A líder que desafia paradigmas na indústria farmacêutica
Primeira latino-americana a assumir a presidência da Roche no país, Lorice Scalise defende uma nova visão para a saúde, em que inovação, acesso, transformação digital e liderança humanizada caminham lado a lado
por Leandro Luize em
A trajetória de Lorice Scalise sintetiza uma transformação silenciosa, mas profunda, vivida pela indústria farmacêutica. Formada em farmácia pela Unesp de Araraquara, ela ingressou na Roche há 26 anos como propagandista da então divisão de Diabetes Care. Desde então, construiu uma carreira marcada por experiências em diferentes unidades de negócios, passagens internacionais pela Argentina, Suíça e Japão e posições estratégicas que lhe proporcionaram uma visão ampla sobre o funcionamento dos sistemas de saúde.
Em 2023, tornou-se a primeira mulher brasileira e latino-americana a assumir a presidência da Roche no Brasil, consolidando uma trajetória construída, segundo ela própria, menos por um planejamento rígido de carreira e mais pela combinação entre disciplina, consistência e propósito.
“Minha carreira foi me encontrando pelo caminho”, resume. Para a executiva, o fator que conecta todas as etapas dessa jornada é a paixão pelo impacto que a saúde exerce sobre a vida das pessoas. Essa convicção também molda sua percepção sobre o atual papel da indústria farmacêutica.
Ao longo da entrevista especial para o Panorama Líderes (LINK PARA O VÍDEO), Lorice deixa claro que a inovação deixou de ser apenas uma corrida por novas moléculas. Hoje, o verdadeiro desafio está em transformar avanços científicos em benefícios concretos para a população – missão que depende tanto da ciência quanto da capacidade de superar barreiras estruturais, regulatórias e sociais.
Sua visão rompe com um conceito tradicional ainda presente no setor. Para ela, acesso à saúde não significa apenas disponibilizar um medicamento inovador ou garantir sua incorporação aos sistemas público e privado. Significa assegurar que o paciente consiga efetivamente chegar ao tratamento. “O acesso não termina no medicamento. Muitas vezes ele esbarra no CEP onde a pessoa nasceu”, constata.
A inovação precisa chegar ao paciente
Na avaliação de Lorice, o Brasil reúne condições para ocupar posição de protagonismo na inovação em saúde, mas ainda convive com entraves que retardam a chegada de novas tecnologias aos pacientes. Embora reconheça a velocidade inédita com que a ciência vem produzindo soluções terapêuticas, ela observa que decisões administrativas, regulatórias e políticas ainda caminham em ritmo inferior ao desenvolvimento científico.
A experiência da pandemia reforçou essa percepção. “A ciência demonstrou capacidade de responder rapidamente a um dos maiores desafios sanitários da história recente”, destaca. Em muitos casos, porém, foram processos burocráticos e dificuldades de implementação que limitaram a velocidade do acesso.
Essa discussão, no entanto, vai além da incorporação tecnológica. Lorice defende uma mudança de paradigma na forma como o sistema de saúde é concebido. “O debate ainda está muito centrado em hospitais, medicamentos e tratamentos. Precisamos falar mais sobre como manter a população saudável pelo maior tempo possível”, analisa.
Na prática, isso significa ampliar o olhar para fatores como educação, saneamento básico, prevenção, diagnóstico precoce e acompanhamento contínuo dos pacientes.
Essa visão também influencia a estratégia da Roche no país. Prestes a completar um século de atuação no Brasil, a companhia mantém foco em áreas como oncologia, doenças raras, neurologia, oftalmologia e hemofilia, segmentos em que a inovação frequentemente representa a primeira alternativa terapêutica para milhares de pacientes.
“Cada nova terapia lançada transforma não apenas o tratamento, mas o próprio diálogo entre médico e paciente. Quando surge uma inovação, o médico deixa de dizer ‘não há mais nada a fazer’ para dizer que existe uma alternativa”, entende.
Os dados serão o novo ativo da saúde
Se existe uma revolução capaz de redefinir completamente o setor nos próximos anos, ela atende pelo nome de transformação digital. Para Lorice, inteligência artificial, análise de dados e medicina personalizada deixarão de ser diferenciais competitivos para se tornar elementos estruturantes de todo o ecossistema de saúde.
Ela cita um exemplo simples para ilustrar o tamanho dessa oportunidade. Em uma emergência médica, um paciente inconsciente ainda depende, muitas vezes, da sorte para que profissionais descubram seu histórico clínico. Na visão da executiva, esse cenário é incompatível com uma sociedade em que praticamente todas as informações relevantes já circulam digitalmente.
A integração de dados poderá acelerar diagnósticos, aumentar a precisão dos tratamentos, otimizar estudos clínicos e permitir o desenvolvimento de medicamentos mais direcionados ao perfil de cada paciente. Ao mesmo tempo, a inteligência artificial deverá reduzir o tempo necessário para descoberta de novas moléculas e ampliar significativamente a eficiência das pesquisas clínicas.
Mas ela alerta que tecnologia, sozinha, não resolverá os desafios do setor.
Por isso, acredita que profissionais do futuro precisarão combinar domínio das ferramentas digitais com conhecimentos em filosofia, psicologia, sociologia e comportamento humano – competências que permitirão interpretar contextos, compreender pessoas e tomar decisões em ambientes cada vez mais complexos.
Liderança que abre caminhos
Ao longo de sua carreira, Lorice aprendeu que liderar não significa possuir todas as respostas, mas desenvolver capacidade permanente de aprendizado. Essa convicção foi colocada à prova durante a pandemia, quando presidia a operação da Roche na Argentina. Em um ambiente marcado por incertezas, decisões precisavam ser tomadas diariamente, muitas vezes sem informações completas.
A experiência consolidou uma visão que hoje orienta seu modelo de gestão: avançar por meio de pequenas decisões consistentes, avaliando continuamente seus efeitos e ajustando a rota sempre que necessário. Essa mesma lógica orienta sua relação com as novas gerações.
Para a executiva, jovens profissionais escolhem empresas da mesma forma que escolhem pessoas com quem desejam conviver. Avaliam valores, propósito, diversidade, inclusão e coerência entre discurso e prática. Mais do que atrair talentos, as organizações precisarão demonstrar autenticidade.
Como primeira mulher a ocupar a presidência da Roche no Brasil, Lorice também reconhece o peso simbólico da função. Muito além de representar uma conquista individual, considera sua trajetória parte de um movimento maior de transformação da liderança corporativa.
Ela faz questão de reconhecer o caminho aberto por mulheres que vieram antes e, ao mesmo tempo, sente a responsabilidade de ampliar as possibilidades para as próximas gerações. Seu objetivo, afirma, não é apenas ocupar uma cadeira historicamente masculina, mas ajudar a desconstruir antigos arquétipos de liderança.