Compra da Medley está ameaçada? EMS se manifesta
Cade aprofunda análise da transação e avalia impactos em medicamentos para fertilidade e enxaqueca
por Adriana Bruno em
e atualizado em
O Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) aprofundou a análise da aquisição da Medley pela EMS e determinou uma nova rodada de diligências para avaliar os possíveis efeitos da operação sobre a concorrência.
A decisão considera, principalmente, a concentração em medicamentos utilizados para estimulação da ovulação e no tratamento de enxaqueca.
Segundo o Cade, a operação foi classificada como complexa porque a combinação dos portfólios das empresas pode resultar em elevada concentração em determinados mercados. A autarquia solicitou informações adicionais às empresas e a outros agentes do setor para avaliar as condições de concorrência.
Entre os produtos analisados estão medicamentos à base de citrato de clomifeno, utilizado em tratamentos relacionados à fertilidade. De acordo com os dados apresentados no processo, EMS e Medley poderiam alcançar participação conjunta entre 90% e 100% das unidades comercializadas nesse segmento.
A concentração também chamou atenção no mercado de medicamentos para enxaqueca. A participação combinada das empresas ficaria entre 50% e 60% do volume, com destaque para medicamentos que têm entre seus princípios ativos o naratriptano.
Em nota enviada, em primeira mão, ao Panorama Farmacêutico, a EMS afirma que: “Novamed informa que segue colaborando com o Cade e prestando todos os esclarecimentos e informações solicitados no âmbito da análise da operação envolvendo a aquisição da Medley. A companhia reforça sua confiança nos fundamentos da operação e continuará contribuindo com a autoridade concorrencial durante todas as etapas do processo”.
Cade questiona capacidade de entrada de concorrentes
Embora o mercado de medicamentos genéricos reúna diversos fabricantes e conte com capacidade instalada considerada suficiente, o Cade avalia que isso não necessariamente garante a entrada rápida de novos concorrentes nos segmentos mais concentrados.
A autarquia também considera fatores como registro de medicamentos, desenvolvimento de produtos, escala de produção e capacidade de distribuição, além do nível de fidelidade às marcas em determinadas categorias.
A operação envolve 253 medicamentos, predominantemente genéricos, distribuídos em aproximadamente 120 mercados relevantes. Em cerca de 70 deles, a sobreposição entre os portfólios é considerada baixa ou apresenta impacto limitado sobre a concentração.
EMS e Medley
Anunciada em março de 2026, a aquisição envolve a compra de 100% da Medley pela Novamed, empresa ligada ao grupo EMS. O negócio foi estimado em mais de US$ 600 milhões, aproximadamente R$ 3,1 bilhões.
Informações publicadas pelo Panorama Farmacêutico apontaram que a EMS pretende manter sua própria operação de genéricos após a aquisição. A empresa também informou que incorporará cerca de 900 funcionários e lideranças da Medley, mantendo as equipes comerciais separadas.
As fábricas da Medley também deverão ser absorvidas pela EMS, incluindo a unidade de Campinas (SP). A companhia avalia ainda investimentos superiores a R$ 1 bilhão em expansão.
A operação ocorreu após um processo de venda conduzido pela Sanofi, que vinha reduzindo sua exposição ao mercado de genéricos para concentrar esforços em medicamentos inovadores e vacinas.
Medley mantém expansão
Antes da conclusão da transação, a Medley vinha conduzindo uma estratégia própria de expansão.
Em 2025, a companhia registrou crescimento de 20%, enquanto o avanço acumulado em 2026 já superava esse percentual. “Esse desempenho reflete uma estratégia construída ao longo dos últimos anos, com planejamento, disciplina de execução e proximidade com clientes e parceiro”, observa Arthur Bortoluci, diretor comercial da companhia, em entrevista ao portal.
A empresa também trabalha na ampliação do portfólio para além dos genéricos, com iniciativas relacionadas à diversificação de áreas terapêuticas, eficiência logística e aproximação com o varejo farmacêutico.
O Cade estabeleceu prazo para que as empresas e demais participantes apresentem informações adicionais e eventuais propostas. A análise poderá resultar em novas exigências antes da decisão definitiva sobre a operação, cujo prazo previsto se estende até 22 de janeiro de 2027.