeitos podem se estender por muito tempo, especialmente quando as perdas levam à busca por novos recursos para continuar apostando ou tentar recuperar o dinheiro.
Uma pesquisa nacional realizada pelo Instituto Febrafar de Pesquisa e Educação Corporativa (IFEPEC), em parceria com o Núcleo de Economia Industrial e da Tecnologia (NEIT) da Unicamp e o Instituto Axxus, ajuda a dimensionar esse cenário. O levantamento ouviu 1.500 apostadores das classes C, D e E e 2.020 profissionais de saúde mental, entre junho e agosto de 2026.
Os resultados apontam que as consequências das apostas podem ultrapassar o prejuízo financeiro imediato, com reflexos sobre o endividamento e as relações familiares. São dados que merecem atenção, sobretudo porque envolvem pessoas que já enfrentam dificuldades para controlar a frequência com que jogam.
Endividamento e dificuldade para parar
Entre os apostadores entrevistados, 81% tinham dívidas. Desse grupo, 74% estavam com pagamentos atrasados. Os números mostram uma situação financeira delicada entre os participantes da pesquisa e reforçam a necessidade de avaliar o impacto das apostas sobre o orçamento das famílias.
Outro dado relevante é que 97% dos entrevistados afirmaram que gostariam de reduzir as apostas ou parar de jogar, mas apenas 9% acreditavam que conseguiriam. O resultado sugere uma distância significativa entre a intenção de interromper ou diminuir o comportamento e a percepção de conseguir fazê-lo.
Esse quadro preocupa porque o dinheiro comprometido com apostas deixa de estar disponível para outras prioridades. Em famílias com renda limitada, perdas sucessivas podem dificultar o pagamento de despesas essenciais e agravar dívidas já existentes. Quando isso acontece, o problema deixa de ser apenas uma decisão individual e passa a afetar a organização financeira de toda a casa.
A pesquisa também identificou consequências nas relações familiares. Entre os apostadores ouvidos, 62% relataram problemas de relacionamento familiar associados às apostas. Já na avaliação dos profissionais de saúde mental entrevistados, o jogo foi apontado como causa principal ou um dos fatores relacionados a separações e divórcios em 61,6% dos casos relatados.
Os dados dos profissionais devem ser interpretados dentro desse contexto: eles refletem a experiência observada nos atendimentos, e não uma estimativa direta da prevalência desses problemas entre todos os apostadores brasileiros.
Consequências das apostas vão além das perdas financeiras
O levantamento também reuniu informações sobre a saúde mental dos pacientes que apostam. Segundo os profissionais entrevistados, 62% desses pacientes apresentavam depressão maior ou distimia, 51% tinham transtornos por uso de substâncias e 31% apresentavam transtornos de ansiedade. Os percentuais podem se sobrepor, já que uma mesma pessoa pode apresentar mais de uma condição.
Entre os pacientes cujo principal fator de estresse era o endividamento provocado pelas apostas, os profissionais estimaram que 31% apresentavam ideação suicida, 22,7% demonstravam planejamento de suicídio e 2,7% haviam tentado suicídio após perdas financeiras graves. São indicadores preocupantes, mas é importante ressaltar que se referem à avaliação dos profissionais sobre os pacientes atendidos, não a uma medição direta entre todos os apostadores do país.
Esses resultados mostram a dimensão que o problema pode alcançar quando o jogo passa a comprometer a renda e a estabilidade familiar. Embora a pesquisa não permita afirmar que todos os apostadores enfrentarão essas consequências, ela evidencia situações graves que não podem ser ignoradas na discussão sobre a regulamentação da atividade.
Congresso terá papel decisivo
Na minha avaliação, os impactos sobre a saúde da população e o orçamento das famílias precisam ocupar lugar central nesse debate. Como presidente da Febrafar, entidade que reúne redes associativistas do varejo farmacêutico, acompanho a importância de compreender como o comprometimento da renda afeta as decisões de consumo e a vida das famílias. Quando uma parcela do dinheiro é direcionada às apostas e as contas deixam de ser pagas, as consequências se espalham por diferentes áreas da vida cotidiana.
Por isso, acredito ser fundamental a aprovação da medida provisória pelo Congresso Nacional. Considero importante que os parlamentares avaliem os dados disponíveis e levem em conta os prejuízos financeiros e sociais associados às bets.
A pesquisa realizada pelo IFEPEC contribui para esse debate ao mostrar que o tema não se resume a ganhos e perdas individuais. O endividamento, os atrasos nos pagamentos e os conflitos familiares indicam que há consequências que ultrapassam o ato de apostar. A decisão precisa levar em conta os impactos documentados e a necessidade de proteger a saúde das famílias brasileiras.