As quatro competências que definirão o futuro das farmácias
Para Edison Tamascia, o varejo farmacêutico vive um momento único
Por Edison Tamascia, presidente da Febrafar e da Farmarcas
O varejo farmacêutico brasileiro vive um momento que considero único. Ao longo da minha trajetória acompanhei diversas transformações no setor. Vieram mudanças econômicas, novas regulamentações, a expansão das grandes redes, o fortalecimento do associativismo, a digitalização dos processos e inúmeras evoluções tecnológicas. Todas exigiram adaptação. Mas poucas vezes vi tantas mudanças acontecendo simultaneamente e influenciando, ao mesmo tempo, a forma de administrar uma farmácia.
Essa talvez seja a principal característica do momento atual. Não existe apenas um desafio. Existe um conjunto de transformações que obrigará empresários e gestores a repensarem seus modelos de gestão.
Acredito que o sucesso das farmácias nos próximos anos dependerá menos da capacidade de reagir aos acontecimentos e muito mais da capacidade de antecipar movimentos. Quem esperar o mercado mudar para depois agir provavelmente já estará atrasado.
Na minha visão, existem algumas competências que precisam fazer parte da estratégia de qualquer empresa do varejo farmacêutico.
O futuro das farmácias depende desses quatro pontos
Reforma tributária exigirá uma nova cultura de gestão
Quando falamos em reforma tributária, é comum que muitos empresários imaginem uma discussão restrita ao departamento fiscal ou ao contador da empresa. Esse é um equívoco.
A mudança vai alterar a dinâmica financeira das farmácias. Questões como precificação, margem, fluxo de caixa, capital de giro e planejamento financeiro precisarão ser revistas sob uma nova lógica. Durante muitos anos, aprendemos a administrar empresas dentro de um sistema tributário extremamente complexo. Agora será necessário aprender novamente.
Estará mais preparado quem conseguir transformar informação tributária em gestão. A reforma exigirá empresas mais organizadas, mais eficientes e com decisões baseadas em planejamento. Administrar pela experiência ou pela intuição deixará de ser suficiente em um ambiente cada vez mais competitivo.
O consumidor mudou mais do que imaginamos
Existe um exemplo que gosto de utilizar porque ilustra bem a velocidade das mudanças. Minha neta nunca utilizou um aparelho de fax. Para ela, essa tecnologia simplesmente não faz parte da realidade. Da mesma forma, uma nova geração de consumidores já nasceu em um ambiente digital, no qual pesquisar preços, comprar pelo celular, receber recomendações das redes sociais ou conversar com uma inteligência artificial são atitudes absolutamente naturais.
Durante muito tempo, acreditamos que a decisão de compra acontecia quando o cliente entrava na farmácia. Hoje sabemos que ela começa muito antes. O consumidor pesquisa, compara preços, consulta avaliações, participa de programas de fidelidade, recebe recomendações de algoritmos e espera uma experiência integrada entre os ambientes físico e digital.
Cada vez mais, competiremos pela qualidade da experiência oferecida e pela capacidade de construir relacionamentos duradouros. Compreender esse novo comportamento deixou de ser uma vantagem competitiva. Tornou-se uma necessidade.
Tecnologia não é mais diferencial. É infraestrutura para competir
Outro aprendizado importante diz respeito à tecnologia. Durante muitos anos, investir em tecnologia representava um diferencial competitivo. Hoje, ela passou a ser condição básica para permanecer no mercado.
Mas é importante compreender que transformação digital não significa apenas adquirir novos sistemas ou implantar inteligência artificial. Na própria trajetória da Febrafar aprendemos que a evolução acontece por etapas. Construímos bases de dados, estruturamos projetos como PEC, fortalecemos nossa capacidade de integrar informações e agora avançamos para uma fase em que a IA amplia nossa capacidade de análise e tomada de decisão.
O próximo diferencial competitivo não estará em possuir mais informações, mas em transformá-las em inteligência para o negócio. Também defendo um conceito que considero fundamental – o letramento em inteligência artificial.
Assim como todos aprenderam a utilizar computadores e smartphones, todos precisarão compreender como utilizar essa ferramenta no seu dia a dia. Não é um conhecimento exclusivo da área de tecnologia. É uma competência que precisará fazer parte da cultura das empresas.
Nenhuma transformação acontece sem pessoas preparadas
Se tivesse que escolher uma competência capaz de sustentar todas as outras, certamente escolheria a profissionalização das equipes. Podemos investir nas melhores ferramentas, implantar sistemas modernos e desenvolver excelentes estratégias. Nada disso produzirá resultados se não houver pessoas preparadas para liderar as mudanças.
Vivemos um momento em que as organizações precisam desenvolver aquilo que especialistas chamam de ambidestria: manter excelência na operação atual e, ao mesmo tempo, construir o negócio do futuro. Isso exige líderes capazes de administrar o presente sem perder a capacidade de inovar.
Também exige compreender que novas gerações possuem expectativas diferentes, aprendem de forma diferente e enxergam o trabalho sob uma nova perspectiva. Liderar deixou de ser apenas cobrar resultados. Passou a significar desenvolver pessoas, criar ambientes favoráveis ao aprendizado e preparar equipes para mudanças que continuarão acontecendo.
No fim, continuo acreditando que tecnologia, inovação e gestão são ferramentas. Quem transforma tudo isso em resultados são as pessoas.
Tenho convicção de que o varejo farmacêutico continuará crescendo. O setor já demonstrou inúmeras vezes sua capacidade de adaptação. Mas acredito que o próximo ciclo de desenvolvimento será liderado pelas empresas que compreenderem que essas competências não disputam espaço entre si. Elas se complementam.
A reforma tributária exige tecnologia. A tecnologia depende de pessoas preparadas. Pessoas preparadas utilizam melhor os dados. Dados ajudam a compreender o consumidor. E conhecer o consumidor torna mais eficiente toda a estratégia comercial.
É essa integração que definirá o futuro das farmácias brasileiras.