Crescer já não basta no varejo farmacêutico, dizem analistas
Primeiro tri reforça expansão das grandes redes, mas alerta para pressão sobre margens, dependência dos GLP-1 e uma nova corrida por eficiência
por Leandro Luize em
A foto que abre a reportagem ilustra a visão de alguns analistas do varejo farmacêutico. O setor segue exibindo números robustos quando envolve as grandes redes listadas em Bolsa, mas os balanços do primeiro trimestre de 2026 reforçaram sinais de alerta, indicando crescente pressão sobre margens e dependência cada vez maior dos análogos de GLP-1.
Se antes o crescimento acelerado de receita bastava para sustentar a tese positiva do setor, agora investidores e especialistas passaram a olhar com mais atenção para eficiência operacional, rentabilidade e qualidade da expansão.
A RD Saúde voltou a liderar o setor em escala e crescimento. A companhia registrou lucro líquido de R$ 299,8 milhões no primeiro trimestre, avanço próximo de 70% em relação ao mesmo período de 2025. Excluindo a operação da 4Bio, já vendida à Profarma, o lucro ajustado atingiu R$ 283,3 milhões, alta de 74,7%.
A Pague Menos também surpreendeu positivamente o mercado. A receita bruta somou R$ 4,14 bilhões, crescimento de 14,4%. A margem evoluiu para 4,9%, impulsionada principalmente pelo ganho de eficiência operacional e pelo avanço das vendas em mesmas lojas.
No Grupo Panvel, os resultados reforçaram a percepção de maior equilíbrio entre expansão e rentabilidade. A companhia reportou lucro líquido ajustado de R$ 38,5 milhões, crescimento de 38,1%. A receita bruta consolidada atingiu R$ 1,57 bilhão, alta de 15,8%. O digital respondeu por 28,5% das vendas do varejo.
Mercado ficou mais exigente
Apesar do desempenho, os relatórios do mercado financeiro passaram a trazer um tom mais cauteloso. O foco agora não está apenas em abrir lojas ou crescer receita, mas em transformar expansão em geração consistente de valor.
“Uma fatia importante desse crescimento não está necessariamente revertendo em rentabilidade. Com margens pressionadas, a escala impõe uma disciplina operacional cada vez maior”, avalia Cesar Bentim, senior advisor da Green Rock.
GLP-1 impulsiona vendas, mas eleva preocupação
Os principais vetores de crescimento continuam a ser os medicamentos à base de GLP-1. Produtos como Ozempic, Wegovy e Mounjaro vêm ampliando tíquete médio, frequência de compra e fluxo nas lojas. Mas o mercado financeiro passou a enxergar um risco importante na crescente concentração do crescimento nessa categoria.
Bentim já havia alertado para esse movimento ao analisar os resultados do ano passado. “Embora elevem tíquete médio e frequência de compra, esses produtos comprimem margens e exigem ajustes estratégicos no mix”, pondera. A preocupação aumentou após relatórios de bancos e corretoras apontarem que parte relevante da expansão recente das grandes redes foi sustentada justamente pelo avanço dessas terapias metabólicas.
Além disso, o setor poderá enfrentar uma nova transformação ainda este ano, com aexpiração de patentes da semaglutida no Brasil e a possível entrada de genéricos e novos competidores. “O cenário tende a ampliar o acesso aos tratamentos, mas também deve aumentar a pressão sobre preços e rentabilidade”, pontua Admar Corrêa, diretor executivo da Peers Consulting + Technology.
Eficiência vira principal campo de batalha
Outro consenso é que o digital deixou de ser apenas uma avenida de crescimento e passou a redefinir a lógica competitiva do setor. As grandes redes já operam com participação online próxima ou superior a 20% das vendas, enquanto a Panvel aproxima-se dos 30%. O desafio agora não é apenas vender online, mas integrar operação física, logística, marketplace e experiência do consumidor de forma rentável.
“Quem ainda trata o digital como canal está olhando para o passado”, crava Cesar Bentim. Para ele, aspectos como produtividade por metro quadrado, gestão de estoque, integração entre canais, uso de dados e controle de despesas passaram a ser fatores decisivos para sustentar rentabilidade.