Canetas emagrecedoras e bets disputam orçamento dos brasileiros
Quase metade dos usuários de GLP-1 corta outros gastos para manter tratamento
por Gabriel Noronha em e atualizado em
O orçamento das famílias brasileiras passa por uma reconfiguração, com novas prioridades ganhando espaço nas decisões de consumo. Dados da Worldpanel by Numerator mostram que canetas emagrecedoras e apostas esportivas avançam simultaneamente, disputando recursos em um cenário de restrição financeira.
Segundo o levantamento, 31% dos brasileiros se declaram em dificuldade financeira. Ainda assim, cresce o grupo mais engajado com saúde e bem-estar, que passou de 26% para 30% da população em um ano, reforçando a mudança no perfil de consumo.
Os medicamentos à base de GLP-1, utilizados no tratamento de diabetes e popularizados pela perda de peso, já estão presentes em 2,4% dos lares. Apesar da penetração ainda limitada, o impacto financeiro é relevante. O custo anual dos tratamentos gira em torno de R$ 10 mil, e 47% dos usuários afirmam ter reduzido outros gastos para manter o tratamento.
Canetas emagrecedoras tem impacto duplo no consumo
A adoção desses medicamentos também altera o comportamento de compra. Após iniciar o tratamento, 55% dos consumidores reduziram o consumo de alimentos e bebidas, com queda nos gastos em categorias como massas (-15%), farinha de trigo (-15%) e biscoitos recheados (-10%).
Ao mesmo tempo, cresce o investimento em autocuidado. Usuários de GLP-1 gastam mais com bebidas esportivas (+68%), energéticos (+56%) e itens de higiene e beleza, como cremes faciais (+43%).
Mesmo com ajustes no consumo, indulgências seguem presentes. “O consumidor não abandona os pequenos prazeres, mas passa a fazer escolhas mais seletivas para equilibrar saúde e bem-estar”, aponta a Worldpanel by Numerator.
Em paralelo, as apostas esportivas também ampliam sua participação no orçamento. Em 2025, 4% dos lares brasileiros realizaram bets, com gasto médio anual de R$ 820, alta de 7,3% em relação ao ano anterior. Entre famílias endividadas, esse valor é 14% maior.
Embora distintos, os dois movimentos refletem uma mudança estrutural. Categorias antes periféricas passam a competir diretamente com gastos tradicionais. Para a indústria e o varejo, isso amplia o desafio de entender quais necessidades ganham prioridade em um orçamento cada vez mais pressionado.