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A hora ideal para o anticoagulante

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Pesquisadores americanos descobriram a dose e o momento ideal para o uso de anticoagulantes no tratamento da covid-19 moderada. Os benefícios do medicamento foram constatados em uma análise com mais de mil pacientes. Segundo os autores, foram registrados ganhos significativos com a terapia, como a redução do uso de ventilação mecânica. Os resultados, porém, não se repetiram em infectados em estado grave. As análises foram publicadas na última edição da revista The New England Journal of Medicine.

 

Durante a pandemia, foram observados que coágulos sanguíneos se formam pelo corpo de algumas pessoas que morreram em decorrência da covid-19, até mesmo nos menores vasos. Os medicamentos antitrombóticos ajudam a prevenir essa complicação. Porém, é preciso entender melhor esse efeito. “Qual desses remédios é a melhor opção, em que dose e em que ponto durante o curso da doença eles podem render mais eficácia, todas essas perguntas precisavam de respostas”, ilustram os autores.

 

Para sanar essas dúvidas, os especialistas resolveram avaliar os efeitos do uso de uma dose completa (padrão usado no combate à trombose) da heparina e compararam com uma dose baixa (de prevenção) em pacientes com a forma moderada e o com a condição grave da covid-19. “Definimos os indivíduos com a forma moderada da enfermidade como aqueles hospitalizados pela doença, mas que não tinham a necessidade de suporte terapêutico intensivo. Os criticamente são hospitalizados pela enfermidade que requerem cuidados intensivos, com suporte para alguns órgãos”, detalham.

 

Em abril de 2020, os participantes do estudo receberam uma dosagem baixa ou uma dose completa de heparina por até 14 dias após serem internados. Em dezembro de 2020, os resultados provisórios indicaram que a anticoagulação em dose completa não reduziu a necessidade de suporte de órgãos, podendo até causar danos em pacientes em estado crítico. No entanto, um mês depois, os resultados provisórios indicaram que as doses completas de heparina beneficiaram pacientes moderadamente doentes.

 

“As nossas avaliações sugerem que um tratamento feito antes das complicações é benéfico para pacientes moderadamente enfermos e, uma vez que os pacientes desenvolvam covid-19 grave, pode ser tarde demais para a heparina alterar as consequências dessa doença”, declara, em comunicado, Judith Hochman, professora do Departamento de Ciências Clínicas da Universidade de Nova York, nos EUA, e uma das autoras do estudo.

 

A análise final dos dados incluiu 1.074 pacientes gravemente doentes e 2.219 moderadamente enfermos. Os pesquisadores observaram por quanto tempo eles ficaram sem suporte de órgãos até 21 dias após a internação. Entre os pacientes moderadamente doentes, a probabilidade do uso da heparina em dose completa reduzir a necessidade de suporte de órgãos foi de 99%, em comparação à abordagem do medicamento em baixa dose.

 

Um pequeno número de pacientes apresentou sangramentos relevantes, embora essa complicação tenha acontecido com pouca frequência. Para pacientes gravemente enfermos, a heparina em dose completa também diminuiu o número de eventos trombóticos maiores, mas não reduziu a necessidade de suporte de órgãos ou aumentou as chances de deixar o hospital logo após o tratamento.

 

Acessível

Os pesquisadores destacam que os dados observados são importantes, pois podem contribuir para um tratamento mais eficaz de hospitalizados. “A medicação avaliada nesses ensaios é familiar para médicos em todo o mundo e amplamente acessível, tornando as descobertas altamente aplicáveis a pacientes com covid-19 moderadamente enfermos”, ressalta Hochman.

 

“Esses resultados são um exemplo convincente de como é importante estratificar pacientes com diferentes gravidades de doença em estudos clínicos. O que pode ajudar um subgrupo de pacientes pode não ter nenhum benefício ou mesmo ser prejudicial em outro”, complementa Gary H. Gibbons, um dos autores da pesquisa e diretor do NIH National Heart, Lung, and Blood Institute, nos Estados Unidos.

 

Elnara Marci Negri, pneumologista do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, é uma das pioneiras no estudo da heparina para tratar a covid. No ano passado, ela e colegas do hospital avaliaram o uso do anticoagulante em pacientes internados. Em um estudo publicado em abril de 2020, no periódico British Medical Journal (BMJ), relataram que, no grupo de 27 pacientes tratados com o medicamento, 15 (56%) receberam alta quatro dias após terem iniciado a abordagem. Entre os que receberam suporte para respiração, metade dispensou o uso do ventilador um dia e meio depois do uso da heparina.

 

A médica destaca que os dados do estudo americano reforçam o que foi visto em sua pesquisa, mas com detalhes ainda mais valiosos. “Essa pesquisa mostra que a hora ideal de o paciente receber o medicamento é após alguns dias de internação, quando ele acusa que vai piorar”, explica. “Outro ponto importante é o uso da dose completa, e não a profilática. Se você usar uma dosagem mais baixa, corre o risco de o paciente apresentar complicações mais para frente.”

 

Os autores adiantam que mais pesquisas com a heparina serão realizadas e que está em andamento avaliações semelhantes com outros antitrombóticos. A médica brasileira também segue estudando o tema. Nos próximos meses, publicará mais um estudo sobre o uso da heparina no tratamento da covid-19 em parceria com cientistas canadenses e holandeses. “Nesse trabalho, observamos uma redução de quase 80% de mortalidade em pacientes internados. É um dado muito animador”, comemora.

 

Fonte: Jornal Correio Brasiliense – DF

 

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